80 anos da sua morte

Simone Weil: atenção para iluminar a escuta do mundo

| 24 Ago 2023

Simone Weil

Imagem de arte de rua da filósofa Simone Weil, Berlín Kreuzberg (2019)

 

Na homenagem que presta a Simone Weil, no octogésimo aniversário da sua morte, que ocorre esta quarta-feira, 24, o Le Monde des Réligions publica um extenso texto do escritor e editor Stéphane Barsacq (ligação acessível a assinantes), que põe em destaque algumas chaves para compreender aquela que designa, citando Cioran, como “a pensadora mais poderosa da sua geração”.

O autor começa por dizer de Weil que “ela foi, antes de mais, um ser livre – livre de todas as convenções, ela que elevou o amor e rejeitou a propriedade”. Liberdade que veio da opção de “nunca se limitar à condição feminina, porque queria ser considerada como um indivíduo de pleno direito, sem distinção”. Mas também por escolher “distanciar-se das suas origens e optar por uma vida de rupturas”, nas opções políticas, religiosas, de trabalho…

“Amante da justiça e movida por uma cultura humanista, nunca separou o seu empenhamento filosófico da ação no terreno”, enfatiza ainda o autor, proporcionando elementos ilustrativos da trajetória de vida da filósofa.

São quatro as chaves que Barsacq propõe para ler e compreender esta filósofa: uma vida de militância e de meditação; para uma “espiritualidade do trabalho”; a mulher enamorada; e a tríplice dimensão da verdade.

Sobre o primeiro ponto, o autor recorda a vida curta de Weil, para sublinhar: “Nascida em 1909, Simone Weil morreu aos 34 anos, no final de uma vida que se assemelha a um destino, no qual se completa o círculo: foi, alternadamente, uma académica, uma heroína, até uma santa, ainda que leiga; e sempre em partes iguais militante e meditativa. Ela não era iluminada: ela é iluminadora”. Conjugava, por opção, o pensar e o agir, o agir com justiça, com atenção, com entrega, mesmo que isso a forçasse a abdicar do que tinha e do que gostava.

O trabalho é proposto como um dos grandes temas da vida e da obra de Weil. Ela vai trabalhar para grandes fábricas como operária. Aí descobre que, a tecnologia desumaniza o trabalho, em vez de o facilitar. Nas palavras de Stéphane Barsacq, “o trabalhador tornou-se, assim, escravo da máquina, privado de qualquer controlo sobre os frutos do seu trabalho, do orgulho de o ter realizado, do seu tempo e da sua liberdade”

Para ela, “essa liberdade essencial (…) nasce do exercício de uma atenção extrema”, que só se pode desenvolver nesse jogo permanente entre pensamento e ação. Ora os “ritmos infernais e rotineiros não permitem que se trabalhe e desenvolva essa atenção.

“A verdade – escreve ela em 1935, na Réflexions sur les causes de la liberté et de l’oppression sociale – é que a escravatura degrada o homem ao ponto de o levar a gostar dela; que a liberdade só é preciosa aos olhos de quem a possui de facto; e que um regime totalmente desumano, como o nosso, longe de forjar seres capazes de construir uma sociedade humana, molda à sua imagem todos os que lhe estão sujeitos, tanto oprimidos como opressores”

Ela entendia que o trabalho, e sobretudo o manual, “desempenha um papel central na condição humana”. “Em que outra atividade pode o homem exercer melhor uma forma de santidade? A fraternidade? O enriquecimento espiritual (…)? Que outra coisa pode oferecer ao homem a experiência da verdade, pondo-o em contacto com a realidade do universo?”, interrogava.

A terceira chave designa-a o autor do artigo de Le Monde des Réligions: “Simone Weil – enamorada”. Sugere Barsacq que ela, rompendo com a burguesia do seu tempo, desvalorizou também a sua feminidade “para existir como ser humano, para além de toda a sexualidade”. Mas, ao mesmo tempo, “tinha uma sede insaciável de amizade”. Na fábrica, na militância política, buscava o convívio com os outros, de estar com eles, “fossem eles quem fossem e viessem de onde viessem”. 

O autor nota que, para ela, “a amizade é o primeiro passo para o ‘amor ao próximo’, com prioridade para aqueles que não amaríamos por puro egoísmo”.  E cita-a: “No amor verdadeiro, não somos nós que amamos os infelizes em Deus, mas é Deus em nós que ama os infelizes”. Ou ainda: “O amor, na pessoa feliz, é querer partilhar o sofrimento do ser amado infeliz / O amor, na pessoa infeliz, é sentir-se realizado pelo simples conhecimento de que o ser amado está na alegria, sem ter parte nessa alegria, ou mesmo sem desejar ter parte nela”. 

E temos, por fim, a quarta chave, centrada na “tríplice dimensão da verdade”. O artigo aqui em referência aponta para a obra inacabada de Weil, no fim da vida: “O enraizamento – prelúdio a uma declaração dos deveres para com o ser humano”, que são, segundo Barsacq, os deveres de “um humanismo inteiramente repensado a partir do zero: recusa da alienação, recusa da violência, recusa da mentira, nomeadamente de carácter político; exigência de justiça, de liberdade e de igualdade, com honra”.

A verdade, para ela, conjuga-se nas suas dimensões: a ausência de mentira, a beleza e a bondade. Todos podem ter acesso a ela, sem distinção de origem social, de educação ou de género: basta escutar o mundo e participar na procura daquilo a que René Char (1907-1988) chamava “a base e o cume”, aquilo que nos torna solidários uns com os outros e que, nesta ligação, manifesta uma transcendência em ação: pois uma vez que os seres estão juntos, magnetizados pela beleza e pela bondade, já não podem errar”, explica o autor do artigo.

Para Simone Weil, a atenção, neste contexto e nas palavras de Barsacq, “era uma lanterna para avançar na noite que cobria o seu século. Prova disso é que não se enganou sobre a natureza do nazismo, que descreveu logo em 1932. Não se deixou enganar por Estaline nem por Trotsky, apesar de ter estado e continuar a estar comprometida com a esquerda”.

“Do mesmo modo, prossegue ele, denunciou o destino dos colonizados e rejeitou a ideia de progresso que escraviza a alma a necessidades que não lhe são, de modo algum, naturais. E em todos os seus textos, quer se trate de Homero, das matemáticas ou da Índia, ela quis ver o que estava no seu âmago, para deles retirar uma força que é o contrário do poder: a expressão da ternura do mundo”.

Já não é a primeira vez que o 7MARGENS traz facetas de Weil aos seus leitores. Haverá ocasião de a ela regressar para falar de Simone como mística, como cristã, como inspiradora de muitas buscas, nos vários campos em que ela se situou e que iluminou com o testemunho e o pensamento.

 

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