“Dolorosa” Ucrânia na assembleia do CMI

“Silêncio, cantemos!” Os cristãos à procura da unidade no meio de muitas tensões

| 7 Set 2022

irmao alois em Karlsruhe Alemanha na Assembleia do CMI, foto Albin Hillert/WCC

O irmão Aloïs de Taizé unificou por dois minutos o sentir da assembleia, mas percebe-se que, entre os desejos e a busca da unidade, subsistem muitas tensões e divergências. Foto ©  Albin Hillert/WCC.

 

Podem um minuto de silêncio e um canto ajudar na busca da unidade entre os cristãos? O irmão Aloïs, prior da comunidade ecuménica e monástica de Taizé (França), surpreendeu os mais de quatro mil delegados da assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) ao propor, na manhã desta quarta-feira, 7 de Setembro, que os dois últimos minutos da sua intervenção fossem divididos entre o silêncio e um canto de louvor.

O teólogo Karl Rahner dizia que a unidade entre os cristãos não se pode atingir apenas através de conceitos, recordou o irmão Aloïs, antes de se ajoelhar perante a imagem do vitral que, em Taizé, representa o Espírito Santo e de, um minuto depois, iniciar o canto Laudate omnes gentes, laudate Dominum… (“Louvai o Senhor, todos os povos”).

“O que nos une é a palavra da Bíblia como palavra de Deus, a criação de momentos de silêncio e a intercessão por todos os que sofrem”, disse o prior de Taizé ao 7MARGENS, momentos após a sua intervenção. “A oração pode exprimir o tesouro que temos enquanto cristãos e dar sentido à luta contra as injustiças, contra as alterações climáticas ou pelo cuidado com o planeta.”

Na sessão plenária da manhã, o irmão Aloïs de Taizé referiu as origens da comunidade quando, na sequência da Segunda Guerra Mundial, o irmão Roger fundou a comunidade com um grupo de irmãos, inspirando “muitos responsáveis cristãos e sobretudo jovens na busca da unidade”. Muitas coisas mudaram desde então, mas a oração permaneceu, reunindo os irmãos três vezes ao dia com os jovens e outras pessoas que ali passam. “Muitos são buscadores, mais do que crentes”, mas todos os que participam experimentam “um sentimento de pertença comum”.

Se a proposta de Aloïs de Taizé unificou por dois minutos o sentir da assembleia, percebe-se que, entre os desejos e a busca da unidade, subsistem muitas tensões e divergências. Entre as igrejas reformadas e anglicanas do Ocidente (sobretudo Europa, Estados Unidos, Austrália…) e as igrejas orientais (Europa de Leste, Médio Oriente) ou evangélicas (africanas, latino-americanas, EUA), subsistem diferenças teológicas fundas e modos de olhar a realidade bem diferentes. No primeiro caso, predomina uma agenda que insiste em vários temas sócio-políticos (racismo, desigualdades, paz, economia) e que olha para a moral cristã tradicional como algo que as igrejas cristãs devem ultrapassar, propondo uma outra atitude em relação à sexualidade, incluindo o acolhimento de pessoas LGBTQI, por exemplo. No segundo grupo, o olhar é por vezes o oposto, pelo menos no campo da moral.

“Subsistem suspeições, conflitos, divisões”, sintetizava Jacqueline Grey, observadora delegada da Fraternidade Pentecostal Mundial e professora de Estudos Bíblicos na Universidade Alphacrucis, da Austrália. “Subsistem divisões entre pentecostais e outras tradições”, acrescentava.

Nada que não se consiga ultrapassar, buscando consensos onde eles sejam possíveis. O metropolita ortodoxo Job de Pisidia, do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, lembrou, numa conferência de imprensa ao final da manhã, que o CMI já conseguiu entendimentos sobre “o que podem os cristãos divididos dizer em comum sobre a sua fé” (texto em inglês).

 

Minutos de tensão pela Ucrânia
arcebispo de cantuaria justin welby

Referindo-se à grave situação de “crise mundial” em diversos campos, Justin Welby, primaz da Comunhão Anglicana, mostrou-se pessimista. Foto © Albin Hillert/WCC.

 

“Enquanto cristãos, somos desafiados não só pelos outros, mas também pelas nossas próprias” divisões, disse, para se referir à invasão da Ucrânia pela Rússia: “Neste momento, temos um país de tradição cristã a invadir outro país de tradição cristã, temos cristãos a matar cristãos.” A reconciliação – tema da assembleia, com o título “O amor de Cristo conduz o mundo à reconciliação e à unidade” – é uma “palavra-chave entre diferentes famílias cristãs, entre as igrejas, dos cristãos com o resto do mundo e com a criação”, afirmou Job de Pisidia.

“Somos contra a exclusão da Igreja Ortodoxa Russa do CMI”, sublinhou o metropolita. “O Conselho Mundial de Igrejas é um importante lugar de encontro e diálogo” e deve continuar a ter esse papel. Apesar desta afirmação, também dentro da família ortodoxa há tensões graves no actual momento, precisamente entre os patriarcados de Constantinopla e de Moscovo, por causa da Ucrânia. “Não temos problemas [com Moscovo], foram eles que interromperam as relações”, mesmo quando o patriarca ecuménico Bartolomeu convida para diferentes iniciativas pan-ortodoxas, justifica ao 7MARGENS.

Está em causa o reconhecimento de uma igreja ortodoxa da Ucrânia, cujo autonomia foi reconhecida em 2018 pelo Patriarcado Ecuménico, mas não pela Igreja Ortodoxa Russa, que a considera uma igreja não-canónica. Uma comunidade que o Patriarcado de Moscovo considera “nacionalista e agressiva”, como dizia Vakhtang Kipshidze, delegado da Igreja Ortodoxa Russa na assembleia do CMI. Também em declarações ao 7MARGENS, este responsável do Departamento para as Relações com a Sociedade e os Média, do Patriarcado de Moscovo, defende que o facto de as lideranças do CMI terem recusado a expulsão da Igreja Russa permite manter canais de diálogo abertos.

A guerra provocada pela invasão russa da Ucrânia, não sendo um tema da agenda, tem estado presente nos debates, muitas vezes implicitamente, outras de forma explícita. Na sessão plenária desta tarde, uma das propostas de resolução apresentadas, e que será votada nesta quinta-feira, denuncia a guerra “ilegal e injustificada” e faz um apelo a um “cessar-fogo imediato”, ao diálogo e à negociação, com o envolvimento do CI, bem como das delegações russas e ucranianas presentes nesta assembleia.

O documento, aprovado na generalidade pelos participantes, foi muito criticado pelo metropolita Filaret, da Igreja Russa, que considerou que o texto não era equilibrado. Mas dois jovens ucranianos sublinharam a sua importância e pediram aos delegados russos que mostrassem a sua oposição à invasão da Ucrânia. Naquele que foi talvez o momento mais tenso desta assembleia, o comité de redacção pediu desculpa por não ter conseguido recolher todas as sensibilidades. “Sabíamos que era um documento complexo, divisor e doloroso”, disse um dos relatores. “Daremos o nosso melhor para ter um bom documento final.”

Talvez por causa de questões como as divisões ortodoxas ou a guerra, o bispo irlandês Brian Farrell, secretário do Dicastério do Vaticano para a Promoção da Unidade dos Cristãos, recordou que durante muito tempo a unidade foi encarada como “uniformidade”. “Prefiro usar a palavra comunhão”, disse na conferência de imprensa do final da manhã. O diálogo ecuménico, no qual, disse, a Igreja Católica está “muito empenhada”, é um “processo de aprendizagem”.

Também o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, primaz da Comunhão Anglicana, falou de como o tema da assembleia do CMI – “O amor de Cristo move o mundo para a reconciliação e a unidade” – está relacionado com o tema da recente Conferência dos Bispos Anglicanos de Lambeth, que decorreu em Agosto com o tema “A Igreja de Deus para o Mundo de Deus”.

“Encontrámos o nosso caminho, não solucionando os problemas, mas vivendo à luz de Cristo, assumindo que não estamos de acordo, sendo honestos sem nos excluirmos uns aos outros”, disse ele. “No início muitos sentiram que não podiam participar até ao fim, mas quase todos o fizeram.”

Referindo-se à grave situação de “crise mundial” em diversos campos, Welby mostrou-se pessimista: “As próximas décadas não parecem melhores, economicamente, militarmente, espiritualmente, socialmente, cientificamente, tecnologicamente, especialmente para os mais pobres e mais fracos.” Por isso, os cristãos “devem ser uma comunidade de paz”.

O desafio, concluiu o primaz anglicano, “é reencontrar a paixão espiritual do passado pelo ecumenismo: teologicamente, em solidariedade com o sofrimento, no amor que cobre uma multidão de pecados”, disse. “Para o fazermos, devemos enfrentar juntos os nossos medos uns dos outros e do mundo, devemos amar-nos uns aos outros, devemos dar testemunho comum e trabalhar para uma unidade mais visível que reimaginemos na graça de Deus”.

 

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