
Esta será a distância mais longa que Sílvia alguma vez percorreu, depois de no ano passado ter feito uma ultramaratona de 58 quilómetros, também para angariar fundos para as crianças apoiadas pela Mary’s Meals. Foto: Direitos reservados
A previsão é de chuva e trovoada para o próximo sábado, 12 de outubro. Mas isso não vai demover Sílvia Duarte de correr 100 quilómetros nesse dia, por trilhos exigentes (e certamente lamacentos). Seria mais fácil e confortável ficar no seu salão de cabeleireiro a atender os clientes, como faz todos os sábados… mas não tão útil. Porque Sílvia não irá correr por desporto ou prazer: esta será uma corrida solidária para ajudar a levar refeições escolares às crianças mais pobres de Moçambique, através da associação Mary’s Meals. E para isso Sílvia apela ao apoio de todos: mas não se assustem os leitores, que não será preciso saírem de casa.
Não é a primeira vez que esta cabeleireira de profissão, 57 anos, mãe de três filhos e artesã nos tempos livres – que são pouquíssimos! – corre para ajudar os mais necessitados. A última prova que fez, no passado mês de maio, tinha como objetivo angariar fundos para, através da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, apoiar as populações deslocadas e os cristãos perseguidos em Cabo Delgado, também em Moçambique. Só nessa prova – um duro trail de 22 quilómetros pela serra de Monsanto, em Lisboa – angariou mais de cinco mil euros em donativos de pessoas que se identificaram com a causa pela qual corria.
Sílvia Duarte: Como uma cabeleireira descobriu na corrida um modo de ser solidária
O altruísmo e o esforço de Sílvia não passaram despercebidos a António Juliasse, bispo de Pemba, diocese na província de Cabo Delgado que tem sido particularmente afetada pelos conflitos armados e atos terroristas. De passagem por Portugal no regresso de Roma, onde esteve para a visita ad limina dos bispos de Moçambique, o prelado fez questão de se encontrar pessoalmente com a benfeitora.
“Não foi tanto por aquilo que foi mobilizado em termos materiais, mas pela consciencialização que esta decisão pessoal de correr por Cabo Delgado possa ter criado na sociedade portuguesa e na Europa e isso comoveu-me bastante”, disse o bispo durante o encontro, que decorreu no passado sábado, 5 de outubro, na paróquia de São Julião da Barra (Oeiras), à qual Sílvia pertence. “Comoveu-me ver que em terras distantes de Cabo Delgado há pessoas que não estão distantes daquilo que está por lá a acontecer e fazem gestos maravilhosos como o gesto da Sílvia. Eu, passando por Portugal, vim dar um abraço à Silvia para a encorajar a continuar com esse coração tão humano”, acrescentou António Juliasse.
E não só a abraçou e encorajou, como lhe deu duas bênçãos especiais. “O encontro coincidiu com a data em que eu e o meu marido celebrávamos 28 anos de casamento e também com o dia em que faltava precisamente uma semana para a próxima corrida solidária. Ele abençoou então o meu casamento e esta nova corrida, e assegurou-me: ‘Deus não lhe faltará com nada’. Foi tão especial… fiquei emocionada”, partilha Sílvia Duarte, em declarações ao 7MARGENS.
“Acima de tudo, este encontro foi mais um sinal para mim. Logo que soube que o bispo António Juliasse estava interessado em conhecer-me, tive a certeza de que tudo isto é plano de Deus… e depois do encontro senti-me mais em paz, menos ansiosa para a corrida”, revela a cabeleireira.

“Eu, passando por Portugal, vim dar um abraço à Silvia para a encorajar a continuar com esse coração tão humano”, disse o bispo António Juliasse. Foto © ACN
Treinos feitos… e um sentimento de paz
Esta será a distância mais longa que Sílvia alguma vez percorreu, depois de no ano passado ter feito uma ultramaratona de 58 quilómetros, também para angariar fundos para as crianças apoiadas pela Mary’s Meals. “Se há um ano alguém me dissesse que agora iria fazer 100 quilómetros, eu diria: ‘Nem pensar! É muito sofrimento!'”, reconhece Sílvia Duarte. “Só sei que quando dizemos o nosso ‘sim’ de coração bem aberto e quando a vontade de estar ao serviço do próximo é muita, Deus não para de nos surpreender! E este é um caminho que não para de crescer…”, acrescenta.
A poucos dias da corrida, o Trail Abrantes 100, Sílvia explica que a maior parte do seu trabalho está feita. “Tive que passar a treinar cerca de 70 quilómetros por semana, e é no caminho que tenho crescido espiritualmente e fisicamente. Sinto que quando o espírito, a mente e o corpo estão conectados, nós ficamos imparáveis!”. E o sentimento que prevalece no seu coração é o de “paz”, porque “Deus está no comando”.
Depois de ter angariado já perto de 40 mil euros para causas solidárias com as várias provas que fez até ao momento, a atleta convida aqueles que puderem a apoiar mais esta, mesmo sem saírem de casa. Os donativos podem ser feitos por MB Way (para o número 912 524 403) ou transferência bancária (IBAN PT50 0007 0000 0036 7851 3552 3).
Aqueles que quiserem conhecer melhor a missão da Mary’s Meals em Moçambique são convidados a participar na conferência que a associação irá dinamizar em Abrantes, no Salão da Esperança, às 21 horas de sexta-feira. Os mais resistentes poderão ir assistir à partida de Sílvia, que acontece ali perto, na Praça Barão da Batalha, quando for uma da manhã… mesmo que a previsão meteorológica se confirme.
Pela distância, pelo número de horas a correr – a maior parte delas durante a noite -, pela dificuldade do percurso e pelas condições meteorológicas, esta será a prova mais exigente de Sílvia. Mas é também aquela em que está mais confiante: “Sinto que Deus me escolheu para coisas difíceis. E gosto muito de sonhar grande porque acredito num Deus grandioso”, diz. Certamente que o sonho não vai terminar por aqui.

O cartaz da iniciativa solidária.









