Silêncio, que se vai rezar (a ouvir) o fado

| 10 Fev 21

Podem os olhos, as mãos ou o rosto de quem canta o fado exprimir uma atitude de religiosidade? Cátia Tuna investigou o tema e descobriu como a canção – que começou por ser boémia e se tornou “nacional” – preencheu um vazio que o catolicismo orgânico tinha deixado a descoberto. Silêncio, que se vai rezar (a ouvir) o fado.

Ercília Costa na foto da capa do seu disco “Amôr de Mãe”. Espólio do Museu Nacional do Teatro e da Dança.

 

Uma cabeça levantada, olhando para o alto. Olhos semicerrados. E uma voz que se solta, acompanhando as guitarras. Como em Uma Oração, de Lino Teixeira, interpretado por Aurora Neves (a letra está disponível na página da Fundação Mário Soares e o fado pode ser escutado no Arquivo Sonoro Digital)

O fado que me extasia
que me encanta e me seduz
É como santa oração
que às vezes rezo a Jesus. (…)

É nas horas de tormento
em que arrasto negra cruz
Ele é que me dá alento
que me encanta e me seduz

Às vezes quando redime
tristezas do coração
Essa trova tão sublime
é como santa oração

Por isso o fado dolente
que sentimento traduz
É a prece mais fremente
que às vezes rezo a Jesus.

 

Cabeça levantada para o alto, em oração; ou atirada para a frente, em desafio, ou olhando em frente: a posição do corpo pode dizer muito sobre o que se está a cantar. Ilustração © Filipe Araújo, cedida pelo autor.

 

Os gestos, a posição da cabeça e das mãos, a forma como se olha, podem ser sinais – a par das letras – de uma experiência que deu ao fado também uma expressão religiosa. “Há uma dimensão de êxtase, de uma experiência espiritual e performativa, que não é só uma expressão corporal”, diz ao 7MARGENS Cátia Sofia Tuna.

Estamos perante uma expressão influenciada pelo barroco, “cujo modus faciendi do crer, valorativo da emoção, detém no fado uma linha de continuidade subtil”, observa a investigadora. “Designadamente na construção de um êxtase trágico ou numa retórica corporal que visa o alcance de um pathos colectivo.”

“Havia mesmo críticos do fado que ironizavam afirmando que a fadista entrava num transe num transe, enquanto os que apreciavam referiam a alma que se apoderava da voz da fadista, destacando a sua dimensão quase divina”, acrescenta a historiadora, autora da tese “Não Sei Se Canto Se Rezo”: Ambivalências Culturais e Religiosas do Fado (1926-1945), defendida em Março de 2020 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A tese foi entretanto já premiada na área da investigação histórica pela Fundação Mário Soares e Fundação EDP e pelo Prémio Vítor de Sá de História Contemporânea, da Universidade do Minho.

 

Tradição e modernidade em debate

 

Cátia Tuna. Fado. teologia. Música

Cátia Tuna intervém neste dia 10 de Fevereiro no debate sobre “A tensão entre a tradição e a modernidade no fado e no cristianismo”. Foto © Ecclesia

 

Cátia Tuna será, a partir das 21h00 desta quarta-feira, 10 de fevereiro, uma das intervenientes no colóquio “A tensão entre a tradição e a modernidade no fado e no cristianismo”, promovido pelo Centro de Reflexão Cristã, de Lisboa. No debate, participam também o musicólogo Rui Vieira Nery e a directora do Museu do Fado, Sara Melo Pereira. A participação é livre, devendo os interessados manifestar essa intenção para o endereço centroreflexaocrista@gmail.com.

Esta dimensão e posição do êxtase fadista – cabeça levantada, olhos ao alto, muitas vezes fechados ou semicerrados – que Cátia Tuna refere, “assume a sua forma final com Amália e os e as fadistas actuais”. Mas ela começa com intérpretes como Ercília Costa, “a santa do fado” como era conhecida.

Outro exemplo desta relação entre a expressão fadista e a religiosidade é aquilo que na publicação Canção do Sul, em 1934, se descreverá sobre a então jovem Hermínia Silva, e que Cátia Tuna reproduz na sua tese: “O fado, para ela, sem pieguices nem metáforas, é a voz que Deus colocou no coração para este falar com o exterior. E na voz da jovem fadista o Criador foi generoso: alguns milhares de ibéricos a têm ouvido… e compreendido.” E, sobre Berta Cardoso, dirá João Reis em 1936, na publicação já referida, que a sua garganta “mais parece um rosário de notas musicais, tocadas de qualquer ritmo divino, que uma voz humana”.

Berta Cardoso, com João Fernandes e Santos Moreira, no Rio de Janeiro (Brasil), em 1932: “A sua garganta mais parece um rosário de notas musicais, tocadas de qualquer ritmo divino, que uma voz humana”, escrevia João Reis. Foto © Centro de Documentação do Museu do Fado.

 

A construção de um ambiente de religiosidade, sobretudo nos concertos, e com um papel destacado para Ercília Costa, foi já estudada por Rui Vieira Nery, recorda Cátia Tuna. E começa precisamente sobretudo durante a década de 1930, abrangida pelo período estudado pela investigadora, quando os concertos de fado se começam a afirmar.

Política e socialmente, é também uma época de transição, que coincide com as duas primeiras décadas do Estado Novo, com o regime de censura prévia, a polícia política e a “moralização” dos costumes com a afirmação de uma ordem social restrita.

Posições femininas a cantar o fado: os gestos das varinas ou vendedoras ambulantes a cantar os seus pregões são adoptados também quando se canta o fado. Ilustração © Filipe Araújo, cedida pelo autor.

 

Nessa época, o fado deixa paulatinamente de ser sobretudo uma canção boémia e de protesto social para se configurar como “canção nacional”. A “grande carga emocional” que Ercília imprimia às suas actuações iria influenciar gerações de fadistas – e Amália Rodrigues irá referi-la como uma marca relevante para a sua própria carreira.

O carácter social que predominava no fado até então articulava-se com uma vinculação à identidade popular, observa Cátia Tuna. “O fado afirmava-se como uma força cultural de índole popular e a ligação ao povo dava-lhe legitimidade.”

Nos gestos, as ou os fadistas reflectem também esse pendor – como virão depois a reflectir a expressão da religiosidade ou da espiritualidade. A posição das mãos na cintura, gesto das varinas ou das vendedoras ambulantes enquanto cantavam os seus pregões, acaba por ser adoptada também quando se canta o fado, coincidindo por vezes com o lançamento do rosto para a frente, em atitude de desafio.

 

As mulheres fadistas e a gramática religiosa
Fado, Ercília Costa, Cátia Tuna, Música

Ercília Costa em concerto nos EUA, em 1939. Foto do espólio de Manuela Costa, sobrinha da fadista.

 

A aproximação do fado a uma dimensão religiosa acaba por preencher um deserto deixado pela expressão religiosa institucional, observa ainda Cátia Tuna. “O espaço deixado vazio não é necessariamente negativo, é a verificação de uma realidade, e acaba por ser uma condição que produz outras formas de espiritualidade ou produção de sentido, diz.

Foi esse, aliás, o objecto central da sua tese: estudar a expressão religiosa no fado, “não na sua dimensão institucional ou confessional mas essencialmente na sua vertente antropológica”, no vértice “entre a história religiosa e a história cultural”.

Nesse processo, cruzam-se elementos ligados à transcendência com outros de diferentes instâncias religiosas de diferentes matizes, numa “relação de simbiose”: por exemplo, como acontece quando se identifica a mãe com a figura de Maria, mãe de Jesus. É o caso do fado Amor de Mãe, cantado por Ercília Costa (que também se pode escutar no Arquivo Sonoro Digital e cujo texto integral se pode encontrar na página da Fundação Mário Soares), quando diz:

Capa do disco Amôr de Mãe, de Ercília Costa. Espólio do Museu Nacional do Teatro e da Dança.

O amor de mãe tanto encanta
e seduz
E tanta grandeza tem
Que Maria só foi santa
Depois, depois de ter sido mãe
de Jesus.

No trânsito que se verifica entre essas duas décadas estudadas (1925-46), Cátia Tuna nota que “o fado deixa de ser uma linguagem relacionada sobretudo com o exterior (os pobres, a guerra, os cegos, um acidente) para se tornar uma música mais interiorizada”. O fado “canta tudo, é uma música pluritemática, mas acentua-se cada vez o lado mais íntimo no repertório cantado.

Ao mesmo tempo, deixa de ser uma música “boémia, masculina, urbana e popular para dar lugar a um protagonismo sobretudo feminino”. Passa a haver mulheres fadistas vedetas, que constroem ou recorrem a uma gramática religiosa.

O fado como canção de revolta social, apreciado por artistas ou poetas (Fernando Pessoa, António Botto…), um processo que já vinha do final do século XIX, como Vieira Nery já referenciou, passa para segundo lugar, num processo que se acentua neste período.

 

Como compaginar um Deus misericordioso com as desigualdades?

Capa da partitura Fado Paris, de António Menano, com um desenho de Stuart de Carvalhais. Centro de Documentação do Museu do Fado.

Essa transição para o começo do século XX marca, em Portugal, um tímido início da industrialização, urbanização e secularização. O catolicismo, enquanto expressão orgânica e social, não foi capaz de acompanhar esses movimentos. E viu-se de algum nodo substituído na sua função de dar um enquadramento existencial aos indivíduos por “dinâmicas associativas e pelos conteúdos ideológicos de movimentos de vanguarda política”.

As letras dos fados eram, nesse tempo, marcadas predominantemente por afirmações anti-militaristas, anti-religiosas, políticas ou, simplesmente, para falar da situação do operariado, das desgraças sociais, da crítica ao capital como valor, crítica às desigualdades sociais, da doença, da pobreza, da prostituição… O fado e os/as fadistas estavam “muito ligados aos movimentos radicais como o anarco-sindicalismo.

Com o advento do Estado Novo, da censura e da repressão e perseguição políticas, esses movimentos são forçados, por sua vez, a ceder o passo a outras expressões mais intimistas, “apagando” os temas precedentes, diz Cátia Tuna.

“É um processo vagaroso”, diz a investigadora, mas que contraria a ideia do senso comum de que o fado sempre cantou apenas a saudade, o destino, o amor… “É uma questão das representações que se têm: houve fadistas comunistas” ou, mais tarde, a partir de 1945, entre os militantes do MUD, o Movimento de Unidade Democrática.

O fado, enfim, exprime “o problema de compaginar um Deus acreditado como misericordioso” com a questão das “desigualdades sociais e do sofrimento individual”. Deus como que sai daí “ilibado, assim como a própria sociedade, ao encontrar-se no destino o verdadeiro culpado pelo problema do mal”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

Breves

Vida para lá da Terra? Respondem teólogos e astrónomos novidade

Ciência e Espiritualidade é o mote para um encontro organizado pela Faculdade de Teologia e pelo Departamento de Astronomia da Universidade de Genebra (Suíça). “O homem e o céu: do universo mítico ao universo científico” é o tema que procurará responder a perguntas como: O que é o universo? Vida, aqui e além? De onde vimos? Para que fim?

Seminário de Coimbra assinala Dia Internacional dos Monumentos e Sítios com direto na cúpula da igreja

Uma conversa em cima do andaime montado na cúpula da igreja do Seminário Maior de Coimbra irá juntar, no próximo dia 19 de abril, pelas 18h, o padre Nuno Santos, reitor da instituição, e Luís Aguiar Campos, coordenador do projeto de conservação e restauro do seminário. A iniciativa pretende assinalar o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios (que se celebra domingo, 18) e será transmitida em direto no Facebook.

Vaticano saúda muçulmanos no Ramadão

O Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, da Santa Sé, enviou uma mensagem aos muçulmanos de todo o mundo, por ocasião do início do Ramadão, convidando todos os crentes a serem “construtores e reparadores” da esperança.

China quer que clérigos tenham amor pelo Partido Comunista

Novo decreto governamental é “mais uma medida totalitária para limitar a liberdade religiosa”, acusa organização de direitos humanso. O decreto aplica-se a todas as religiões, ou seja, lamas budistas, clérigos cristãos, imãs muçulmanos e outros líderes religiosos.

Aumentar valor das prestações sociais, sugere Pedroso nos 25 anos do RSI

O valor das prestações sociais como o Rendimento Social de Inserção (RSI) deveria aumentar, pois já não responde às necessidades das pessoas mais vulneráveis. A ideia é defendida por Paulo Pedroso, que foi o principal responsável pela comissão que estudou o modelo de criação do então Rendimento Mínimo Garantido (RMN).

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Quebra de receitas da principal Igreja financiadora do Vaticano

A Igreja Católica alemã, que é líder no contributo que dá habitualmente para as despesas da Santa Sé (juntamente com a dos EUA), teve “um verdadeiro colapso” nas receitas, em 2020, segundo dados divulgados pelo jornal Rheinische Post, citados por Il Messaggero.

Francisco corta 10% nos salários dos cardeais

O Papa Francisco emitiu um decreto determinando um corte de 10% nos salários dos cardeais, bem como a redução de pagamento a outros religiosos que trabalham na Santa Sé, com efeitos a partir de 1 de abril, divulgou o Vaticano esta quarta-feira, 24 de março. A medida, que não afeta os funcionários com salários mais reduzidos, visa salvar os empregos no Vaticano, apesar da forte redução das receitas da Santa Sé, devido à pandemia de covid-19.

Espanha: Consignações do IRS entregam 300 milhões à Igreja Católica

Os contribuintes espanhóis entregaram 301,07 milhões de euros à Igreja Católica ao preencherem a seu favor a opção de doarem 0,7% do seu IRPF (equivalente espanhol ao IRS português). Este valor, relativo aos rendimentos de 2019, supera em 16,6 milhões o montante do ano anterior e constitui um novo máximo histórico.

Entre margens

Dois quadros de Caravaggio novidade

Há dois episódios que recentemente recordámos na liturgia que continuam a deixar-nos cheios de perplexidade. Falo da tripla negação de Pedro e da incredulidade de Tomé. Afinal, somos nós mesmos que ali estamos representados, por muito que isso nos choque. E o certo é que, para que não haja dúvidas, as palavras que pontuam tais acontecimentos são claríssimas. Pedro recusa terminantemente a tentação, quando Jesus lhe anuncia que ele O vai renegar. E nós sentimo-nos aí retratados.

Europa: um Pacto Ecológico para inglês ver?

“O Pacto Ecológico Europeu é … uma nova estratégia de crescimento que visa transformar a UE numa sociedade equitativa e próspera, dotada de uma economia moderna, eficiente na utilização dos recursos e competitiva, que, em 2050, tenha zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa e em que o crescimento económico esteja dissociado da utilização dos recursos.” (Pacto Ecológico)

Leprosários

A mais recente Responsum ad dubium[1] da Congregação para a Doutrina da Fé relativa à bênção de uniões homossexuais tem feito correr rios de tinta. Se, por um lado, haja quem veja um retrocesso no caminho de inclusão delineado pelo Papa Francisco, outros encaram esta resposta como um travão necessário à prática de bênçãos a casais homossexuais, em total coerência com a linha da doutrina moral da Igreja.

Cultura e artes

A torrente musical de “Spem in Alium”, de Thomas Tallis

Uma “torrente musical verdadeiramente arrasadora”, de esperança pascal, diz o padre Arlindo Magalhães, comentador musical, padre da diocese do Porto e responsável da comunidade da Serra do Pilar (Gaia), a propósito da obra de Thomas Tallis Spem in Alium (algo que se pode traduzir como “esperança para lá de todas as ameaças”).

A Páscoa é sempre “pagã”

A Páscoa é sempre pagã / Porque nasce com a força da primavera / Entre as flores que nos cativam com promessas de frutos. / Porque cheira ao sol que brilha na chuva / E transforma a terra em páginas cultivadas / Donde nascem os grandes livros, os pensamentos / E as cidades que se firmam em pactos de paz.

50 Vozes para Daniel Faria

Daniel Faria o último grande poeta português do século XX, morreu há pouco mais de vinte anos. No sábado, dia 10, assinala-se o 50.º aniversário do seu nascimento. A Associação Casa Daniel assinala a efeméride com a iniciativa “50 Vozes para Daniel Faria” para evocar os poemas e a memória do poeta.

“Sequência da Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo”

Sem poder ir ao cinema para poder falar de um novo filme que, entretanto, tivesse estreado, porque estamos em tempo de Páscoa e porque temos ainda viva diante dos olhos a profética peregrinação do Papa Francisco ao Iraque – que não pode ser esquecida, mas sempre lembrada e posta em prática – resolvi escrever (para mim, a primeira vez neste lugar) sobre um filme profundamente pascal e actual: Dos Homens e dos Deuses (é quase pecado não ter experimentado a comoção de vê-lo). E não fui o único a fazê-lo por estes dias.

Sete Partidas

O regresso à escola má novidade

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This