
O presidente do Equador, Guillermo Lasso, enfrenta muita contestação nas ruas. Foto © Assemblea Nacional de Ecuador
Cerca de um ano depois de empossado, o presidente do Equador, Guillermo Lasso, tem vindo a enfrentar uma onda de contestação nas ruas das principais cidades do país, que culminou, nos últimos dias, com a abertura de processo de impeachment no Parlamento, onde detém a maioria. Já morreram seis pessoas e duas centenas ficaram feridas nos recontros entre as forças da ordem e os manifestantes.
Os conflitos sociais, cortes de estrada, manifestações violentas e atuações igualmente violentas da parte da polícia agudizaram-se em meados de junho, na sequência de um forte aumento dos preços dos combustíveis, quando a uma greve marcada pelos produtores de banana, se juntou a poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie).
A movimentação da Conaie tinha já, atrás de si, um Parlamento onde os debates se agudizaram nos últimos meses em torno de medidas liberalizadoras e privatizadoras do Presidente. Em 1 de junho, uma votação obrigou mesmo a presidente daquele órgão legislativo e apoiante de Lasso a abandonar o cargo.
Ao longo da campanha eleitoral, na terceira vez que disputava o lugar, o Presidente defendeu “um futuro que leve a prosperidade, a uma sociedade livre, democrática e de oportunidades” que opunha ao “regresso a um passado de violação de direitos humanos, corrupção e má gestão da economia”. No entanto, o caderno reivindicativo de 14 pontos com que a Conaie parou uma boa parte do país, nas últimas duas semanas, ia de medidas mais conjunturais, como a redução e fim da subida dos preços dos combustíveis ou moratórias para pagamento de dívidas de quatro milhões de famílias, a propostas para políticas de investimento público para “travar a precarização laboral e assegurar a sustentabilidade da economia popular” ou o “fim da privatização dos setores estratégicos”, considerados património dos equatorianos”.
O que está acontecendo no Equador? Segue um fio em que tento organizar os principais eventos que ocorreram no país neste mês de junho insurgente.
— Ana Prestes (@anaprestes) June 26, 2022
No dia 14 de junho, numa ação combinada da polícia e das Forças Armadas o presidente da Conaie, Leonidas Iza, foi preso. Apesar de, em discurso ao país, Lasso ter procurado acusar o dirigente como o principal responsável de alegados atos violentos de “vândalos que só querem provocar o caos”, a medida levou a uma maior radicalização dos movimentos populares, tendo sido, posteriormente anulada. Os cortes de vias, sobretudo na área da capital, Quito, têm-se mantido e ainda neste domingo, 26, Guillermo Lasso dizia sobre o presidente da Confederação, em declarações à CNN: “Aqui não há lutador social, aqui há um anarquista (…) que quer derrubar um governo.”
Apesar de tudo, o Governo procurou baixar a tensão interrompendo o estado de emergência, que vigorava em alguns locais, e reduziu o preço da gasolina em dez cêntimos de dólar. Esta última medida foi considerada “insuficiente” pela Conaie, que não desativou as barreiras nas vias públicas.
Papa pede diálogo e igrejas cristãs contra desestabilizadores
O clima de agitação e confrontação social do Equador levou o Papa Francisco a manifestar a sua preocupação e a apelar ao diálogo, depois da oração do Ângelus, no domingo, 26, no Vaticano.
“Estou próximo desse povo e encorajo todas as partes a abandonar a violência e as posições extremadas. Aprendamos: apenas com o diálogo se poderá encontrar a paz social – espero que em breve –, com particular atenção às populações marginalizadas e mais pobres, mas sempre respeitando os direitos de todos e as instituições do país”, afirmou.
Por sua vez, a Conferência Episcopal católica, a Confraternidade Evangélica Equatoriana e a Igreja Luterana emitiram uma declaração conjunta sobre a situação que o país tem estado a viver.
Para estes responsáveis religiosos, “é injustificável que a luta social seja manchada pela presença de grupos armados criminosos que buscam semear caos, terror e desestabilização”, nas ruas do Equador. “É injustificável que a busca por dias melhores para todos esteja contaminada com a perversa intenção de desestabilizar a ordem democrática legalmente constituída, seja a partir da rua ou dos interesses de partidos ou grupos”, acrescenta a declaração que, neste ponto, se aproxima da posição de Lasso, tido como membro da Opus Dei.
As igrejas entendem que é hora de governantes e governados fazerem uma opção pela defesa dos mais vulneráveis e pelo progresso de todos. “A partir da pastoral, mas também das múltiplas obras das diversas confissões cristãs na saúde e na educação, comprometemo-nos a colocar no centro de nossa ação a defesa dos direitos dos povos e comunidades indígenas e de todos os equatorianos, bem como a defesa da ordem constituída, como o único quadro político e social para resolver as nossas diferenças”, diz o comunicado.









