Sexualidade na Igreja Católica não é procriação

| 17 Fev 2023

“Ele (João Paulo II )começa por reconhecer que nós somos mais relacionais do que sexuais, pelo que um corpo profundamente relacional torna-se um veículo de comunhão com Deus.” Foto © Pablo Heimplatz/Unsplash

 

A deformação de algumas pessoas sobre como se vive a sexualidade na Igreja Católica não é a deformação de todos os católicos. Ao ler a entrevista feita a Daniel Sampaio pelo Público sobre o relatório publicado relativo aos abusos sexuais da parte de alguns membros do clero, ele diz a um dado momento que a Igreja Católica «criou em relação à sexualidade um terreno muito difícil em que só a sexualidade ligada à procriação é defendida pela Igreja.»

Estranho, porque desde jovem que a minha formação à sexualidade na Igreja Católica sempre foi para lá da procriação, o que significa que algo mudou desde então, ou a noção que a sociedade tem da moral sexual católica está na versão 2.0 ou 3.0 quando a mais actual é a “TC-40”.

Em 1979, o Papa João Paulo II começou a fazer umas catequeses sobre a Teologia do Corpo (TC) que duraram cinco anos. Assim, no próximo ano de 2024, faz 40 anos que na Igreja Católica, a moral sexual teve uma actualização imensamente profunda, que me marcou quando era jovem, e daí que a sua versão seja a “TC-40”.

Na Teologia do Corpo, S. João Paulo II renovou o ensino do corpo e sexualidade humanas, o modo de compreender os relacionamentos entre as pessoas com profundas implicações relativamente ao matrimónio e ao celibato. Ele começa por reconhecer que nós somos mais relacionais do que sexuais, pelo que um corpo profundamente relacional torna-se um veículo de comunhão com Deus. Anthony Percy em Theology of the Body Made Simple diz que «a sexualidade serve uma verdadeira e duradoura comunhão entre homens e mulheres – entre esposo e esposa. De facto, o sexo deveria levar-nos a uma verdadeira e duradoura comunhão com Deus. E isto é assim porque Deus é comunhão de pessoas.» Pode acontecer que do sexo sejam geradas vidas, mas não é esse o propósito do sexo na moral católica, mas antes uma “verdadeira e duradoura comunhão com Deus”.

Num excelente e transformativo livro As Conjugações do Amor (Editora Cidade Nova, 2003), o médico e sexólogo italiano Raimondo Scotto, inspirado na Teologia do Corpo e prática clínica, refere existirem três aspectos essenciais na linguagem da genitalidade: o aspecto unitivo, o aspecto fecundativo e o aspecto lúdico. Partindo do significado da sexualidade como capacidade que cada pessoa tem de ser um dom para o outro – «os gestos da genitalidade adquirem a sua máxima expressividade quando conseguem exprimir o dom total e recíproco de duas pessoas.» E no caso da doação completa entre esposos: «Este dar-se (…) pressupõe uma unidade muito mais profunda do que a simples unidade física.»

Assim, o essencial do aspecto unitivo é: quanto maior for a comunhão entre os dois, mais a relação sexual exprime e aprofunda a relação conjugal. O aspecto fecundativo não começa quando uma mãe dá à luz porque teve uma relação sexual, mas antes quando nasce o primeiro filho do casal: o amor entre os dois (como aprendi há alguns anos com o casal Rita e Rino Ventriglia). Por fim, faz parte da moral sexual católica TC-40, como diz Scotto, — «a capacidade de provocar um prazer que, apesar de partir do corpo, é capaz de gerar uma alegria que pode envolver a pessoa em toda a sua dimensão psicofísica.» Logo, a ideia antiquada de que a moral sexual católica se restringe à procriação (mesmo se existem católicos que precisam de um update a esse respeito) foi ultrapassada a partir da bomba-relógio, segundo George Weigel (biógrafo de João Paulo II), que é a Teologia do Corpo.

Na sua introdução em “A sexualidade segundo João Paulo II” (Princípia, 2006), o filósofo francês Yves Semen diz que «O verdadeiro problema do equilíbrio humano não se situa no corpo, que é muito fácil acusar, mas no coração do homem que se deixa iludir.» E quando os católicos por todo o Portugal se entristecem com o resultado deste relatório, creio que todos nos devemos perguntar que ilusões vivemos no nosso coração porque é aí que reside a raiz deste grave problema dos abusos sexuais.

Muitos lutam por uma Educação Sexual nas escolas, mas este relatório indica que a Igreja precisa de ser protagonista de uma Educação Sexual nos seminários, nas paróquias e nos movimentos de leigos. Passados quase 30 anos desde que ouvi falar da Teologia do Corpo que me marcou para sempre, parece-me, hoje, ridículo não explorar mais e melhor a revolução que a sua versão TC-40 representa. E apesar de a experimentar como mais avançada do que a moral sexual do Estado laico, aparentemente, ainda são poucos os seus utilizadores. O que falta?

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos aqui. Contacto: miguel@miguelpanao.com

 

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