Casa do Gaiato

“Sinais” do padre Telmo Ferraz, de 95 anos

| 30 Jun 21

sinais telmo ferraz

Sinais é o 11º livro do padre Telmo Ferraz, composto por orações em prosa, poemas e notas de pedaços de vida. 

Foi apresentado nesta segunda-feira, 28, na concatedral de Miranda do Douro, o livro Sinais, o 11º título do padre nordestino Telmo Ferraz, de 95 anos. O sacerdote é sobretudo conhecido pela sua dedicação à Casa do Gaiato, em Portugal e em Angola, e pela luta em prol da dignidade e justiça social para os trabalhadores das barragens de Picote e Miranda.

O livro, feito de orações em prosa, poemas e notas de pedaços de vida, vem de “um ser que se comunica pelo que escreve e sobretudo pelo que é.» (…) «Ele é o verdadeiro sinal para os que temos o privilégio de o conhecer e aprender com ele. Mas como todos os sinais não aponta para si. A realidade que sinaliza é outra: o seu amigo Jesus “, como escreve no prefácio José Alfredo.

O editor, o professor Henrique Pereira, interveio no lançamento, tal como o bispo de Bragança, José Cordeiro. Interveio também o professor António Bárbolo Alves, com um texto coletivo, em nome do Movimento Cultural da Terra de Miranda (que publicamos a seguir). No ato houve ainda alguns momentos musicais com gaita, sanfona e ‘guitarro’, apresentados por Paulo Preto e Paulo Meirinhos, do grupo Galandum Galundaina.

O produto da venda do livro irá integralmente para a Casa do Calvário de Beire, que está a adaptar instalações para acolher doentes incuráveis (para adquirir o livro, aceder à página da Obra da Rua na internet).

 

Um padre que escreve “rente à vida”

Padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua. Foto: Direitos reservados.

 

“Para mim, pessoalmente, e para o Movimento Cultural da Terra de Miranda, em nome do qual aqui falo, é uma enorme responsabilidade e ao mesmo tempo, uma elevada honra, prestar esta homenagem ao Senhor Padre Telmo Ferraz.

O Senhor Padre Telmo é um dos maiores vultos da cultura da Terra de Miranda, não só em termos literários, pela qualidade dos seus textos e da sua obra, pela sua expressividade, quase cénica, pela forma como nos faz imergir num mundo rico de conhecimento e de exemplo, sentir os cheiros, o frio e o calor, a lama, a luta pela sobrevivência, a fome, a exploração, a doença, a morte e a indiferença. Numa palavra, pela forma como escreve “rente à vida”, como muito bem definiu a sua escrita o professor Henrique Pereira. O seu livro “O Lodo e as Estrelas” é um monumento vivo da nossa Terra que, como os maiores, nos fala, nos ensina e nos enriquece.

O exemplo dos operários marteleiros mortos do pó da construção dos túneis das barragens e abandonados pelo Estado e pelas “Companhias” à sua sorte, depois de deixarem de poder respirar livremente e trabalhar, nunca mais será esquecido. E essa é a melhor homenagem que lhes podemos prestar, a eles e a si, porque com eles aprendemos − e isso nos dá força e exemplo − a lutar por uma sociedade melhor e mais justa.

O Zeca, que vomitava sangue, com os pulmões desfeitos; o António, impedido de cumprir a sua ambição de voltar para a sua terra, sem dinheiro para a viagem e pelo seu corpo de marteleiro gasto e cansado, de 30 anos, estendido na cama a tossir sangue a cada minuto; o Ricardo sem trabalho por não parar de chover e, por isso, sem comida, alimentado por uma côdea de um amigo a quem tinha vergonha de pedir, de tão pobre que também era; o Lagares, esfarrapado em sangue, nas casinhas miseráveis do estaleiro, construídas com quatro paus e telhados de sacos de papel; o Manuel, abandonado também pela “Companhia” a uma morte lenta, miserável, sem recursos, depois de o terem despojado da capacidade de trabalhar, o seu único património, e desprezado por um Estado ausente e cúmplice; o Araújo, a quem a “Companhia” “mastigou os pulmões” em quatro anos e de quem se esqueceu; a Delfina, que a miséria impediu de ter mais filhos; o Carlos, que amava os seus filhos “descalços em cima do lodo, rotos e cheios de surro”, feliz com a “farturinha” de ter encontrado um fardo de bacalhau que a FNAT deitou fora por cheirar a petróleo; o Chico, o Inácio, o Ramalho, o Salgado, o Zé Manel, o Agostinho, o Manuel Gonçalves, o Lúcio, o Manuel Nogueira, o Guilherme. E o menino Armindo, de cinco anos, “descalço, roto e sujo”, cujo pai, operário de pá e pica ganhava 20 escudos por dia, que não chegavam para os alimentar a ele e ao irmão.

Todos eles estão vivos, são os “homens de carne e osso, que nascem, sofrem e morrem” – sobretudo morrem – como diria Unamuno −, e são exemplos para todos nós. Eles são as estrelas e as vítimas de um sistema cruel, pela sua injustiça chocante, que no polo oposto tem um modelo social de empresas, Estado e dinheiro. Estado que proibiu a publicação do seu livro.

Um país, dois mundos.

E veja, Senhor Padre Telmo, como as vítimas desse sistema foram por si colocadas e nós celebramos como as estrelas, contra um sistema de interesses, de injustiça e de ignorância, de falta de humanidade e de ausência de civilização. O lodo.

É o braço “duro e bambo” do Araújo que para eles aponta, acusando-os e denunciando-os, mesmo quando estoiram os foguetes, os discursos e os banquetes.

Estas estrelas fazem deste seu livro uma obra brilhante, mas também o é pela esperança que nos transmite, pela ideia do sublime, da superação, do Bem, da bondade, da religiosidade, da energia, da inteligência, da esperança, que estão sempre presentes. A mulher mirandesa, a “velha com ares de profetisa” que, no início da obra, ousa enfrentar os engenheiros para lhes dizer “Nun queremos acá la corta! Nun queremos acá la barraige!”, é um desses exemplos de força de quem foi capaz de superar todos os medos e enfrentar mesmo o desconhecido.

casa do gaiato de beire

Casa do Gaiato de Beire (Paredes), para a qual reverterão as receitas da venda deste livro. Foto: Direitos reservados.

 

Senhor Padre Telmo, os seus livros são lições de humanidade, de como o humano tudo supera, com a sua teimosia espantosa em acreditar, mesmo nas mais adversas situações, num mundo melhor, no bem e na justiça.

E essas características estão ainda mais presentes na Terra de Miranda, na resistência das suas gentes, perenes como as folhas dos carrascos, resistentes aos invernos, porque desafiam o tempo e “são sempre”.

O seu livro é sobre a injustiça e sobre a esperança de um mundo melhor, de Justiça.

Senhor Padre, Senhor Bispo, Senhor Presidente da Câmara, é também a injustiça que faz levantar o Movimento Cultural da Terra de Miranda. A injustiça na distribuição da riqueza gerada pelos recursos naturais da Terra de Miranda, que daqui é meticulosamente extraída para fora. Dizem os especialistas que é aqui, no Douro Internacional, que se localizam os recursos naturais mais produtivos para a produção de energia eléctrica de todo o mundo, Pois bem, praticamente nada aqui fica e outros beneficiam deles.

É a injustiça que emerge de um país doentiamente centralista, desigual e injusto na partilha de recursos, que nem sequer repara que está a discriminar um povo que transporta na sua alma, há muitos séculos, uma Língua e uma Cultura próprias, que são, sem dúvidas, a sua maior riqueza. Um país que parece não saber para onde vai, apesar de saber que a nossa Terra perdeu cerca de 2/3 da população nos últimos 60 anos. Um país que devia saber que, a continuar assim, corre o risco de ver extinguir esta língua e esta cultura. E um país assim não tem futuro, porque é o limite da injustiça na partilha de recursos que marca o pacto social entre cidadãos livres numa sociedade inclusiva e progressiva, como ensinou John Rawls.

Estranhamente, muitos continuam indiferentes a esta injustiça económica, social, territorial e acima de tudo cultural, aparentemente cegos pela força do dinheiro, do lucro fácil, dos favores do poder. Porque ainda há muito lodo neste país, Senhor Padre Telmo.

Felizmente, o país mudou muito desde janeiro de 1955, quando escreveu o seu primeiro texto de “O Lodo e as Estrelas”, e em muito lhe devemos a si, à sua luta e à sua Obra, sermos hoje um país livre e democrático.

Persiste, porém, uma grave injustiça para com a nossa Terra, que necessita de ser reparada.

Jã não se trata de resgatar as “ninhadas” de crianças rotas e sujas, da fome e da miséria das ruas lamacentas das barracas dos acampamentos operários, mas continuamos a ver os nossos filhos ter que partir porque a nossa Terra está desprovida das instituições que lhes permitam aceder a um ensino superior de qualidade, à saúde, ao emprego e a uma vida digna. Temos uma economia agrícola que colapsou nos últimos 60 anos, apesar de o nosso Planalto possuir os recursos naturais necessários para ser uma zona agrícola de excelência.

O Senhor Padre Telmo é um dos nossos maiores inspiradores, diria mesmo, uma referência tutelar do nosso Movimento. A luta pela justiça, pela equidade, não é fácil. Muitos não a compreendem e têm medo dela, tentam censurá-la, calá-la, diminuí-la. Mas vale a pena.

Como o Senhor Padre diz, na sua sapiência tranquila e profunda, o seu livro deve ser lido fora do tempo e do espaço, porque é “simplesmente para os homens”. É também assim que são a Justiça e a equidade. Intemporais. Por isso, esses são os valores mais sólidos, pelos quais vale a pena lutar.

Tal como ao Araújo, à Terra de Miranda “não é piedade que lhe é devida, mas a Justiça”. Este Movimento levantou-se, como que correspondendo ao seu apelo para que todos nos levantemos porque vai passar o António:

“Quanto valem os pulmões do António?
Ninguém compra os pulmões do António?
Ele ajudou a fazer o conforto de muitos lares.
Ele ajudou a fazer o lucro de algumas Companhias.
Levantem-se. Tirem o chapéu.
É o António que passa!”.

Senhor Padre, lemos comovidos a sua visão das barragens: “No dorso das albufeiras, uma barquinha negra, carregada de pulmões esfarrapados segue a sua rota”. Nós continuamos a vê-la carregada de injustiça, mas prometemos mudar-lhe a carga e ter orgulho no que vemos e no país que somos.

Muito obrigado pela sua lição e iluminação, Senhor Padre Telmo Ferraz. Assim fazemos e faremos. Em honra de todos os heróis do seu livro, de todos os cidadãos de Bumioso, Miranda e Mogadouro, da Justiça, da nossa Terra, sempre inspirados no seu exemplo.

Ainda há lodo neste país, e encontrámos muito mais do que imaginávamos ser possível.

Mas a nossa Terra, os nossos cidadãos e cidadãs, a nossa Cultura, serão as estrelas que ajudarão a vencer mais uma vez esse lodo.

Bem-haja Senhor Padre Telmo Ferraz.

 

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