“Sinal admirável” e criativo do presépio traz história da salvação para o tempo actual, diz o Papa

| 3 Dez 19

“Presépio de Greccio” (pormenor), de Giotto (c.1295-99). Basílica Superior de São Francisco, em Assis

 

É preciso manter e reavivar a actualidade do Presépio, defende o Papa numa carta dedicada à representação da Natividade. Um texto onde fala da humildade e da pobreza, bem como da imprevisibilidade de um Deus que se faz humano e que “dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças”.

 

É importante manter a representação do presépio, seja no âmbito familiar seja em espaços públicos como lugares de trabalho, escolas, hospitais, estabelecimentos prisionais ou praças, diz o Papa na carta apostólica Admirabile Signum (“Sinal admirável”), divulgada neste domingo, 1 de Dezembro, em Greccio, cidade italiana onde, em 1223, Francisco de Assis promoveu a realização do primeiro presépio. A representação da Natividade, diz o Papa na carta, “ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os afectos, convida a sentirmo-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos daquele evento que se torna vivo e actual nos mais variados contextos históricos e culturais”.

O texto tinha sido anunciado há dias para ser publicado durante a visita papal à cidade situada cerca de 100 quilómetros a norte de Roma, a meio caminho de Assis. Nele, o Papa insiste na importância de manter viva e tradição, fala da relação do presépio com a vida e os quotidianos das pessoas e apresenta o significado teólogo e espiritual das diversas figuras que compõem o presépio – mesmo as que foram sendo acrescentadas ao longo dos tempos e em diferentes culturas.

Apesar da defesa da importância da representação pública dos presépios, o Papa não atribui ao presépio qualquer símbolo nacionalista ou identitário. Antes, começa por afirmar: “Representar o acontecimento da Natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da Encarnação do Filho de Deus. De facto, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura.”

Insistindo na “humildade daquele que se fez homem”, o documento pretende, acrescenta Francisco, “apoiar a bonita tradição das nossas famílias de prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume” de o armar em lugares públicos como os referidos.

 

“Uma profecia simbólica”

A carta foi lida na íntegra pelo Papa Francisco na gruta do Presépio em Greccio, marcando assim o primeiro domingo do Advento, o tempo de preparação para o Natal. Esse facto, bem como o ter estado rodeado de crianças e do povo comum, foi “uma profecia simbólica” que “deu verdade” às palavras do Papa, comenta o padre Lopes Morgado, franciscano capuchinho: “É importante saber, desde o princípio, que o Natal é a festa do nascimento de Jesus e que tudo o mais ou nasce daí ou não é Natal”, diz ao 7MARGENS o responsável pela nova colecção de presépios Evangelho da Vida, que será inaugurada no próximo dia 21, no Centro dos Capuchinhos em Fátima.

O presépio é também, escreve ainda o Papa argentino, um verdadeiro “exercício de imaginação criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura, obras-primas de beleza”, que se aprende em criança e que traduz “uma rica espiritualidade popular”. “Desejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar”, afirma o Papa.

“Sendo a representação do nascimento de um Menino, o presépio nunca deixará de estar atual enquanto nascerem crianças”, comenta ainda frei Lopes Morgado. “E talvez hoje seja mais importante do que nunca, para que tantas crianças não se sintam filhos únicos, pois têm no Menino Jesus um irmão universal.”

Referindo a origem bíblica do presépio através dos pormenores do relato do Evangelho de Lucas, bem como o papel de Francisco de Assis na forma como hoje o presépio é concebido, o Papa insiste na humildade dos sinais que ele transporta: “Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer” e o presépio traduz que o Criador do universo se abaixa “até à nossa pequenez”.

A representação que Francisco de Assis realizou pela primeira vez em Greccio há quase 800 anos “é um convite a ‘sentir’, a ‘tocar’ a pobreza que escolheu para si mesmo o Filho de Deus na sua encarnação, tornando- se assim, implicitamente, um apelo para o seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento”, escreve ainda.

O Papa passa depois em revista os vários símbolos ligados ao presépio: desde o céu estrelado, que pode traduzir as “vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida”, até às figuras de Maria, de José e do Menino, passando por paisagens, ruínas, montanhas, riachos, ovelhas e pastores, anjos, magos e estrela-cometa.

Pintura afresco em Greccio, representando o primeiro Presépio, promovido por Francisco de Assis na cidade, em 1223.

 
Um Deus que dorme e mama, um Deus imprevisível

“À medida que o nascimento de Jesus foi sendo anunciado entre povos diferentes, a sua representação no presépio também foi inculturada na paisagem e nos animais, nas profissões e nos modos de vestir de cada país”, recorda Lopes Morgado. Isso mesmo estará patente na nova colecção visitável: “Basta comparar um presépio peruano com um presépio chinês ou minhoto. E nos presépios portugueses – que terão um destaque especial na nova colecção, por serem colocados ao centro, numa gruta –, isso sempre existiu, aproximando a realidade da Palestina de há dois mil anos da nossa, até ao anacronismo de misturar o castelo de Herodes com as igrejas rurais.”

No caso dos pastores, escreve o Papa no documento, eles representam “os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da encarnação” e por isso muitas vezes aparecem, nos presépios contemporâneos, “mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração”, figuras que “estão, de pleno direito, próximas do Menino Jesus”. Os pobres, insiste, “são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós” e com os quais Jesus “proclama o apelo à partilha” como estrada “para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado”.

Com o presépio, Francisco de Assis “apenas quis mostrar a pobreza de Jesus deitado na manjedoura, e de sua Mãe ‘a Senhora Pobrezinha’, comenta ainda Lopes Morgado. “Só os humildes, os pequenos, os pobres, os que têm espírito de criança entendem o Natal. E os verdadeiros cristãos, sobretudo os que foram iniciados desde a infância neste mistério, celebram o Natal junto do Presépio”, acrescenta o responsável da colecção de presépios dos capuchinhos.

O Menino, diz ainda o Papa na carta, mostra como “o modo de agir de Deus quase cria vertigens”: é uma “surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos: dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças”. Deus, acrescenta o Papa na Admirabile Signum,“gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos nossos esquemas”.

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