Silêncio, Tempo e Discrição

| 15 Jan 2024

“E, sim, estou preocupada, entre outros, com a escrita. Esta que nos ilustra, que nos partilha, que nos define; esta que leva tempo a ser produzida e maturada; esta que retrata o sentir do nosso coração e o pensar da nossa cabeça.” Foto © Anne Nygård / Unsplash

 

Antes de começar este texto fui “limpar” e-mails e dar merecidas respostas a contactos atrasados, por escassez de tempo disponível e não por não merecerem a minha atenção.

No meio destes encontrei um curriculum e uma carta de motivação com um texto algo complexo, bem elaborado, mas com um floreado tão “estético-balofo” que, obviamente, conhecendo bem o seu autor, só pode ter resultado da produção fictícia de um qualquer chat da inteligência artificial.

O tom com que escrevo estas primeiras linhas é já crítico. Objetivamente o texto estava mesmo bem escrito.

Estando, anteontem, a preparar a minha intervenção numas Jornadas, dei por mim a fazer, em certo ponto, uma pequena descrição, que dizia mais ou menos assim – Vivemos num mundo sem silêncio, sem persistência, sem discrição, assente na exibição, com muito má relação com o esforço, sem capacidade de adiamento da gratificação e com procura sistemática de soluções mágicas.

É mais ou menos óbvio que, com fome, guerras, vulcões em erupção e, consequentemente, milhares de seres humanos inocentes, a viver no limiar da morte ou se quisermos a esgotar o seu existir, minuto a minuto, numa luta incansável pela estrita sobrevivência, parece que o que acima reflito não tem qualquer importância. No entanto, estamos a ficar ensurdecidos e desesperançados pela falta de arte de passar os dias de forma tranquila e silenciosa; pela escassez de relação connosco mesmos; pela pequenez das deslumbradas exibições que exaltam formas sem conteúdo.

Einstein dizia que há que fazer as perguntas que nunca foram feitas para encontrar as respostas que nunca foram dadas. Assim, coloco algumas que espero pertinentes para fazer refletir ou melhor para que cada um aprofunde o essencial de si sem se deslumbrar com o que deixa de fazer e com os processos da sua vida que já não passam pela sua criação. A construção de textos é um exemplo assustador que nos inibe de conhecer cada outro, pois nada é da sua autoria. Pode ser uma versão melhorada, mas não saiu de si. Ou será desta maneira que temos de aprender a viver? – assinamos, mas não somos autores; usamos palavras diferentes das que os chats usam por nós, mas as destes são melhores; queremos falar de quem somos, mas não somos nós a dizer-nos; ativamos a nossa criatividade, mas ela é reformulada de um modo mais criativo do que o nosso, portanto com um produto final melhor;… E, no meio disto, onde é que ficámos? Perdemo-nos de nós mesmos? Já não conseguimos exatamente saber quem somos? E, se assim for, onde fica a nossa saúde mental? Será que é mesmo possível viver bem sem ela? Ou será que não a temos, mas já não sabemos isso? O que é feito do nosso equilíbrio psico-emocional e espiritual neste tempo em que poucos se detêm na tentativa de aprofundamento do seu ser?

Este planeta que confunde fácil com feliz, parece estar a baralhar-nos sem que disso demos conta. As aparências são de que TUDO se faz JÁ, com BRILHANTISMO, com ELOQUÊNCIA, sem ESFORÇO e com PROJEÇÃO garantida.

Nunca se falou tanto de stresse e de corrida contra o tempo como agora, mas afinal este tema está a ficar desatualizado. Será? Tudo o que antes fazíamos, algo pode substituir-nos e fazer por nós; tudo o que antes aprendíamos hoje emana como se fosse da nossa lavra, mesmo sem sabermos o que quer que seja;…

E, sim, estou preocupada, entre outros, com a escrita. Esta que nos ilustra, que nos partilha, que nos define; esta que leva tempo a ser produzida e maturada; esta que retrata o sentir do nosso coração e o pensar da nossa cabeça. Esta que, hoje, um chat substitui magicamente; que nos faz parecer magníficos; que nos disfarça de nós mesmo e dos outros, pois põe diante deles, como se fosse nosso, algo que, em nós, não existe.

Confesso que, muitas vezes, experimento aquilo que nem sei se é bem ciúme dos chats de escrita artificial. Perco, ou talvez ganhe, mas não consigo sentir isso, tempo a ler e a escrever; cada palavra sai à cadência frouxa da minha inspiração; cada parágrafo é objeto de esforço feito no silêncio que só o tempo que lhe disponibilizo permite. E, aí vem a pergunta final – será que compensa, que vale a pena, que o mundo merece isso e eu também? Ou que mais valia dispensar o silêncio, aproveitar o tempo com outras visibilidades e reformular o sentido, passando do ser autêntico, para o bem parecer, mesmo sem ter dentro o eu de cada um de nós?

Como é possível resistir nos tempos de hoje sem fazer algumas opções? Como é possível continuar com os métodos antigos nos novos contextos? Como é possível que os humanos sobrevivam aos algoritmos que os próprios homens criaram?

Será que estamos a correr o risco de sermos mais imperfeitos do que as nossas criações? Será que nos deixámos ou deixaremos, a curto prazo, inutilizar por elas?

Enfim, disto não tenho dúvidas – este texto poder-se-ia ter chamado – perguntas sem resposta nos tempos que agora correm.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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