Que espero do Sínodo católico? (14)

Sínodo e ocaso do clericalismo

| 14 Out 2023

O que esperamos do sinodo_7 margens

 

O 7MARGENS acompanha os trabalhos da Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, divulgando as expectativas dos seus leitores sobre este importante acontecimento (ver textos já publicados aqui).

Perante o Sínodo, sinto alguma perplexidade, dadas as tensões internas presentes na Igreja. Mas a confiança no Espírito do Senhor leva-me a esperar o melhor; e peço que tal acontecimento, pelos rasgos inéditos que apresenta, pela coragem moral que ostenta e pela confiança sobrenatural em que se firma, seja uma fonte de renovação e de juventude para a Igreja e de desafio fecundo e humanizante para o mundo actual.

Espero sobretudo que o Sínodo seja o catalisador da desclericalização progressiva da Igreja. Acho que tudo se joga aqui. Tal processo devia ser proactivo, e não simples resultado, a longo prazo, da diminuição dos membros do clero – fenómeno porventura irreversível e que vai obrigar a decisões radicais. Será uma tragédia, e uma infidelidade ao Evangelho, se a hierarquia, em conluio com os fiéis, não tomar medidas profundas a este respeito.

Mas antes de continuar, gostaria de propor aqui três textos, de épocas diferentes. Um é de Agostinho: «Pois ‘o Senhor, Deus dos deuses, falou.’ Falou pelos Anjos, falou pelos profetas, falou pela sua própria boca, falou pelos seus apóstolos, fala pelos seus fiéis, fala pela humildade da nossa palavra [de bispo], quando expomos alguma verdade. Vede como falando, frequentemente, de muitos modos, por meio de muitos instrumentos, de muitos órgãos, todavia, é Ele que deixa ressoar a sua voz em toda a parte, estimulando, reformando, inspirando.»[1]

Quão significativo é aqui o uso do pretérito, do presente e do gerúndio: Deus ‘falou’ pelos profetas, pelos apóstolos; ‘fala’ pelos seus fiéis e continua ‘falando’ por meio de muitos órgãos, e ressoa em toda a parte estimulando, reformando, inspirando… Como complemento, de Agostinho poderia ainda acrescentar-se o seguinte: “Todos somos ungidos, todos estamos n’Ele e somos de Cristo e também Cristo, porque de algum modo o Cristo total é a Cabeça e o corpo.[2] Ou então: “Em Cristo fala a Igreja e na Igreja fala Cristo, o corpo na Cabeça e a Cabeça no corpo.[3]

O segundo texto é de João Crisóstomo, o grande e corajoso bispo de Constantinopla, que dizia aos seus fiéis: “Não somos, ó amados, proprietários da vossa fé, nem damos ordens à maneira de um senhor, somos administradores da doutrina da Palavra: não nos foi prescrita uma magistratura nem conferida uma autoridade; temos a função de conselheiros que avisam e acautelam. O conselheiro diz o que de si provém, sem imposição a quem escuta; mas este pode decidir não fazer o que é dito. […] A Igreja é uma casa paterna, um só corpo, e um só espírito”.[4]

E, como contraste, veja-se o terceiro texto de um autor medieval, que exalta sem rebuço o clero e arvora uma concepção militante e militar da fé cristã, além de identificar o desejo clerical com o desígnio divino: “No corpo da Igreja o clero é como que o cérebro, e a classe dos soldados é, por assim dizer, a mão. O clero distingue-se pela inteligência e pelo discernimento; mas o grupo dos militares protege o clero; e se houver de defender toda a Igreja, mas sobretudo o clero, deste recebe a orientação e a ele deve também a proteção. O inimigo do género humano deseja intensamente criar obstáculos a esta disposição divina, pela qual Deus quer que entre o clero e os militares haja apreço e estima; de facto, [esse inimigo] sabe que a concórdia e o amor são muito úteis à Igreja de Deus, e deveras prejudicial a discórdia.[5]

Fala-se aqui do clero, dos nobres e senhores das armas, mas do povo fiel quase nada!

O que é que se passou entre os textos de Agostinho e de João Crisóstomo e o texto do autor medieval? Foi o aparecimento progressivo – por causas várias – de uma Igreja clerical, que, ao longo dos séculos, sob pressão das circunstãncias históricas ,decerto não por ambição, mas até por uma preocupação pastoral sincera (embora hermenêuticamente ofuscada), foi transformando os que detinham cargos, ministérios e ofícios dentro das comunidades eclesiais em membros de uma classe; e daí o binómio (fatídico) clerus-plebs, a divisão entre clérigos e leigos.

Não podem esquecer-se, decerto, as inúmeras ressonâncias positivas dos elementos do clero na actividade e dedicação pastoral, nas artes, na literatura, na música, etc; mas foi também o clero que em muitos Concílios espalhou anátemas, instituiu e presidiu os processos inquisitoriais, difundiu, através de muitos dos membros do clero (alguns deles santos) e das ordens religiosas, o antijudaísmo entre os fiéis, concebeu a hierarquia  eclesiástica como cópia e participação das hierarquias celestes, “idealizou” demasiado o sacerdócio, sobreculpabilizou o povo cristão com uma “pastoral do medo” (segundo o grande historiador católico Jean Delumeau), menorizou os leigos, favorecendo, aliás, a sua iliteracia bíblica, a sua ignorância teológica e espiritual, além de não evitar um devocionalismo nem sempre esclarecido, ou ainda de ter promovido uma espiritualidade assaz contabilística. E, claro, pelos crimes e pecados dos abusadores sexuais conspurcou e esfrangalhar de forma irremediável e injusta a imagem dos sacerdotes.

Nas palavras de Agostinho e de João Crisóstomo, pelo contrário, deparamos com uma paisagem comunional e fraterna da comunidade cristã, em que o Espírito de Jesus paira, actua e gera liberdade; deles não está ausente a função de orientação e guia, mas sem a obsessão da dicotomia Ecclesia docens (Igreja que ensina) e Ecclesia discens (Igreja que aprende e é ensinada). Tal distinção foi elaborada no período pós-tridentino, sobretudo por obra de Thomas Stapleton (+1598), biógrafo de Thomas More. Esta construção teológica, segundo Avery Dulles,[6] fez que o antigo conceito de “sensus fidelium”, relevado por J. H. Newman, deixasse de “funcionar como uma fonte teológica distinta”.

Hoje, é um dado adquirido na filosofia que toda a vida humana (logo, também o conhecimento em todas as suas formas) é essencialmente intersubjectiva; que as nossas consciências (para se individualizarem) se enredam, enleiam e entretecem umas nas outras, desde os momentos iniciais da nossa existência até ao seu último dia.

Na vivência da fé cristã, cujo modelo é a vida trinitária, essa circulação comunional, esse remoinho intersubjectivo, agitado pelo Espírito de Jesus, é ainda muito mais necessário, porque é dentro da Igreja que escutamos a Boa Nova e lhe respondemos. Se no seio da Trindade reina a comunhão absoluta, a intersubjetividade infinita, a giração de amor e de reconhecimento mútuo entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, então na Igreja, “ícone da Trindade” (Bruno Forte), as coisas não podem ser diferentes. Entre todos, entre a hierarquia e os leigos, nos quais também o Espírito actua, deve reinar essa pericorese, essa espécie de dança divina, o reconhecimento mútuo e fraterno, a valorização e o uso dos carismas de todos e de cada um.

A esta luz, o fim ou ocaso da Igreja clerical é a condição de todas as transformações futuras. Se o Sínodo não for a semente eficaz de tal desenvolvimento, se persistir o que se poderia chamar (com exagero, claro!) de “usurpação clerical da Igreja”, então muitas outras expectativas ficarão goradas: a transformação do papel e da situação da mulher nas estruturas eclesiais, a capacidade de a Igreja responder aos desafios tremendos do mundo presente, a sua abertura a todos os humanos com todos os seus defeitos e insuficiências, mas também com todas as suas virtualidades; ficará igualmente comprometida a obra da evangelização e da transmissão da fé.

E haverá um imenso desperdício de capital humano e “sobrenatural”, além da falta de “coragem da fé” e da sua concomitante alegria. E, como é evidente, dominará o medo, um medo viscoso, que, no fundo, é incompreensão, esquiva e infidelidade a um dos convites mais prementes de toda a Bíblia: “Não temas!”

 

Artur Morão, professor aposentado do ensino secundário e tradutor

[1]          Agostinho, En. in Ps 49, 3.

[2]          Agostinho, En. in Ps 26, II, 2.

[3]          Agostinho, En. in Ps 30, II, S. 1, 4.

[4]          J. Crisóstomo, In Epist. Ad Ephesios, cap. IV, Hom. XI, 5-6, PG, 62, col. 87.

[5]          Liber eruditionis principum, VII, cap. 3. O texto aparece numa edição oitocentista das obras de S. Tomás de Aquino, mas é um apócrifo, porventura  (segundo o medievalista português José Maria da Cruz Pontes) de Guilherme Peraldo (Guillaume Perault, 1200?-1271) – Cf. o sítio: Corpus Thomisticum: https://www.corpusthomisticum.org/xre7.html.

[6]          A. Dulles, A Church to Believe In, NY, Crossroad 1982, 112. Cf. James T. Bretzke, Consecrated Phrases. A Latin Theological Dictionary. Collegeville, Minn., Liturgical Press 2013, 69.

 

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