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Bispo Manuel Linda na Missa da Peregrinação Jubilar ao Santuário de Fátima, setembro 2025. Foto Voz Portucalense
Em Fátima, o bispo do Porto, Manuel Linda, anunciou aquilo que para a maioria terá sido uma surpresa. Foto © Voz Portucalense

7MARGENS ausculta cristãos

Sínodo da Diocese do Porto: surpresa do anúncio dá lugar à alegria… e às reticências

| 25/09/2025

“Está na hora de convocar um Sínodo Diocesano”. Com estas palavras, proferidas no último sábado em Fátima, perante muitos milhares de diocesanos, o bispo do Porto, Manuel Linda, anunciou aquilo que para a maioria terá sido uma surpresa. Um anúncio ainda de contornos pouco definidos, como transparece de palavras suas, na mesma homilia: “Gostava muito de, nos próximos meses, ter eco, receber o sentir das pessoas e organismos” sobre a “necessidade e possibilidade” da organização de um Sínodo Diocesano.

O 7MARGENS, que tem acompanhado de perto o processo sinodal, no plano global, nacional e local, quis ir além do mero anúncio do bispo do Porto, e começar a dar “eco” sobre “o sentir das pessoas”, como sugere o prelado. Auscultou para tal mais de uma dezena de pessoas, entre clérigos e leigos, casais, homens e mulheres, mais novos e mais velhos, e contactou também a Comissão Sinodal da Diocese do Porto. Deste trabalho foi possível captar algumas sensibilidades e preocupações de que aqui dá conta.

Antes de mais, convém lembrar que os sínodos e concílios estão previstos no Direito Canónico da Igreja Católica, mas são raros, sem periodicidade e com uma natureza marcadamente autorreferencial, isto é, muito voltados para o lado funcional da instituição e com caráter meramente consultivo. Segundo o bispo Manuel Linda, no Porto não se realizam há mais de 300 anos. O Papa Francisco veio alterar profundamente estas práticas, com o processo que conduziu ao último Sínodo sobre a Sinodalidade, assente na escuta das comunidades cristãs e do mundo, na atenção às realidades e necessidades locais e no diálogo e participação de todos os crentes.

A terceira fase do Sínodo lançada por Francisco – a da tomada de decisões e da sua concretização – está agora a correr, estendendo-se até 2028. E é neste processo que deverá inscrever-se o anúncio feito pelo bispo do Porto.

 

O “estado” da Diocese do Porto

Ao falar da necessidade do Sínodo, o prelado da Diocese deu sinais de estar muito preocupado com a falta de clero, problema que está longe, de resto, de ser exclusivo desta porção da Igreja Católica. “Não tenhamos dúvida – alertou o bispo –  dentro de uma década, o clero diocesano baixará imensamente”. E desenhando cenários decorrentes dessa falta, interrogou(-se): “como assegurar os sacramentos, a organização das comunidades e a atividade sócio-caritativa representada, por exemplo, pelos centros sociais paroquiais? Esta é uma urgência. Não para amanhã; era já para ontem”.

Padres e leigos com quem falamos referiram não apenas a falta de padres, mas o seu envelhecimento e as consequências pastorais e existenciais (até de burnout) para aqueles que se mantêm no ativo de terem de acumular funções e responsabilidades em múltiplas paróquias.

Outros alertam para a desertificação dos templos, relativamente às missas dominicais, e para a “ausência quase total” dos jovens ou, ainda, para o esgotamento de energias de um significativo número de membros do clero a gerirem instituições de natureza sócio-caritativa e de outros tipos.

A par disto, e tão ou mais preocupante do que estas problemáticas, seria, de acordo com vários interlocutores, a sensação de uma parte do clero tem de que uma iniciativa como esta é mais um ato voluntarista e certamente bem intencionado do bispo, não conversada nem preparada previamente e, por conseguinte, difícil de poder ser encarada com a seriedade e com o entusiasmo devido.

Nota-se mesmo alguma saudade do que foi a visão do antecessor, o bispo António Francisco dos Santos, que estava a começar a lançar bases para uma estratégia sinodal diocesana, que acabou, no essencial, por estiolar com a sua morte repentina, em 2017.

A este quadro, necessariamente parcial, poderia somar-se a repetição de notícias, nos últimos anos, sobre práticas de gestão dos bens imobiliários da Igreja diocesana, que deixam dúvidas na sociedade, mas deixam igualmente no interior da comunidade dos fieis.

 

Como é recebido o anúncio do Sínodo

Fieis na Missa da Peregrinação Jubilar da diocese do Porto ao Santuário de Fátima. Foto Voz Portucalense

Fiéis na missa da Peregrinação Jubilar da diocese do Porto ao Santuário de Fátima. Foto © Voz Portucalense

Não são todos e poderá nem ser a maior parte os que dizem: “Isto não vai dar em nada!”. Para o casal Maria Artur Barros e Ângelo Soares, com uma longa trajetória de envolvimento em departamentos de pastoral da Diocese (Família, Vocações…), a notícia deste sábado “constitui um motivo de muita alegria: é um convite oportuníssimo a sermos uma comunidade eclesial que aceita questionar-se, à luz do Espírito, sobre como ser anúncio do Evangelho perante os desafios do mundo atual e as situações concretas em que vivemos”.

Os dois reconhecem não ser esta uma “tarefa fácil” numa diocese “de tão longas tradições que, por vezes, podem obstar a que pensemos diferente ou tenhamos até ouvidos disponíveis para escutar a voz do Espírito, superar a tentação de algum imobilismo e ter a coragem de ‘para tempos novos, odres novos e vestidos novos'”. Trata-se, explicam, de um “desafio de mudar mentalidades” que “será crucial para o sucesso deste sínodo”: “mentalidades de algum clero habituado à hegemonia, de leigos que tentam fazer parte duma elite restrita que tem acesso ao pároco e ao poder ou dos que se habituaram a não se envolver porque “o senhor padre é que sabe”. E rematam: “Esta mudança terá de traduzir-se numa ‘revolução’ na formação inicial e contínua do clero, religiosos e leigos”.

“Que diocese queremos ser, aqui e agora, neste lugar e tempo que vivemos, e que Deus espera que sejamos?”. Esta é a pergunta a que é importante que o Sínodo responda, do ponto de vista do padre Manuel Mendes, pároco de Esmoriz. Para ele, o anúncio do bispo causou surpresa (“aparentemente nada o fazia prever”; a dinâmica lançada pelo Papa Francisco, parecia, ultimamente, adormecida, senão esquecida”), mas despertou igualmente alegria por ser este “um momento decisivo e importante para a Igreja universal”). Para ele e para a paróquia que serve e que tem feito “um caminho muito interessante no que diz respeito ao processo sinodal”, foi bom ouvir esta intenção, esperando que seja “mais do que uma intenção”. Como pároco, deseja que a diocese “avance, de facto, e sem demorar muito (mas não de maneira apressada) para que esse grande momento possa acontecer e marcar uma etapa decisiva na história da nossa diocese do Porto”.

 

“Foi como sentir uma rajada de vento”

“Foi como sentir uma rajada de vento a impedir que as portas se fechem, e a reacender um fogo que não podemos deixar apagar.” É desta forma entusiástica que Matilde Santos fala da notícia que recebeu no sábado. Ela que é membro da Comissão Sinodal Permanente da mesma paróquia do padre Mendes, recorda como foi envolvida no processo, em novembro de 2021, e como foi descobrindo, através do processo de escuta, preparação dos grupos e moderadores, passando pelos instrumentos de escuta, até chegar à síntese paroquial “a importância e premência” do caminho que se estava a iniciar na Igreja. Descobriu, nesse caminho, que “ficar por ali seria ‘trair’ o próprio espírito sinodal e comprometer a procura de uma Igreja que vá ao encontro dos homens e mulheres deste tempo”.

Ao olhar para o processo sinodal da Igreja do Porto e pensando particularmente nas gerações mais novas, lembra que elas “privilegiam o pragmatismo em detrimento de grandes reflexões, mesmo que necessárias”, sugere que se vá ao encontro da sua “apetência pelo gosto de experimentar”, proporcionando-lhes “oportunidades de experienciarem uma vivência sinodal em projetos concretos, arrojados e interpelantes; e depois da experiência questioná-los diretamente: ‘é bom ser Igreja assim?’”. E recomenda que se comece este tipo de dinâmicas com as crianças, no quadro do Itinerário de Iniciação à Vida Cristã das Crianças e dos Adolescentes com as Famílias que, salienta Matilde, “deve obrigatoriamente ser também uma ‘escola’ sinodal”. Não o fazer, enfatiza, seria “um tremendo contrassenso”.

Jovens na Missa da Peregrinação Jubilar da diocese do Porto ao Santuário de Fátima. Foto Voz Portucalense

É preciso perguntar aos mais novos: “é bom ser Igreja assim?”, defende a jovem da paróquia de Esmoriz Matilde Santos. Foto © Voz Portucalense

A imagem do fogo atiçado pelo Sínodo do Papa Francisco que se estava a apagar ou se encontrava mesmo extinto, sem sequência, foi apontada também pelo padre José Maria Pacheco Gonçalves, que exerce na paróquia do Canidelo (V. N. Gaia). Ele reconhece que há problemas já identificados que carecem de ser pensados, a fim de evitar situações mais graves e, por isso, diz-se com alguma esperança quanto ao Sínodo agora anunciado. “Uma dinâmica sinodal pode ser útil e vem em bom momento”, acrescenta, desejando também que as pessoas se manifestem sobre o modo de organizar o Sínodo.

Sara Leão é uma mediadora educativa em contexto escolar, ligada à comunidade dos Redentoristas do Porto, que entende a proposta episcopal como “uma assembleia sinodal de batizados – com mulheres e homens leigos, ordenados, religiosas – mas também com a presença e palavra de outros crentes e não crentes”. Entende que deve ser dirigido um convite às comunidades cristãs para que busquem “instrumentos de escuta” em diversos contextos – não apenas nas paróquias, mas, propõe Sara Leão, “nas universidades, nos centros de escuta e acolhimento, nos hospitais e prisões, nos ambientes digitais.” Um caminho para que a Igreja se faça “com as pessoas reais que habitam e se movimentam neste território” e que “não esvazia as palavras que usa – justiça, misericórdia, comunhão…”. O processo sinodal a lançar precisa, pois, de cuidar dos “processos de escuta e diálogo, facilitando a apresentação de visões divergentes”; de “repensar os processos de decisão, incluindo homens e mulheres nesses processos”; e de estar aberto a aprender com a experiência de “ir construindo em comunidade alargada”

A afirmação de Manuel Linda de que “está na hora de convocar um Sínodo Diocesano”, foi recebida pelo casal Domingas e Paulo Vasconcelos, ligado às Equipas de Nossa Senhora, “com a esperança de que (…) se possam abrir caminhos quotidianos de vida sinodal na nossa Igreja local”, chamando a atenção para os desafios atuais das famílias e da sociedade, “desde os que nos chegam com a dita Inteligência Artificial até aos de sempre, como os das relações interpessoais e de vida em comunidade, superando invejas e violências”.

O casal entende importante apostar na formação, através, por exemplo, de um curso elaborado por especialistas que expliquem os documentos do último Sínodo dos Bispos, a exemplo do que acaba de fazer o CELAM – Conselho Episcopal da América Latina.

 

Que se vai passar agora?

O 7MARGENS conversou, esta quarta-feira, 24, com o padre Joaquim Santos que desempenha a função de coordenador da Comissão Sinodal Diocesana do Porto, a fim de perceber em que medida essa Comissão tem este processo em mãos e o que se pode esperar nos tempos mais próximos.

Pelo que nos foi dado perceber, a própria Comissão terá sido surpreendida pelo conteúdo da homilia do bispo Manuel Linda, em Fátima, na peregrinação jubilar da Diocese, em particular pelo anúncio de um Sínodo. Mas reagiu à notícia “com satisfação”.

O prelado já tinha entrado em contacto com a Comissão Sinodal para se ver como proceder relativamente à fase de implementação do Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade, pelo que, segundo o coordenador, do que se trata agora é de fazer a conjugação das duas dinâmicas, a que decorre do processo sinodal da Igreja universal e o Sínodo.

Neste sentido, o padre Joaquim Santos anunciou que vai decorrer nas próximas semanas um encontro de uma “plataforma alargada”, com a participação do bispo Manuel Linda, que reunirá a Comissão Sinodal e os responsáveis dos diferentes departamentos de pastoral da Diocese portucalense.

É previsível que desse encontro possa sair o delineamento do processo sinodal com alguns marcos já calendarizados, considerando o caminho já feito, desde 2022, em particular a síntese diocesana elaborada a partir de perto de centena e meia de contributos de paróquias, movimentos e comunidades várias.

 

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