O Sínodo da Igreja Católica de Itália defrontou-se com um facto inesperado, na II Assembleia da terceira e última fase realizada na última semana no Vaticano: um corpo de 854 participantes presentes aprovou por esmagadora maioria uma moção que defende uma revisão profunda da versão apresentada da proposta de documento final, com as orientações para todos os católicos italianos.
Esta era a reta final da chamada fase profética, que se iniciou em abril de 2024, com a elaboração de um ‘instrumento de trabalho’ trabalhado ao longo dos últimos meses entre os coordenadores do processo sinodal, as dioceses e o conselho permanente da CEI (Conferência Episcopal Italiana). Antes desta fase, haviam decorrido, desde 2021, a fase de escuta e recolha de vidas de “pessoas, comunidades e territórios”, realizada em articulação com o Sínodo sobre a Sinodalidade lançado pelo Papa; tendo-se seguido, em 2022, a fase designada por sapiencial, centrada em cinco questões que emergiram da primeira fase de escuta: a missão segundo o estilo de proximidade; linguagem e comunicação; formação na fé e na vida; sinodalidade permanente e corresponsabilidade; e a mudança de estruturas.
Estas assembleias contam com um total de 1008 membros participantes oficiais, dos quais 168 são bispos (incluindo sete cardeais), 252 presbíteros, 34 religiosos, 17 diáconos e 530 leigos (253 homens e 277 mulheres).
Nesta II Assembleia da fase profética o objetivo central seria chegar a um conjunto de Proposições (feitas de diretrizes e deliberações), a integrar no Liber Synodalis (livro sinodal), a serem homologadas pela CEI, na sua reunião de maio próximo, e posteriormente enviadas às igrejas locais.
Ora foi o texto dessas Proposições que suscitou reticências generalizadas a avaliar pelos resultados da moção que pediu a revisão do texto e o adiamento de uma votação final: dos 854 participantes presentes votaram a favor 835, votaram contra 12 e sete abstiveram-se.
A reescrita do texto ficou a dever-se à convicção de que o texto apresentado não incorporava de forma satisfatória as emendas que haviam sido apresentadas, além de que matérias como o papel da mulher na Igreja, a pastoral dos homossexuais e o combate aos abusos estavam abordadas de forma considerada manifestamente insatisfatória.
Os coordenadores do processo sinodal italiano terão a tarefa de rever o texto, contando com o contributo dos coordenadores diocesanos. E ficou previsto que, quando em outubro ocorrer o jubileu das comissões sinodais de toda a Igreja, em Roma, haverá um dia – sábado, 25 de outubro – para a reapreciação e votação do resultado desse trabalho.
Comentando este desenlace aparentemente imprevisto, o bispo Erio Castellucci, que preside ao grupo coordenador nacional, admitiu que “as inúmeras propostas de emenda apresentadas pelos 28 grupos exigem uma revisão abrangente do texto e não apenas o ajuste de algumas das suas partes”.
Refletindo sobre o processo e justificando as razões pelas quais aceitava que o documento ainda não estava maduro, afirmou: “Reiteramos que a Igreja não é formada por líderes que ignoram o ‘sentimento’ do povo (de Deus), continuando como se estivessem sempre certos – algo infelizmente muito difundido hoje em dia nas tendências soberanistas e ditatoriais – mas é formada por líderes chamados a discernir a presença e a ação do Espírito no Povo de Deus, do qual fazem parte. Crescemos juntos, cada um de acordo com seus dons e responsabilidades. O texto proposto realmente parecia inadequado”.
Não se tratou, por conseguinte, de uma espécie de ‘golpe de estado’ de leigos contra os clérigos, como alguns setores se apressaram a afirmar, mas de um consenso em torno de um processo que todos reconheceram poder ser melhorado.
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