Sinais dos tempos na Europa Central

| 11 Abr 2024

Fresco da Ressurreição, Igreja de Chora

“Portugueses, propriamente, éramos poucos, naquela atitude tão europeia clássica, hiper-composta, passando paulatinamente do basbaque para a abertura a uma realidade diferente, a liturgia marcada por uma cultura tão quente quanto espontânea, e sobretudo, tão condizente com o que estávamos a celebrar: a incrível novidade da ressurreição.” Fotografia: Fresco da Ressurreição, Igreja de Chora (Kariye Museum ) Istambul.

Uma vigília pascal celebrada na Igreja do Sagrado Coração de Jesus do Luxemburgo, destinada à “Comunidade Portuguesa”, escancarou-nos as portas para uma nova realidade prenunciada pelos últimos pontífices do século XX: a comunidade portuguesa era, antes, uma comunidade lusófona, vibrante, entusiasmada, comprometida e manifestamente transbordante da alegria da ressurreição.

Foi a todos os títulos surpreendente a celebração pascal deste ano: catecúmenos, adultos e crianças, da lusofonia, as suas famílias povoando a igreja, um coro com tambores e pandeiretas, muita cor passeando o recinto, o sacerdote português acomodando todo um novíssimo estilo, que encheu a Vigília de ritmo, som, cor, movimento e, até, riso.

Portugueses, propriamente, éramos poucos, naquela atitude tão europeia clássica, hiper-composta, passando paulatinamente do basbaque para a abertura a uma realidade diferente, a liturgia marcada por uma cultura tão quente quanto espontânea, e sobretudo, tão condizente com o que estávamos a celebrar: a incrível novidade da ressurreição.

E a compostura cedeu lugar à interação, e o movimento dos corpos ao som dos tambores chegou ao celebrante e, dele, à assembleia, a intervenção entusiasmada e inesperada dos catecúmenos durante a homilia tornou singular e tão entranhada uma cerimónia que, afinal, teve o condão de abrir à comunhão uma comunidade que à partida não o era.

O desafio de se tornarem “missionários pelo mundo inteiro” foi lançado aos povos de África no final do século XX [1] sublinhando como seus valores maiores a alegria, o amor pela vida, o forte sentido comunitário e de solidariedade, a memória dos antepassados e o profundo respeito pelas raízes.

Naquela Grande Vigília, tudo isso esteve ali tão patente, contrastando, numa quase estridência, com o lastro baço e a memória enfraquecida da Velha Europa, amornecida por um virulento individualismo, julgador, distante e cheio de coisas e confortos, afinal tão-só estorvos como a capa do cego Bartimeu (Mc 10:50).

Grande e inesperada bênção a desta noite, atordoada e brilhante no único anúncio relevante, mostrando-nos como crer e esperar são dons maiores revelados pela alegria, sempre contagiante e felizmente incompreensível no seu mistério divino. Aleluia.

[1] João Paulo II, Ecclesia in Africa, 14 de setembro de 1995.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária. Contacto: dina.matosferreira@gmail.com

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