Editorial 7M

Sínodo católico: cinco meses para definir prioridades

| 28 Out 2022

Caminho Sinodal, Alemanha, Sínodo

Cruz do Caminho Sinodal alemão: “O Sínodo universal continua a trazer coisas novas à Igreja Católica.” Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner.

 

A respiração das igrejas locais chegou ao Sínodo e este propõe agora cinco meses para as igrejas de cada continente indicarem quais são as experiências novas e iluminadoras que valorizam, quais as questões e interrogações a enfrentar e que ações definem como prioritárias. O Documento de trabalho para a Etapa Continental (DEC), divulgado na quinta-feira 27 de novembro abre o tempo da concretização, ao jeito de um Concílio Vaticano II, parte 2. E é feliz no modo como o faz. [ver 7MARGENS]

Hoje como há 60 anos, tal como escrevia este mês Joseph Ratzinger/Bento XVI a propósito do Concílio Vaticano II, “tornou-se gradualmente evidente a necessidade de reformular a questão da natureza e da missão da Igreja”. É para esse “reformular” que o documento agora convida todos os que participam da “comum dignidade batismal”, e não apenas os bispos. Porque foi essa extensa participação que permitiu “abrir horizontes de esperança para o cumprimento da missão da Igreja.”

Convite que aqueles – leigos, padres e bispos – que aqueles que se recusaram ativamente a participar na primeira fase do Sínodo muito provavelmente não aceitarão. Para os que estão na Igreja Católica agarrados a uma eclesiologia pré-Vaticano II não há necessidade de escutar os crentes para se descobrirem as interrogações que o mundo atual coloca à mesma Igreja. Qualquer movimento nesse sentido é por eles visto como cedência ao ar dos tempos, como meio de claudicar perante a moda e a cultura dominante, como desvio à missão da Igreja trocada por uma vontade de ser popular “no mundo”.

De facto, aquilo que separa os católicos que responderam entusiasmados ao desafio deste Sínodo daqueles que a ele resistem não é o progressismo ou o conservadorismo de uns e outros. O que os separa são duas eclesiologias diferentes, dois modos de entender “a questão da natureza e da missão da Igreja”. O processo sinodal em curso não abre debates sobre as verdades de fé, procura apenas “reformar a Igreja” e convocar todos os batizados a participarem na construção de uma linguagem contemporânea que possa servir de veículo ao anúncio de Jesus Cristo aos homens e mulheres de hoje. E essa linguagem só será percetível se for uma fala construída a partir das preocupações, das alegrias e das angústias dos que habitam “as periferias”, uma fala que nasça de situações e vidas até agora estranhas à Igreja, porque só assumindo a linguagem do outro se pode viver “a escuta que exige reconhecer o outro como sujeito do seu próprio caminho” (nº. 32).

 

Caminhar na diversidade, sem uniformidade

Ao ler com olhos de fé o percurso já realizado, o DEC recusa escamotear diferenças, dificuldades, crispações e sofrimentos que se tornaram evidentes, mas respira uma confiança lúcida no futuro: “O Povo de Deus experimentou a alegria de caminhar em conjunto e o desejo de continuar a fazê-lo. O modo de o conseguir como comunidade católica verdadeiramente global é algo que ainda falta descobrir completamente.” (nº. 100)

Há, portanto, caminho a percorrer, futuro a construir.

Esse futuro gera-se numa Igreja que é comunidade viva “em contínua reforma das suas estruturas e do seu estilo” e na afirmação da centralidade da sinodalidade: este é modo de ser da Igreja Católica, baseado na “comum dignidade batismal” de todos; é vivendo-a que a Igreja pode acolher todos, incluindo os que “nela não têm voz” ou se “sentem exilados” e cumprir a sua missão no mundo; é ela que confirma a necessidade de ir “para além do clericalismo” e de “repensar a participação das mulheres”.

A importância maior deste documento é a de relançar, agora de forma mais concreta, a reflexão sobre a reforma necessária e desejada da Igreja Católica centrada na sinodalidade. Não uma reflexão feita a partir de uma qualquer análise de performance institucional, mas tendo sempre como horizonte “o sonho de uma Igreja capaz de se deixar interpelar pelos desafios do mundo de hoje e de lhes responder com transformações concretas” (nº. 42), ou, como se escreve na síntese portuguesa citada no mesmo nº 42 do DEC “o mundo precisa de uma ‘Igreja em saída’, que rejeite a divisão entre crentes e não crentes, que olhe para a humanidade e lhe ofereça mais do que uma doutrina ou uma estratégia, uma experiência de salvação, um ‘golpe de dom’ que atenda ao grito da humanidade e da natureza.”

Alguns destes gritos ecoam no texto vindos de grupos muito concretos: os jovens e as mulheres; o dos pobres e o da terra; os deficientes e os cuja vida precisa de proteção especial; a comunidade LGBT; os pobres das periferias… Para todos eles se pede acolhimento e espaço para exercerem o seu protagonismo para concretizar “a visão de uma Igreja capaz de uma inclusão radical, de pertença mútua e de profunda hospitalidade segundo os ensinamentos de Jesus”. (nº. 31)

Para o caminho a percorrer não existem “apelos à uniformidade, mas pede-se que se aprenda a crescer numa sincera harmonia, que ajude os crentes a desempenhar a sua missão no mundo criando os laços necessários para caminhar juntos com alegria.” Ou seja, a difícil unidade, hoje mais complexa do que nunca, não será obtida por um esmagamento da diversidade, mas sim pela harmonia que é preciso construir.

Os desafios são enormes, mas o caminho percorrido não é menor. O Sínodo continua a trazer coisas novas à Igreja Católica.

 

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