Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

| 2 Jul 2022

Nas jornadas pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que decorreram a 20 e 21 de Junho, um dos convidados a participar foi o teólogo José Eduardo Borges de Pinho, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP). A sua intervenção pretendeu aprofundar o tema da sinodalidade como interpelação às igrejas locais e à colegialidade episcopal. O texto, que foi distribuído a todos os participantes – além de três dezenas de bispos, participaram desta vez também cerca de 40 padres e 20 leigos de todas as dioceses – e será publicado no próximo número da revista Lumen, da CEP, com aparato crítico. Pela importância do texto para o debate que a Igreja Católica está a viver, e com o acordo do autor e da CEP, o 7MARGENS divulga-o a seguir, com ele encerrando a série de contributos para o Sínodo que temos vindo a publicar ao longo de quase um mês.

ilustração sinodo synodresources.org

Ilustração: Direitos reservados (https://www.synodresources.org)

 

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

De qualquer modo, para que a sinodalidade seja realmente dimensão constitutiva da Igreja e se traduza a todos os níveis da sua vida quotidiana, importa reter que hoje, na receção do Concílio, não se trata já de uma questão de fundamentação teológico-doutrinal ou de uma mera oportunidade pastoral, mas está em causa uma interpelação de ordem prática e operativa, de transformação de mentalidades e atitudes, de passagem das palavras aos atos. Nesta perspetiva e em seis pontos, reflito sobre tarefas principais que uma concretização coerente da sinodalidade hoje nos pede.

 

1. Sinodalidade como questão básica de espiritualidade cristã

a) Neste caminho de uma Igreja sinodal temos de ir mesmo às raízes mais profundas da identidade cristã e eclesial. Na vivência da sinodalidade está em jogo, radicalmente, a espiritualidade cristã, a consciência e o sentido do que é ser cristão, o modo como se procura realizar a identidade e missão da Igreja como Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito. Espiritualidade cristã é o modo crente de ser e de viver no seguimento de Jesus na abertura ao Mistério sempre maior de Deus e sua presença e ação constantes pelo Espírito Santo na história do mundo e no coração das pessoas. Espiritualidade cristã implica, pois, a consciência de um caminho histórico de vida, procurando ser fiel ao que Deus nos vai pedindo no relacionamento com os outros, na atenção aos sinais dos tempos, na busca de transformação humanizante do mundo, na disponibilidade para a encarnação inovadora que a fidelidade ao Evangelho do Reino de Deus vai exigindo. A dimensão sinodal da Igreja só pode ser vivida na fidelidade criativa à escuta do Espírito Santo, através das múltiplas mediações – desde a Palavra de Deus aos desafios históricos e à experiência das pessoas – pelas quais descobrimos caminhos a seguir, ruturas a fazer, opções a tomar. A questão fulcral consiste, então, em verificar se os caminhos de testemunho e educação da fé – desde a iniciação cristã e a catequese às homilias e à formação permanente dos crentes – favorecem uma espiritualidade cristã aberta à condução do Espírito, em crescimento livre e responsável nas capacidades de pensamento, linguagem e ação.

b) Nesta ordem de ideias – um segundo aspeto a sublinhar –, uma autêntica espiritualidade cristã na busca do seguimento de Jesus abre o coração crente para uma atitude e caminhos de conversão, renovação e reforma, tanto em termos pessoais como comunitários e institucionais. No meio de um processo transformação “epocal” e “civilizacional” que estamos a viver e nas circunstâncias de comunidades crescentemente envelhecidas, é-nos pedido um novo modo de crer a partir da fé de sempre e na Igreja de sempre, mas com criatividade e coragem para reconfigurar aspetos vários da vida da Igreja e do seu posicionamento na sociedade.

Neste preciso ponto, não podemos ignorar donde vimos e os modelos de pensamento e ação que continuam a pesar no nosso presente. Na evolução eclesial verificada ao longo do segundo milénio, consolidou-se o sistema hierárquico gregoriano-tridentino, que, assentando numa fundamentação e visão unilateralmente cristológicas (o chamado “cristomonismo”), tendeu a desvalorizar a dimensão pneumatológica da Igreja. Nesta visão, o Espírito Santo atua sobretudo pela via hierárquica e na obediência dos fiéis relativamente à hierarquia. Em consequência, dá-se uma hipertrofia do aspeto institucional e do lugar do ministério ordenado dentro da instituição eclesial. De modo lapidar, escreveu Hermann Joseph Pottmeyer: “Da visão cristomonista decorre uma quíntupla ordem de prioridade: a prioridade da Igreja universal sobre a Igreja local, do ministro sobre a comunidade, da estrutura monárquica sobre a colegial, do ministério sobre os carismas e, finalmente, da unidade sobre a diversidade. A isso corresponde uma comunicação de sentido único de cima para baixo”. Não pode haver ilusões de que a sinodalidade da Igreja requer uma conversão estrutural e pastoral de grande e longo alcance, que exigirá muito tempo, persistência e coragem evangélica.

c) Mas aqui – terceiro aspeto – não podemos ignorar também o nível micrológico, ou seja, das pequenas realidades quotidianas, também do nosso agir pessoal. Espiritualidade cristã exige que sejamos homens e mulheres que procurem respeitar, incondicionalmente, critérios e comportamentos humanamente dignos e irrepreensíveis. Por elementar que isto pareça, não há cristianismo autêntico sem a busca de uma verdadeira humanidade nas situações mais simples ou mais complexas do quotidiano, dentro ou fora da Igreja. A prática da sinodalidade falha, tem de falhar, quando não há transparência de coração e de atitudes, respeito pela verdade, lealdade pessoal e institucional, comunicação constante e honesta, capacidade de diálogo e tolerância mútua, respeito incondicional pela consciência inalienável do outro e pela dignidade humana. Sem estes e outros critérios básicos de vida, só pode haver cristianismo de superfície, falsas espiritualidades, comportamentos semelhantes aos que se encontram na sociedade civil, desde os negócios à política.

d) Ainda sob o horizonte da sinodalidade, espiritualidade cristã põe à prova, enfim, a nossa capacidade católica de viver a unidade na diversidade. É o único Espírito Santo que cria ao mesmo tempo a comunhão e a diversidade que tecem o viver crente da catolicidade (diversidade de pessoas, carismas, comunidades, associações, movimentos, Igrejas locais, etc.). A sinodalidade exige a superação de uma falsa uniformidade e a capacidade de compreender e acolher a diversidade de situações, culturas, caminhos: assim e por exemplo, o Sínodo para a Região Pan-Amazónica e o Caminho Sinodal Alemão não só não são incompatíveis como podem enriquecer o presente e o futuro da única Igreja católica.

 

2. Sinodalidade como exigência de uma consciência eclesial amadurecida ao serviço da missão 

Presépio em Marcel Callo em Flers (França), com o logótipo do Sínodo. Foto: Direitos reservados (https://www.synodresources.org/2546/)

 

A questão fundamental colocada por uma Igreja sinodal consiste em solicitar a envolvência de cristãos – fiéis leigos e pastores – possuidores de uma consciência eclesial amadurecida. Valendo embora para toda a vida da Igreja, esta maturidade de consciência é particularmente necessária neste domínio, que exige atitudes, iniciativas e capacidades várias em termos humanos, de sentido do essencial cristão, de liderança pastoral, de visão eclesiológica, de modos de agir. Realizar e projetar em estilo sinodal a vida da Igreja não é, nunca foi, tarefa fácil, pois exige que se vá para além das rotinas quotidianas e dos esquemas estabelecidos. A renovação sinodal da Igreja ao serviço da missão é um processo que interpela as comunidades cristãs nos seus diversos tipos – desde as paróquias aos movimentos, às associações de fiéis e às comunidades religiosas – e é chamado a penetrar a vida quotidiana das Igrejas locais e da Igreja inteira, transformando mentalidades e estruturas, aspetos disciplinares e institucionais, formas de pensamento e de linguagem, sob a interpelação dos diversos contextos socioculturais de vida.

Com maior ou menor acuidade, todos nós sentimos que urge ultrapassar os parâmetros, muitas vezes ainda dominantes, de um catolicismo sociológico-cultural, suportado por uma religiosidade social e ambiental e por uma mentalidade de mera conservação sem preocupação prospetiva. Não se está aqui a menosprezar, numa qualquer visão elitista desajustada e injusta, o catolicismo popular e o que ele representa de indispensável busca humana de sentido para a vida, de vivência de autênticos valores cristãos, de reais potencialidades evangelizadoras. Há sempre que saber dar a Deus o que só a Deus pertence e respeitar até ao fim o diálogo insondável de cada consciência, nas suas próprias circunstâncias de vida, com o Mistério que chamamos Deus. Todavia, qualquer ação pastoral orientada pela busca de respostas mais adequadas e credíveis no presente e em perspetivas de futuro tem de ter como prioridade absoluta, sem excluir ninguém embora, o crescimento da consciência batismal dos fiéis, o sentido de corresponsabilidade, a possibilidade de participação que fazem parte da identidade de cada cristão, membro da Igreja e cidadão do mundo.

Há aqui aspetos que têm de ser denunciados e corrigidos. Formas várias de “clericalismo” ministerial e laical teimam em marcar muito do que hoje acontece nas nossas comunidades, sem que haja vontade de questionar hábitos e modos de proceder. Em muito do que dizemos ou fazemos não se pergunta pela credibilidade do Mistério de Deus que se anuncia, pela forma de existência que pode dar sentido ao acontecimento Jesus para as pessoas do nosso contexto social, por um caminho de vida que mostre como a fé no Espírito de Jesus e do Pai é força que anima um agir mais credível e humanizador nas circunstâncias da história.

Enfrentar hoje a tarefa da sinodalidade exige, pois, uma consciência eclesial amadurecida, aberta a viver o presente sem absolutização dos nossos critérios e experiências, como se não houvesse indispensáveis mudanças pessoais e reconfigurações eclesiais a fazer. Temos de reavaliar muitas coisas que tomámos como definitivas e intocáveis, mas que são, de facto, relativas: conceções e formulações doutrinais, exterioridades rituais, normas canónicas, hábitos estreitamente eclesiásticos, etc. Há que corrigir os condicionamentos que continuam a impedir que muitos cristãos, e em particular os mais jovens, se sintam motivados a participar corresponsável e criativamente na vida eclesial. Todos somos chamados a processos de aprendizagem e de formação crentes na comunicação, na escuta e no diálogo, na oração e na reflexão, na ação e na partilha de decisões (à maneira do bem tradicional “ver – julgar – agir”).

 

3. Sinodalidade como visão renovada do ministério ordenado e sua autoridade

padres, clero, clérigos,

Foto: Direitos reservados.

 

Na concretização da sinodalidade é decisivo o modo de entender e exercer a autoridade na Igreja. Como horizonte teológico, estrutural e existencial, a sinodalidade é o exercício da autoridade em comunhão, na convicção de que a autoridade partilhada é o modo mais adequado de a entender e praticar nas suas diversas expressões, à luz do Evangelho de Jesus e da consciência cristã e humana contemporâneas. Trata-se de articular o exercício pessoal e colegial dos que detêm a autoridade na continuidade do ministério apostólico com a prática sinodal de discernimento e de corresponsabilidade nas decisões por parte da comunidade.

Não está de modo algum em causa o reconhecimento da autoridade e da responsabilidade próprias e inalienáveis que, a níveis diversos embora, cabem ao testemunho ministerial da apostolicidade da Igreja. O determinante é que essa autoridade e responsabilidade sejam exercidas na consciência de que os fiéis também devem ser ouvidos e tomar parte naquilo que constitui a vida de uma comunidade cristã e da Igreja no seu conjunto. Desse modo pretende-se um exercício da autoridade que ajude as pessoas a crescerem na corresponsabilidade eclesial e que liberte nelas os carismas que possuem e a capacidade de os colocar ao serviço da comunidade.

A cultura católica, argamassada nos últimos séculos num espírito de obediência dos fiéis a uma autoridade ministerial de tipo monárquico, é obstáculo enorme à participação dos crentes na elaboração das decisões pastorais, a todos os níveis, nomeadamente ao nível paroquial. As dificuldades aqui existentes vêm, em grande parte, do enquadramento tradicional do ministério ordenado em pressupostos que não são exigência iniludível do Evangelho de Jesus, do testemunho apostólico e da tradição da Igreja dos primeiros séculos. Antes, são consequência de conceções que foram sendo interiorizadas e de práticas que se foram estabelecendo ao longo dos tempos. Mesmo depois da renovada visão eclesiológica que o Vaticano II apontou como orientação para o futuro, há aqui problemas de enorme alcance a reconhecer e a enfrentar. Anoto apenas quatro aspetos.

a) No entendimento do ministério ordenado privilegia-se o aspeto pessoal sobre o objeto do ministério, e a sobrevalorização desta dimensão pessoal (com base num entendimento dito “ontológico” do “carácter indelével”) é acompanhada pela desvalorização das dimensões comunitária e colegial que são igualmente essenciais para a identidade e a vivência deste ministério (e isto desde o ministério diaconal ao episcopal).

b) A visão ainda predominante, que coloca o ministério ordenado numa diferença essencial e superior em relação ao sacerdócio comum (“diferenciam-se essencialmente e não apenas em grau”, segundo uma expressão menos feliz, mas sobretudo mal entendida de Lumen Gentium, nº 10), não contribui para valorizar adequadamente a sacramentalidade batismal dos fiéis. Esquece-se que essa diferença se refere aos dons recebidos em ordem a uma missão eclesial específica (um registo de dons diferentes em relação a outros dons); não se trata de uma pretensa diferença “ontológica” que fizesse do ministro ordenado um cristão em grau superior, muito menos um cristão diferente.

c) No entendimento referido tende-se a ver a ordenação como a colação de um “poder sagrado” que separa os clérigos dos leigos, sacralizando o ministério ordenado e colocando-o simplesmente “face” à comunidade. Corre-se o risco de se esquecer que o ministro ordenado se situa, antes de mais, “dentro da” comunidade, é um entre outros ministérios de que a Igreja precisa para a sua vida e o cumprimento da sua missão.

d) Para além das consequências que daqui decorrem, resulta de tudo isto um ideal genérico do ministério ordenado que modela critérios vocacionais, condições de acesso e seleção de pessoas, formas e prioridades de formação, estilos de vida, mentalidades de pendor individualista e, muitas vezes, autoimunes à crítica e ao diálogo.

Uma Igreja sinodal não pode deixar de rever profundamente os pressupostos aqui envolvidos. Há que refletir, com verdade, clarividência profética e vontade de decisão, sobre a configuração futura do ministério ordenado, sobre outras formas pastorais possíveis do seu exercício, sobre as suas tarefas específicas dentro duma inserção plena na vida das comunidades.

Estamos perante um conjunto de questões bem complexas, difíceis de enfrentar pelas enormes consequências em termos do sistema vigente, pelas raízes seculares e pelos hábitos adquiridos que as suportam, pelas mentalidades dominantes também em muitos fiéis. Só a abertura à ação do Espírito, a escuta sincera do sentido da fé dos crentes e uma visão lúcida de caminhos com futuro permitirão processos de aprendizagem, de transformação e de decisão que superem as inevitáveis resistências e possibilitem formas renovadas e inovadoras de realização do ministério ordenado nas múltiplas circunstâncias em que é chamado a ser vivido.

 

4. Sinodalidade como corresponsabilidade e participação nas decisões em estruturas pastorais

Comunidade João XXIII em escuta sinodal. Foto © Raimundo Mendes da Silva, cedida pelo autor

Comunidade João XXIII num dos encontros de escuta sinodal. Foto © Raimundo Mendes da Silva, cedida pelo autor

 

A sinodalidade informal que deve tecer a vida quotidiana da Igreja como consciência ativa dos batizados concretiza-se em sinodalidade formal pela participação em tomadas de decisão em estruturas pastorais. Por mais diversificados que estes lugares institucionais de participação possam ser conforme os tempos e as circunstâncias, estamos perante mediações imprescindíveis para que a sinodalidade se explicite e desenvolva, proporcionando o discernimento dos caminhos de ação pastoral em cada situação.

Um olhar global sobre a realidade atual (entre nós, mas não só) não oferece um panorama animador quanto à existência efetiva, à qualidade de participação e à pertinência desses órgãos em ordem à elaboração e tomada de decisões pastorais. Nas nossas paróquias, a participação dos cristãos na análise das situações, na definição das prioridades e nas opções de ação pastoral é escassa e minoritária. De um modo geral, não se valoriza devidamente a importância do diálogo interno eclesial e a existência de órgãos de corresponsabilidade consistentes e representativos. A persistência de mentalidades “autoritárias-clericais” e de incapacidades de liderança dificultam ou até inviabilizam atitudes cristãmente mais adultas e corresponsáveis dentro da Igreja.

Se queremos dar um salto qualitativo em ordem ao futuro, há que rever de alto a baixo os condicionamentos pessoais e as limitações estruturais aqui existentes. Por exemplo, no que respeita ao Sínodo Diocesano, tanto o modo da sua realização (preparação, critérios de representação, validade e sentido práticos das suas decisões, etc.) como os caminhos da sua efetiva receção suscitam muitas questões, sem ignorar que continua a haver Igrejas locais que não sentiram ainda necessidade de o realizar. Tanto quanto se pode observar, o Conselho Pastoral Diocesano – um órgão que deveria ser importante em termos de análise, discernimento e projeção da atividade pastoral – é, na maior parte dos casos, bastante irrelevante. Quanto ao Conselho Presbiteral – e cito Alphonse Borras –, “num bom número de dioceses, este Conselho está reduzido a ser uma Comissão do presbiterado: isto não ajuda este último a descobrir a sua articulação, enquanto ordem, ao ministério episcopal; isto não ajuda também este a ultrapassar a sua tendência autocrática na Igreja latina”. Por fim, o Conselho Pastoral Paroquial, que ainda não é um órgão obrigatório em termos de direito canónico universal, não existe em muitas paróquias ou, existindo, não é, na maior parte dos casos, um lugar privilegiado e competente de reflexão e deliberação pastorais.

Importa assinalar que todos estes órgãos têm em comum o seu carácter meramente consultivo: isso só favorece a apatia e a desresponsabilização de quem é chamado a participar e pode conduzir facilmente a atitudes discricionárias e autoritárias por parte de quem exerce a autoridade na Igreja. Mais uma vez: não está em causa a autoridade específica e a responsabilidade última de decisão que cabe ao ministério ordenado. Mas também deveria ser claro que, tendo estes órgãos uma finalidade eminentemente pastoral e não estando em causa questões que pertencem ao conteúdo da fé ou à doutrina irrenunciáveis da Igreja, a fixação canónica atual no meramente consultivo é anacrónica, contrária à consciência cristã e cívica de muitos crentes e não atende devidamente à importância do sentido da fé dos fiéis.

Parece, pois, indispensável que o direito da Igreja amplie desde já – a nível universal, mas também por parte das Igrejas locais – o âmbito daquilo que é canonicamente possível. Tem de se reconhecer, de novo com Alphonse Borras, que no Código de 1983 “há um lamentável minimalismo geral na implicação dos batizados de forma deliberativa, ao menos na vida diocesana e especialmente paroquial”. De resto, os pastores têm a obrigação ministerial de saber escutar e o dever moral estrito de seguir opções maioritárias que se revelem fundamentadas e consistentes.

 

5. Sinodalidade como colegialidade episcopal efetiva na comunhão de Igrejas locais

Bispos franceses reunidos numa celebração. Foto retirada do site oficial da Conferência Episcopal Francesa.

Bispos franceses reunidos numa celebração. Foto reproduzida da página oficial da Conferência Episcopal Francesa.

 

A colegialidade episcopal – cito a Comissão Teológica Internacional – é “a forma específica em que se manifesta e se realiza a sinodalidade eclesial através do ministério dos bispos ao nível da comunhão entre Igrejas particulares numa região e ao nível da comunhão entre todas as Igrejas na Igreja universal” (nº 7). Na concretização da sinodalidade da Igreja desempenha um papel determinante o modo como se exerce o ministério dos bispos e é vivida a colegialidade episcopal, e isso desde logo como símbolo, exemplo e impulso para a vivência sinodal de todo o Povo de Deus. Em causa estão aspetos que vão desde o relacionamento pessoal entre os bispos e a disponibilidade para a cooperação mútua à sensibilidade pastoral face às exigências específicas de cada contexto eclesial. E isso repercute-se no modo como uma Igreja local cresce na consciência da sua identidade e missão, se organiza ministerial e estruturalmente, institui processos de escuta e de diálogo, toma decisões canónicas e pastorais mais adequadas.

Sabemos bem como, ao longo da história, diversas instâncias situadas entre a Igreja local e a Igreja universal têm procurado enfrentar desafios semelhantes na missão, realizando a comunhão das Igrejas e expressando a vivência da colegialidade episcopal. Visando completar o Vaticano I e na linha da mais antiga tradição, o Concílio Vaticano II trouxe impulsos inovadores no sentido de valorizar a importância estrutural das Igrejas locais, apontando para uma eclesiologia da “comunhão das Igrejas” e explicitando ao mesmo tempo o entendimento do ministério episcopal como “plenitude do sacramento da ordem”.

O que aconteceu – é preciso reconhecê-lo – não sem dificuldades, hesitações e limites: a teologia conciliar das Igrejas locais foi ainda incipiente; na teologia do episcopado não se articulou devida e inequivocamente a relação entre a pertença ao colégio episcopal e a presidência de uma Igreja local; o alcance da colegialidade episcopal não só não foi um tema pacífico (basta lembrar a Nota Explicativa Praevia apensa à Lumen Gentium) como continuou a ser objeto de debate intenso na receção conciliar. Assim, não se veio a explicitar de modo coerente uma eclesiologia da “comunhão das Igrejas”, antes até se acentuaram, em contraposição, elementos e tendências vários de uma “eclesiologia universalista”.

Neste processo, a receção teórica e prática da colegialidade episcopal não tem sido linear nem isenta de tensões, mormente no que respeita ao estatuto teológico-jurídico das Conferências Episcopais. Na compreensão da identidade do ministério episcopal tendeu-se a acentuar, primeira e decisivamente, a pertença do bispo ao colégio episcopal, colocando em segundo plano o seu lugar de ministro que preside a uma Igreja local e é testemunha da sua fé, em comunhão com outras Igrejas, com tudo o que isso implica para o cumprimento da sua missão.

Caminhou-se, assim, no sentido de privilegiar a autonomia quase absoluta de cada bispo e sua relação com a Cúria Romana em detrimento da comunhão entre Igrejas vizinhas, chamadas a enfrentar desafios pastorais semelhantes. Esta visão eclesiológica de pendor “universalista”, muito fomentada por razões de política eclesiástica – concretamente, o receio perante a possibilidade de posições doutrinais por parte de grandes Conferências Episcopais ou a desconfiança face ao eventual peso excessivo de Comissões e Grupos de peritos especializados dentro delas –, conduziu a um grave atrofiamento do estatuto das Conferências Episcopais. Elas são entendidas – como o faz a Apostolos Suos – simplesmente como expressão de uma “colegialidade afetiva” (certamente, sempre de pressupor e fundamental!), em detrimento do exercício de uma “colegialidade efetiva” (ainda que parcial, obviamente!) que lhe deve também pertencer, também em termos doutrinais.

Como o Papa Francisco já expressou, a plena receção do Concílio em resposta às interpelações que hoje se apresentam à Igreja exige uma revisão em ordem a renovar e potenciar em vários sentidos a colegialidade episcopal. A existência ativa de instâncias colegiais-sinodais, a qualidade relacional da colegialidade realmente vivida, o grau de verdadeira comunhão existente entre Igrejas vizinhas, tanto a nível provincial como nacional e continental, a capacidade de sintonia em orientações e decisões pastorais básicas num dado espaço sociocultural, são fatores de enorme importância para que possamos falar de verdadeira sinodalidade. O futuro da Igreja num mundo global, mas claramente diversificado nas imensas situações particulares, exige que se repense o modo como se processa a relação Igrejas locais-Igreja universal: por exemplo, em termos de uma legítima autonomia em aspetos litúrgicos, jurídicos, ministeriais, prático-pastorais. E há aqui questões teológica e praticamente mal resolvidas: continuar a atribuir como sede titular de um novo bispo uma Igreja local atualmente inexistente é indício inequívoco disso; por outro lado, o processo de escolha dos novos bispos e das nomeações episcopais continua a acontecer à margem da quase totalidade do povo crente diretamente envolvido e com pormenores que não abonam à credibilidade da Igreja.

De resto, nada impede que, no seu modo de refletir e auscultar o povo de Deus, as Conferências Episcopais se abram mais à escuta e ao contributo pontual de pessoas que não sejam bispos, desde padres, leigos e religiosos a pessoas que, embora alheias à vida interna da Igreja, podem ajudar a perceber melhor os desafios pastorais que se colocam. E as Comissões Episcopais e os Secretariados Nacionais são claramente interpelados a serem lugares privilegiados de diálogo, de representatividade efetiva, de competência técnica, de visão pioneira na abordagem das questões que a Igreja tem de enfrentar.

 

6. Sinodalidade como disponibilidade para uma atitude criativa na sensibilidade atenta ao mundo em que vivemos

Ilustração do Encontro A Economia de Francisco, mostrando o esgotamento dos recursos do planeta.

 

Embora me tenha concentrado, como a formulação do tema exigia, em questões de consciência e estruturação internas eclesiais, é óbvio que todo o discurso eclesial sobre a sinodalidade só faz sentido ao serviço da missão da Igreja. O horizonte da sinodalidade como reflexão e como prática só pode consistir em tornar mais pertinente o significado de Jesus para o nosso existir crente, para a humanização e salvação deste mundo, para a construção de um conviver mais fraterno, justo e com futuro. Neste sentido destaco, a concluir, quatro perspetivas.

a) Sublinha-se, mais uma vez, que pensar em termos de sinodalidade da Igreja é apontar para uma tarefa nunca acabada, a exigir criatividade nas circunstâncias diversas de tempo e de espaço, a pedir persistência e coragem para enfrentar as questões que se apresentam, mesmo sabendo que possíveis e indispensáveis mudanças demorarão tempo e haverá resistências enormes a enfrentar. “Este compromisso – escreve a Comissão Teológica Internacional – requer uma escuta atenta do Espírito Santo, fidelidade à doutrina da Igreja e, ao mesmo tempo, criatividade para detetar e tornar operativos os instrumentos mais adequados para a participação ordenada de todos, o intercâmbio dos respetivos dons, a leitura incisiva dos sinais dos tempos, a eficaz planificação da missão”.

Nesse sentido e para não cairmos em desilusões paralisantes, há que dar os passos criativos necessários – institucionais, canónicos, de capacidade deliberativa, de práticas comuns de escuta e de discernimento, etc…–, tomando as decisões que se revelem indispensáveis a diversos níveis (paróquia, diocese, Igreja universal). Cito o Papa Francisco num discurso aos bispos italianos em 2017: “Fôlego e passo sinodal revelam o que somos e o dinamismo de comunhão que anima as nossas decisões. Só neste horizonte podemos renovar deveras a nossa pastoral e adaptá-la à missão da Igreja no mundo de hoje; somente assim podemos enfrentar a complexidade desta época, agradecidos pelo percurso realizado e decididos em continuá-lo com parresía”.

b) Nesta perspetiva são absolutamente indispensáveis processos de aprendizagem, que, ultrapassando generalidades do discurso, apontem caminhos concretos e realizáveis de mudança dentro de planos pastorais simples. É isso que se visa quando se fala de um estilo pastoral assente na escuta, no diálogo e no discernimento, atento ao sentido da fé dos crentes e dando-lhe expressão prática. Captar e escutar o sentido da fé dos crentes é a possibilidade de se proceder a um discernimento comunitário que permita distinguir o essencial do secundário na vivência crente quotidiana, procurar as opções pastorais mais pertinentes, fomentar a clarividência para enfrentar novas questões que se apresentam.

c) Neste contexto, um âmbito de particular urgência é, hoje, a reflexão e a capacidade de decisão em tudo o que se refere ao papel da mulher na vida na Igreja. O facto de só há ano e meio ter sido revogada oficialmente a impossibilidade de a mulher ter acesso aos ministérios laicais instituídos deve alertar a nossa consciência para as graves deficiências e deformações que aqui persistem e para a presença de mentalidades que não estão à altura do nosso tempo e dos tempos futuros. Reconhecendo a inevitabilidade de novas perceções de consciência humana e cristã numa Igreja que caminha na história, não será difícil admitir que, ultrapassadas que estarão hermenêuticas teológicas e conceções socioculturais marcadas pelo tempo, há transformações profundas a acontecer neste âmbito. De qualquer modo e já hoje, é fundamental que deixemos amadurecer e expressar-se o sentido da fé dos crentes, sem interditos que não ajudam à busca da verdade e à capacidade de decisão nesta matéria.

d) Precisamente na perspetiva prioritária da missão da Igreja, na questão da sinodalidade está estruturalmente envolvida a necessidade de saber ouvir e escutar as “profecias alheias” (E. Schillebeeckx), ou seja, perceber com disponibilidade autocrítica as experiências, interrogações, contestações, expectativas de muitos homens e mulheres, sobretudo das novas gerações, que não participam na vida das nossas comunidades, se encontram numa atitude de busca ou até se situam bem longe da Igreja. Sem uma escuta profunda e sábia dos mais jovens, não só dos que participam na vida eclesial mas também, ou até sobretudo, dos que estão longe (escuta das suas dificuldades com a Igreja, das suas interrogações existenciais, dos novos pressupostos culturais que os envolvem) não haverá renovação e reforma eclesiais com futuro. É a exigência iniludível de perceber o que interpela a credibilidade cristã no quotidiano.

Essa escuta só é possível se os cristãos estiverem conscientes de que a Igreja não é, pura e simplesmente, o “lugar”, mas “sacramento” da salvação, ou seja, sinal e instrumento da salvação como dom gratuito de Deus à humanidade (e, antes de mais, a cada um de nós). Isso significa também que, à luz do Mistério de Deus em que acreditamos, as fronteiras eclesiais visíveis (territoriais, sacramentais, doutrinais, disciplinares, etc.) não delimitam e condicionam o amor misericordioso de Deus para com os perto de oito mil milhões de seres humanos que vivem neste mundo.

A verdade e a credibilidade da missão da Igreja dependem, pois, da capacidade de testemunhar incondicionalmente o amor de Deus para com todos, sem privilégios de pertença eclesial ou de virtuosismo religioso, na particular atenção aos mais frágeis, pobres e necessitados de ajuda, acompanhamento, apoio, defesa. A sinodalidade da Igreja encontra aqui o ponto decisivo de exigência e de verificação de fidelidade. Há todo um caminho – que todos reconhecemos não ser fácil – de mudança pessoal e comunitária, em ordem a abrir as nossas mentalidades e o nosso funcionamento comunitário aos que estão de fora, em situação de distância crítica, de fragilidade humana ou de pobreza desumana.

Em situação crescente de diáspora, as comunidades cristãs são chamadas, pois, a encontrar formas diversificadas de proximidade e abertura à realidade humana envolvente e suas interpelações, e as próprias estruturas locais de sinodalidade têm de saber integrar pessoas e meios que as ajudem nessa escuta e nessa disponibilidade para o serviço concreto ao próximo. Exige-se-nos aqui uma enorme criatividade para que os canais de acolhimento, escuta e serviço sejam efetivos e autênticos, traduzindo o que as pessoas realmente sentem e mostrando o que o amor cristão significa e implica. Afinal, em última análise, “só o amor é digno de fé”.

 

Silêncio: a luz adentra no corpo

Pré-publicação 7M

Silêncio: a luz adentra no corpo novidade

A linguagem não é só palavra, é também gesto, silêncio, ritmo, movimento. Uma maior atenção a estas realidades manifesta uma maior consciência na resposta e, na liturgia, uma qualidade na participação: positiva, plena, ativa e piedosa. Esta é uma das ideias do livro Mistagogia Poética do Silêncio na Liturgia, de Rafael Gonçalves. Pré-publicação do prefácio.

pode o desejo

pode o desejo novidade

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

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Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Porque não somos insignificantes neste universo infinito novidade

Muitas pessoas, entre as quais renomados cientistas, assumem frequentemente que o ser humano é um ser bastante insignificante, senão mesmo desprezível, no contexto da infinitude do universo. Baseiam-se sobretudo na nossa extrema pequenez relativa, considerando que o nosso pequeno planeta não passa de um “ponto azul” situado num vasto sistema solar.

Mais do que A Voz da Fátima

Pré-publicação

Mais do que A Voz da Fátima

Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

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