Sexualidade: Não esquecer os dramas que se podem passar entre adultos

| 27 Mai 19 | Cristianismo - Homepage, Destaques, Igreja Católica, Newsletter, Sociedade, Últimas

Foto © Grant Whitty/Unsplash

 

Este texto foi escrito na continuidade de um outro publicado há algum tempo com o título: Sexualidade – Comportamentos Desviantes – Celibato.

A motivação próxima para este novo contributo foi que, na sequência da “difusão das perturbantes notícias sobre abusos cometidos por clérigos sobre menores” (são palavras suas), o Papa emérito Bento XVI publicou, recentemente, um documento a que deu o título de “A Igreja e o Escândalo dos Abusos Sexuais”.

Penso que será oportuno apresentar algumas breves reflexões.

O Papa Francisco tinha convocado todos os presidentes das Conferências Episcopais para, numa reunião em Roma, debaterem este problema. O Papa emérito sentiu a necessidade de intervir e pretendeu situar as suas reflexões no tempo decorrido entre a convocação desta reunião e o seu início.

Cito: “O meu trabalho está dividido em três partes. Num primeiro ponto tento muito brevemente delinear em geral o contexto social da questão, na falta do qual o problema é incompreensível. Procuro mostrar como nos anos sessenta se verificou um processo inaudito, de uma ordem de grandeza que na história quase não tem precedentes. Pode afirmar-se que, no vinténio 1960-1980, os critérios válidos até àquele momento sobre a sexualidade desapareceram completamente, e daí resultou uma ausência de normas, a que se procurou, entretanto, pôr remédio.No segundo ponto, procuro indicar as consequências desta situação na formação e na vida dos sacerdotes. Finalmente, numa terceira parte, desenvolverei algumas propostas para uma resposta adequada da parte da Igreja.”

No primeiro ponto, faz uma descrição dramática do que se passou a partir de 1968. No segundo ponto, fala-se das primeiras reações eclesiais, com mudanças no Direito Canónico e na formação dos sacerdotes. No terceiro ponto faz-se uma reflexão teológica, com várias propostas dela decorrentes. Como se compreende, esta última reflexão tem a ver com a doutrina e não com factos.

“Penso em toda a história do celibato. Como é possível ignorar o “antes”? A sexualidade humana e a sua integração na cultura europeia, a maneira como a Igreja tratou esta componente essencial da vida, a longa história do celibato sacerdotal com todos os dramas com ele relacionados, não são minimamente referidos neste documento.” Foto © Michael O’Sullivan/Unsplash

 

Não pretendo criticar as afirmações feitas no primeiro ponto, embora me pareçam questionáveis. O aspecto que, quanto a mim, levanta grandes interrogações, é a total ausência de referências ao que se passou antes dos anos sessenta do século XX. Como se pode explicar esta omissão? Penso em toda a história do celibato. Como é possível ignorar o “antes”? A sexualidade humana e a sua integração na cultura europeia, a maneira como a Igreja tratou esta componente essencial da vida, a longa história do celibato sacerdotal com todos os dramas com ele relacionados, não são minimamente referidos neste documento. A conclusão que se pode tirar é que não são considerados importantes para compreender o problema em apreço. Todo este longo passado da vida da Igreja não será importante para entender o que se passa no presente? Além disso, a “questão” do celibato e dos abusos relacionados, não tem só a ver com crianças mas também com as relações entre adultos. Sobre isso falei já resumidamente numa anterior comunicação sobre o mesmo assunto.

Esta mesma interrogação, ou seja, como é possível ignorar o passado, se põe também, quanto a mim, perante uma notícia recente. O patriarca de Lisboa terá indicado um magistrado para se ocupar especialmente de investigar os casos de abuso sexual de menores por parte de sacerdotes. Também em várias outras dioceses se tornou pública a decisão de constituir comissões para defender os menores e  investigar os casos de abuso sexual cometidos por elementos do clero. É óbvio que é urgente adotar procedimentos adequados para enfrentar esta realidade. Mas também aqui não se pode proceder considerando apenas um aspeto do problema. Considerar o contexto em que se verificam estes delitos e os seus antecedentes, pode ser indispensável para uma compreensão do fenómeno e para lhe encontrar um caminho de solução. Porque todos estes factos vêm na sequência de uma história. Foi só agora que se tomou consciência do problema?

No dia 9 do corrente mês de Maio, a Congregação da Doutrina da Fé publicou o “moto próprio”Vos Estis Lux Mundi.O secretário adjunto da mesma Congregação, o arcebispo Charles J. Scicluna, explicou que é uma lei que “impõe a obrigação da denúncia e protege quem denuncia”. E insiste: “Cobrir um delito não é aceitável e nunca foi aceitável”. “Ninguém está acima da lei”.

Não há dúvida de que é uma decisão importante. Mas não podemos perder de vista que, no caso do sacerdócio, a Igreja credita pessoas para exercerem funções importantes de extrema delicadeza, como a confissão e a  direção espiritual. Terão que ser homens dotados de um grande equilíbrio pessoal, de uma forte motivação e de uma maturidade afetiva de grande qualidade. Pensar só no caso da defesa das crianças é esquecer um ponto fundamental que é o da seleção das pessoas a quem é confiada esta missão. Por quem, em que condições e com que critérios é feita a sua seleção?

Acredito que estas mesmas interrogações se tenham levantado aos responsáveis, embora nada nos seja dito a este propósito. Mas é importante que o reconhecimento do drama do abuso de menores não faça esquecer os dramas que se podem passar entre adultos.

 

João Seabra Diniz é psicanalista e membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise 

Artigos relacionados

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

Sophia chegou cedo. Tinha dez ou onze anos quando li O Cavaleiro da Dinamarca, cuja primeira edição data de 1964. É difícil explicar o que nos ensina cada livro que lemos. Se fechar os olhos, passados mais de 30 anos, recordo ainda que ali aprendi a condição de pe-regrino, uma qualquer deriva que não só nos conduz de Jerusalém a Veneza, como – mais profundamente – nos possibilita uma iniciação ao testemunho mudo das pedras de uma e às águas trémulas dos canais da outra, onde se refletem as leves colunas dos palácios cor-de-rosa.

Apoie o 7 Margens

Breves

Um posto de saúde para os mais pobres na Praça de São Pedro

O Vaticano inaugurou um posto de saúde na Praça de São Pedro para ajudar os mais pobres e necessitados. O posto é composto por oito ambulatórios e, segundo um comunicado do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, citado pelo Vatican News, serão disponibilizadas consultas médicas com especialistas, cuidados especiais, análises clínicas e outros exames específicos.

Papa Francisco anuncia viagem ao Sudão do Sul em 2020

“Com a memória ainda viva do retiro espiritual para as autoridades do país, realizado no Vaticano em abril passado, desejo renovar o meu convite a todos os atores do processo político nacional para que procurem o que une e superem o que divide, em espírito de verdadeira fraternidade”, declarou o Papa Francisco, anunciando deste modo uma viagem ao Sudão do Sul no próximo ano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

As cartas de D. António Barroso…

“António Barroso e o Vaticano”, de Carlos A. Moreira de Azevedo (Edições Alethêia, 2019), revela 400 cartas inéditas, onde encontramos um retrato de corpo inteiro de uma das mais notáveis figuras da nossa história religiosa, que catalisa a rica densidade da sua época.

A morte não se pensa

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia.

O regresso da eutanásia: humanidade e legalidade

As Perguntas e Respostas sobre a Eutanásia, da Conferência Episcopal Portuguesa, foram resumidas num folheto sem data, distribuído há vários meses. Uma iniciativa muito positiva. Dele fiz cuidadosa leitura, cujas anotações aqui são desenvolvidas. O grande motivo da minha reflexão é verificar como é difícil, nomeadamente ao clero católico, ser fiel ao rigor “filosófico” da linguagem, mas fugindo ao «estilo eclesiástico» para saber explorar “linguagem franca”. Sobretudo quando o tema é conflituoso…

Cultura e artes

O pensamento nómada do poema de Deus novidade

Uma leitura de “Uma Beleza que Nos Pertence”, de José Tolentino de Mendonça.

O aforismo, afirma Milan Kundera na sua Arte do romance (Gallimard, 1986), é “a forma poética da definição” (p. 144). Esta, prossegue o grande autor checo, envolvendo-se reflexivamente numa definição da definição, é o esforço, provisório, “fugitivo”, aberto, de dar carne de visibilidade àquelas palavras abstratas em que a nossa experiência do mundo se condensa como compreensão.

Pedro Abrunhosa a olhar para dentro de nós

É um dos momentos altos do concerto: no ecrã do palco, passam imagens de João Manuel Serra – o “senhor do adeus” que estava diariamente na zona do Saldanha, em Lisboa, a acenar a quem passava – e a canção dá o tom à digressão de Espiritual, de Pedro Abrunhosa, com o músico a convidar cada espectador a olhar para dentro de si.

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Parceiros

Fale connosco