Sinodalidade: uma outra forma de ser Igreja

| 8 Fev 2024

Pormenor da Capa do livro “Uma Igreja Transformada pelo Povo”, Hervé Legrand e Michel Camdessus; Ed. Paulinas.

 

Se a segunda sessão do Sínodo que atualmente decorre trouxer reformas substanciais à forma como a Igreja se organiza, talvez a questão da sinodalidade seja o maior contributo de Francisco para a reforma da instituição eclesial. Há, sem dúvida, assuntos prementes sobre os quais a Igreja tem de refletir e tomar decisões, mas a forma como a instituição se organiza, incluindo a participação de todo o povo de Deus na vida interna da comunidade e o contributo de todos para o processo de tomada de decisões, é provavelmente a reforma com maior alcance na vida eclesial.

O que é realmente a sinodalidade? Não basta ficarmos pela etimologia da palavra (“caminhar juntos”), é preciso perceber o que significa realmente empreendermos, todos juntos, o mesmo itinerário. Pelos mais variados motivos, a Igreja Católica foi, ao longo dos séculos (sobretudo a partir do início do segundo milénio) e ao arrepio do que era nos primórdios, centralizando o poder. Pouco a pouco, transformou-se numa autocracia monárquica: um papa com o poder universal, um bispo com o poder absoluto sobre a sua diocese, um padre com poder indiscutível sobre os fiéis do território da sua paróquia.

Para efetivar um tal estado de coisas, foi necessário estabelecer nitidamente a diferença entre a classe dos “consagrados” (ungidos por Deus para exercer o poder) e os não consagrados, os leigos, cuja única função era obedecerem submissamente. Numa tal divisão insanável entre os membros do povo de Deus, não há lugar à participação de todos na plenitude da vida da Igreja. Os leigos, destituídos de qualquer prerrogativa que os capacite para o exercício da autoridade e de qualquer formação qualificada na área das ciências divinas, eram chamados a acolher acriticamente tanto as ordens emanadas da hierarquia como os seus ensinamentos. Numa comunidade assim pensada e organizada, não há, portanto, lugar à discussão, à participação, ao diálogo crítico, ao livre intercâmbio de opiniões. Aos leigos resta apenas ouvir e obedecer. No fundo, são chamados a ser uma entidade sub-humana, destituída de razão e de liberdade, incapaz de pensar e propor. Esta foi a situação da Igreja até há relativamente pouco tempo.

Mas a situação mudou. O advento das democracias, a afirmação dos direitos de cada ser humano, incluindo a liberdade de opinião e de expressão e o direito à participação na vida coletiva, bem como os altos níveis de literacia que os leigos foram, entretanto, adquirindo (até no âmbito teológico) vieram baralhar a forma tradicional enquistada na divisão qualitativa entre os que sabem e os que não sabem, os que podem e os que não podem. Torna-se claro que as novas condições da sociedade moderna — certamente bem melhores do que as que vigoravam nas sociedades rigidamente estratificadas — não são compatíveis com a organização hierocrática e centralizada que o último milénio veio consolidar. Resultado: a pressão sobre a instituição no sentido de se realizarem reformas e, sobretudo, o abandono massivo dos fiéis por não sentirem haver lugar para eles enquanto sujeitos do seu destino, no interior da instituição. Hoje, a Igreja Católica arrisca-se a ser uma instituição sem relevância no contexto das relações sociais contemporâneas.

O Concílio Vaticano II veio iniciar o caminho da reforma. Porém, tal processo foi brutalmente interrompido por um conjunto de medidas reacionárias que mantinham as aparências ao mesmo tempo que controlavam a ferro e fogo tudo quanto pudesse cheirar a reforma. O imobilismo tornava a hierarquia segura de si mesma, porque, em seu entender, tudo o que está consolidado pelo tempo tem o selo divino. A manutenção das estruturas pré-conciliares e das decisões que delas emanavam tiveram consequências devastadoras. Hoje, poucos serão os católicos que se identificam com a doutrina oficial em muitos campos da moral, conduzindo as suas vidas independentemente daquilo que os documentos oficiais proclamam numa espécie de letra morta e inconsequente.

O Papa Francisco, ciente de que o caminho iniciado nos anos sessenta tinha agora de prosseguir, veio propor à Igreja uma outra atitude de fundo. Em vez da rígida sociedade monárquica centralizada, era necessário o regresso à forma sinodal de organização, na qual todos, incluindo leigos, mulheres, homossexuais, transgénero e quantos mais houver são chamados a participar na vida da Igreja, incluindo no processo de tomada de decisões. Deixa, portanto, de fazer sentido a distinção qualitativa entre as duas “classes” de cristãos. Numa conceção sinodal, todos gozamos da mesma dignidade. A realizarem-se as reformas nesse sentido, muito haveria a mudar tanto no que se refere a mentalidades como no que se refere às estruturas eclesiais.

Em Portugal, ouvem-se muitas intervenções de bispos a fazer o elogio da sinodalidade. Dá a impressão de que todos rumam para o mesmo lado de Francisco. Contudo, não se veem alterações relevantes na forma de organizar as dioceses e as paróquias. Tudo se mantém tal e qual como estava antes de o Papa Francisco ter lançado o apelo da sinodalidade. Paradoxalmente, vemos mais reformas na cúria romana do que nas Igrejas em Portugal. Na verdade, o apelo da sinodalidade não passa de letra morta que fica bem citar em documentos oficiais ou em homilias. Fica-se com a impressão de que o discurso oficial neste pequeno país sem imaginação vai reproduzindo as ideias-chave que o topo propõe, mas sem a convicção absolutamente necessária para transformar as meras palavras em decisões, reformas, modificações orgânicas. E é assim que tudo corre como sempre correu, apesar da beleza dos discursos e da sua aparente novidade. A verdade é que se o discurso do topo viesse dizer exatamente o contrário do que o Papa Francisco propõe, nada seria necessário alterar na apatia imobilista da Igreja em Portugal.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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