Sinais de inquietação: a parte que nos cabe

| 8 Fev 2024

Barco em alto mar. Foto DR

“Todos estamos embarcados em mar agitado, pretendendo chegar a bom porto.” Foto: Direitos reservados

 

Não faltam, nos dias que correm, motivos para as cidadãs e os cidadãos atentos estarem preocupados. Aproximam-se momentos decisivos quanto ao futuro, nomeadamente com as eleições legislativas de 10 de março e, três meses mais tarde, as eleições para o Parlamento Europeu. Para lá dos posicionamentos ideológicos legítimos, há desafios e perguntas, a cuja resposta deveríamos condicionar o nosso voto. E nessas opções a fazer, todos estamos embarcados em mar agitado, pretendendo chegar a bom porto.

O principal motivo de inquietação decorre da perceção, que se vai instalando, de uma adesão crescente a projetos políticos perigosos para o conjunto da sociedade, que os partidos em geral não souberam prevenir e combater. Tais projetos não são perigosos por se apresentarem com uma aparência pseudorradical que parece encantar alguns setores da sociedade. O perigo reside no fechamento nacionalista identitário, na hostilização e exclusão dos outros diferentes, nomeadamente os imigrantes, na retórica securitária e até na invocação de Deus como legitimação de tais projetos.

Para quem já anda por cá há umas boas décadas, muitos desses discursos soam a familiar e bafiento, glosados ad nauseam nos tempos da trilogia “Deus, pátria e família”. Sabemos como pretendem estabelecer fronteiras policiadas, em sentido real e metafórico. Conhecemos a violência larvar que tais projetos carregam consigo. Percebemos em que tipo de setores sociais, desportivos, tecnológicos, religiosos e económicos medram. Mas também verificamos que medram porque há caldo e clima para isso.

De entre as tarefas que esta realidade impõe, parece crucial denunciar e alertar para as ameaças que se estão a levantar e para os riscos que a sociedade está a correr, e em particular certos grupos sociais. Ameaças que estão já, de resto, bem visíveis diante dos olhos de quem quer ver. Denúncias não só do perigo de certas promessas, mas da mentira em que assentam, como é o caso da imigração e dos imigrantes

Mas cabe a pergunta: chega denunciar? Não será necessário que todos os que se preocupam procurem compreender que caldo é esse em que viceja o extremismo, a exclusão e, potencialmente, a violência? Como é que ele se desenvolveu? Que caminhos podem e devem ser trilhados para o combater e esvaziar? Que projetos políticos apresentam propostas nesse sentido, que mereçam o voto e, inversamente, a quem se deve, em consciência recusar o voto?

Há um aspeto particularmente perturbador, nos dados de sondagens recentemente conhecidos sobre as intenções de voto: a adesão aos projetos mais extremistas por parte das gerações mais jovens (em idade de ir às urnas). Quanto mais se baixa no escalão etário, mais alta se apresenta a adesão. Para responder a algumas das perguntas atrás enunciadas, talvez este fenómeno pudesse receber alguma luz. Em qualquer caso, ele constitui um sério motivo de reflexão para todos quantos estão presentes e acompanham a vida dos adolescentes e jovens: em que medida se escuta suficientemente aquilo que esperam e sonham, aquilo em que acreditam e que rejeitam, aquilo que gostariam de concretizar e em que condições.

Ver uma geração a seguir de forma entusiástica influencers que lhe ditam os padrões, as normas e os gostos, mesmo que tal influência fosse num sentido porventura mais enriquecedor e contestatário, nunca seria o caminho desejável para pessoas que estão a construir o seu futuro e que carecem de referências sólidas (tanto quanto isso hoje é possível), mas que têm de encontrar o próprio caminho, muitas vezes à revelia e contra a onda das redes sociais.

Não será chegado o tempo de erguer a voz e de agir, incluindo no plano político? As organizações da sociedade civil – e incluem-se nestas, naturalmente – as confissões religiosas atentas à marcha do mundo e aos ‘sinais dos tempos’ – não deveriam tomar a palavra para alertar enquanto é tempo? Trata-se de assegurar caminhos coletivos que não só se insurjam contra a discriminação, a desigualdade e a pobreza, como promovam a inclusão, os direitos humanos básicos e formas ativas de solidariedade.

No caso da Igreja Católica, seria de esperar que estes valores, comuns a vastíssimos setores da cidadania, postos em causa em tantas circunstâncias na sociedade portuguesa, estivessem no coração do atual processo sinodal. Por alguma razão os pobres (migrantes e refugiados, vítimas de racismo, da exploração e do tráfico de mão de obra, comunidades periféricas, jovens desempregados, deslocados das guerras…) integram um ponto do relatório-síntese dos trabalhos da primeira fase da assembleia sinodal, em Roma.

Isto não significa que não se esteja a fazer um trabalho de muitos pontos de vista admirável, mas é como que se se tratasse de departamentos que não jogam uns com os outros. Como se o Sínodo não fosse, antes de mais, atenção e cuidado aos que mais precisam, procurando assegurar acolhimento, empoderamento e condições políticas para que a pobreza e a exclusão sejam erradicadas.

É, afinal, também esse o critério para pessoal e coletivamente avaliarmos, nas escolhas políticas que em breve faremos, as opções que garantem aqueles valores que são, ao fim e ao cabo, os valores do evangelho.

Segundo uma história indígena, creio que da América Latina, havia, certa vez, um grande incêndio na floresta. Os animais entraram em pânico, perante o perigo que os cercava e não sabiam como fugir. No meio da confusão, um colibri voava sem parar para ir buscar umas bicadas de água que despejava sobre as chamas. Um tatu que o observava gritou-lhe: “Estás doido, colibri?”. Este respondeu, em tom quase culpado: “Eu estou a fazer a minha parte”.

E nós, vamos fazer a nossa?

 

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