Sinais do tempo: Onde está o nosso caminho?

| 24 Mai 2023

mosteiro cartuxa, Foto_ Fundação Eugénio de Almeida

Stephan Van Erp : “A contemplação é perceção do espaço e dos acontecimentos em que o futuro de Deus se torna novo, em nós e através de nós, nas encarnações da verdade, da beleza e da bondade que ele reclama no nosso mundo, tal como ele é.” Foto: Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli (que, em português, significa Escada do Céu). © Fundação Eugénio de Almeida.

 

A tarefa de definir o tema principal das XXXIV Jornadas Teológicas de Braga, “Sinais do Tempo: Onde está o nosso caminho”, recebeu um forte impacto das dinâmicas em que a Igreja se encontra envolvida. Na resposta à sinodalidade e na consciência do entardecer que nos envolve, torna-se importante voltarmos aquilo que Nistezche anuncia: “Eu só podia acreditar num Deus que soubesse dançar (…); vede, um Deus que dança em mim”.

Nos três dias (15-17 de maio) da iniciativa, propusemo-nos refletir sobre os sinais do tempo ou dos tempos. Organizadas pela revista Cenáculo, dos estudantes de Teologia, as jornadas pretendiam impulsionar o debate teológico e contaram com a participação dos teólogos padre José Frazão Correia sj, Isabella Guanzini e Stephan Van Erp.

Falando sobre “Quais são os sinais do tempo e qual o caminho para a credibilidade”, o padre José Frazão concluía que, para uma abordagem dos sinais dos tempos, é necessário voltarmos um passo atrás e percebemos efetivamente o objetivo deste termo. Os sinais dos tempos, mais do que uma exigência, são um modo de proceder, afirmou.

A teóloga Isabella Guanzini (“A graça do outro? Inconsciente, desejo, fé”), apresentou-nos o modo como a experiência pode desenvolver-se: “É uma palavra que pede para se manter em contacto com uma zona de não-saber e de impotência, para guardar segredo do Nome para além da Imagem e da Voz, para permanecer fiel ao próprio desejo e ao seu enigma inexplicável. É um apelo a ser reticente quanto à posse do Nome e, ao mesmo tempo, a viver a alegria de partilharmos a nossa incompletude de Desejo.”

Stephan Van Erp propôs-nos refletir sobre a seguinte questão: “Estética e contemplação, e os sinais do tempo?” Na sua apresentação, o teólogo holandês concluía: “A contemplação é perceção do espaço e dos acontecimentos em que o futuro de Deus se torna novo, em nós e através de nós, nas encarnações da verdade, da beleza e da bondade que ele reclama no nosso mundo, tal como ele é. E isso permite-nos sentir e habitar o futuro de Deus. E isso permite-nos sentir e habitar a nossa situação voluntária como uma situação de cegueira, pobreza e desejo, um espaço no qual procuramos renovar a nossa profissão de obediência à graça.”

Assumir esta problemática e estas interpelações é, antes de mais, equacionar o mundo no seu próprio tempo, é contemplar com os olhos daquele que Alberto Caeiro define como místico: “Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas. Para ti tudo tem um sentido velado. Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.”

Seguindo de perto o axioma de Karl Rahner, de que “toda a antropologia é cristologia”, é ser fiel ao mais específico do cristianismo” (J-L.Marrion). Na verdade, o melhor âmbito para compreender Deus acontece no caráter mais ordinário dos dias e no mais comum da humanidade carnal do Filho de Deus, através do qual “Deus se revela como Deus da terra”. Tal como afirma Emmanuel Falque, o essencial é “encontrar neste mistério uma teoria de viver” sem ser necessário aderir, mas sim reconhecer como é que o seu caso foi falado”.

Só assim podemos abraçar os sinais do tempo, porque o discurso teológico é, acima de tudo, um discurso sobre o humano, tal como Adolph Giesché afirma: “Jesus, quando anuncia Deus, anuncia primeiro o modo como ser humano.”

Ora, diante de tantas transformações, torna-se significante voltarmos a uma narrativa kayrologica que permite compreender, sem qualquer esoterismo, o alcance espiritual de tantas expressões culturais e artísticas que hoje fazem parte das grandes interrogações do nosso tempo.

Na verdade, procurar criar este laço é voltar ao leitmotiv de uma gramática comum, tal como afirmava o padre Teilhard de Chardin: “Durante muito tempo, julgando-se semelhante aos outros homens, procura ver como eles, falar a linguagem deles, comprazer-se nas alegrias que os satisfazem.[…] Durante muito tempo, pede às maravilhas da arte a exaltação que dá acesso à zona, à sua zona, do extrapessoal e do suprassensível; e tenta fazer palpitar, no Verbo Desconhecido da Natureza, a Realidade superior que o chama pelo seu nome.”

Creio que será esse o sinal máximo da teologia. Na verdade, procurar “o comum” é extrair o elo que nos liga ao lugar da epifania e que nos permite verificar que «o presente não é o tempo da ausência de Deus […]. Mas se há transcendentalmente presença aqui e agora, trata-se de uma espécie de presença que a deixa em suspenso para aceder à mais-que-presença da manifestação definitiva do Absoluto no reino da contingência.”

 

Pedro Fraga é aluno do 6ºano de Teologia no Seminário Arquidiocesano de Braga e um dos organizadores das XXXIV Jornadas Teológicas.

 

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