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Editorial 7M

Sínodo: aprender a andar, a escutar e a falar

| 04/06/2022

Que está a Igreja, em Portugal, a fazer e o que vai fazer do Sínodo sobre a Sinodalidade? Sendo ainda cedo para uma perspetiva de conjunto, começam a surgir elementos consistentes que apontam tendências e silêncios, que o 7MARGENS tem tentado trazer para o espaço público. A muito custo, deve dizer-se, porque não é fácil conseguir informação.

Se as leitoras e leitores deste jornal virem com atenção a peça publicada nesta quinta-feira, fica evidente um dado que diz muito sobre o estado atual da Igreja em Portugal. Em mais de dezena e meia das dioceses que forneceram informação sobre as comissões diocesanas sinodais, não houve uma sequer que não fosse liderada por um padre (num caso, até mesmo por um bispo).

Porque tem de ser assim?  Razões de disponibilidade ou de competência? Razões de confiança?

É crível que em nenhuma das dioceses portuguesas os senhores bispos, um que fosse, tenha conseguido encontrar uma leiga ou um leigo com capacidade de liderar um processo desta natureza? Ter-lhes-á ao menos ocorrido a ideia? Terão ao menos tentado? Era mais cómodo ou dava mais garantias colocar um clérigo nessa função?

Dir-se-á: nada garante que sendo um leigo ou uma leiga a liderar, o trabalho (de uma equipa) fosse muito diferente, tivesse outros filtros. Sim, nada garante. Mas se este é um processo dirigido a – e com a participação de – todo o povo de Deus, porque não ser um pouco mais ousado?

Mas o problema não é apenas da liderança. É também da constituição das próprias comissões que poderiam ter tido uma banda mais larga de sensibilidades. Como já foi aqui sublinhado, houve, em geral, realidades sociais e culturais das dioceses que ficaram à margem do processo de análise e de elaboração das sínteses. E, sendo verdade que existem assimetrias muito acentuadas entre as dioceses, não se pode dizer que não havia trabalhadores, mulheres ou jovens para colaborar no processo.

O caso já aqui sinalizado, num texto de opinião, da síntese convenientemente amputada do Patriarcado de Lisboa é, deste ponto de vista, inquietante. A repetir-se, seria um convite a que os católicos que se sintam defraudados (como o responsável da comissão de Beja diz ter acontecido com experiências anteriores), individualmente ou em grupo, recorram diretamente ao Secretariado Geral do Sínodo.

Sim, porque, chegamos a meados de 2022, e estamos sem informações sobre quem vai elaborar a síntese nacional que os bispos portugueses irão enviar para Roma. E essa é uma matéria a que muitos estão particularmente atentos. Mas também aqui vai um abismo em relação ao que se tem passado noutros países. Ocorre referir o exemplo da França ou da Irlanda – em que os respetivos episcopados há bastantes meses que designaram comissões nacionais para animar o processo sinodal, em articulação e proximidade com as dioceses. No caso irlandês, os bispos não só lançaram um processo sinodal de cinco anos no país na primavera de 2021, que se viria a entrosar com o convocado pelo Papa, como escolheram para presidente do comité executivo uma leiga jovem, doutorada em História (contemporânea) da Igreja e que desempenha as funções de secretária-geral do Conselho Irlandês de Igrejas.

E nós, em Portugal, onde estamos? Onde ficamos? Para onde vamos?

Reconhecendo ser cedo para uma visão de conjunto, que ajude a responder a estas perguntas, em termos nacionais, há, no entanto, um ponto que emerge e que é urgente começar a ser desde já equacionado: a desafetação e mesmo deserção da Igreja por parte dos jovens.

Poderia supor-se que Portugal organiza a Jornada Mundial da Juventude em 2023 porque tem um dinamismo significativo de grupos, associações e movimentos católicos vivos e interventivos. As mensagens que vêm da dinâmica sinodal apontam precisamente para a debilidade desse dinamismo. Para os jovens, a ligação à Igreja, à liturgia e a outras atividades aguenta-se até ao fim da catequese básica. Depois, desligam-se e cortam os laços. A religião deixou de ser relevante para as suas vidas – eis o que se diz ou, pelo menos, se deduz dos relatos que consultamos.

Aparentemente, se “vão à vida” é porque falta vida onde estão (os que estão).

Certamente este não é o retrato que apanha todos os jovens. Certamente que há famílias e comunidades que conseguem tornar-se significativas nos percursos de vida de alguns deles. Mas é aparentemente uma tendência. Que também ajuda a compreender a desertificação dos próprios seminários.

O que se torna inquietante, neste cenário, é que os relatos sinodais não falam da Jornada Mundial da Juventude e, ao que se ouve, na preparação desta também pouco se fala do Sínodo (como se fala pouco, por exemplo, da guerra ou da preocupação com a sustentabilidade do planeta, que os responsáveis da JMJ dizem ser uma prioridade. Para não se estar perante uma Igreja “esquizofrénica”, que vive em dois mundos que não se escutam nem se tocam, não seria necessário agir para criar pontes efetivas entre eles?

Pelo lado da sinodalidade, tudo apontaria para que se lançassem processos de escuta dos jovens em larga escala, envolvendo os que existem e circulam nos ambientes eclesiais, de modo a chegarem também aos seus amigos e colegas desligados da Igreja. A “cruz” deles, que transportam de diocese em diocese, não deveria ser precisamente essa de ir ao encontro dos que andam longe, dando-lhes atenção, tempo e cuidado?

E chegamos ao mesmo: os bispos parecem muito tranquilos, muito acomodados, cada um no seu posto, na sua esfera de ação. Mas, tal como se invoca na tradição cristã, não invocarão eles o Espírito Santo, para discernir o que Deus quer dizer à Igreja Católica que está em Portugal?

Que o Espírito existe, não pode haver dúvida, já que, apesar de todas estas limitações e dificuldades, há desafios, propostas e algumas pérolas naquilo que os grupos sinodais encontraram, nestes primeiros meses de Sínodo (só é pena que as dioceses optem por não os disponibilizar).

A Igreja e os católicos são crianças que estão a aprender a andar, a escutar e a falar, como dizia há dias o Papa Francisco. Mas precisam de assumir essa condição e esse desejo.

(Por erro técnico, a ligação da newsletter de dia 4 para este texto não estava a funcionar, por isso repetimos a sua publicação.)

 

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