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Sínodo é representativo ou participativo?

| 21/04/2024

O Papa numa mesa de trabalho da primeira sessão do Sínodo, em 28 de outubro de 2023. Foto © Ricardo Perna

O Papa numa mesa de trabalho da primeira sessão do Sínodo, em 28 de outubro de 2023. Foto © Ricardo Perna

Quando Francisco, na Jornada Mundial da Juventude, clamou “todos, todos, todos” – e certamente também queria dizer “tudo, tudo, tudo” –, não estava a confinar o chamado “Sínodo dos Bispos” a uma “representatividade saloia” baseada nas estruturas – algumas não existem! – da Igreja Católica Romana. 

Se assim fosse não seria necessário a inauguração de um novo enriquecimento da Igreja com a consigna “todos, todos, todos”, mas tinha-se apoiado nas estruturas existentes, ou seja, as conferências episcopais, os conselhos presbiterais e os conselhos pastorais diocesanos, onde são “nomeados-eleitos” sempre os mesmos, com vozes que não manifestem dúvidas sobre a vida da Igreja, e que o bispo da diocese quer e aprova! 

Na primeira parte do Sínodo, foram ouvidas muitas estruturas e o povo da Igreja. É verdade que foi uma minoria, porque muitos não quiseram ou mesmo já não confiam em nada que venha da Igreja. Na segunda fase, não foi assim: órgãos já existentes e de cúpulas analisaram os textos e decidiram. Agora, numa terceira fase, o texto não foi passado ao povo da Igreja, mas submetido ao parecer – normalmente esquecido – dos conselhos presbiterais (constituído unicamente por padres e bispos) e do conselho pastoral diocesano. É, pelo menos, o que ocorre na Diocese do Porto. 

Se o primeiro documento, saído da pena da Comissão Sinodal Diocesana, foi justamente produzido com o parecer do Povo de Deus, da Igreja Católica Romana do Porto, de outras tradições cristãs e de ateus até, o mesmo não se poderá afirmar no respeitante ao documento que irá ser produzido.

Um Sínodo ou é participativo ou não é Sínodo. Dizer, como alguns afirmam, que já existia sínodo, com as estruturas existentes – comissões paroquiais pastorais, comissões vicariais pastorais, comissões presbiterais e Comissão Diocesana Pastoral – é “representativo”, mas não lhe poderemos chamar “participativo”. Primeiro, é necessário notar que muito menos de metade das paróquias têm comissões pastorais – porque o padre não quer ou entende que ainda não chegou o tempo para a formar; e as que existem são “instalações sonoras” que traduzem as palavras do clero – diáconos incluídos –, e não o trabalho continuado do seu discernimento, da palavra feita eucaristia, como a comunhão quotidiana das suas reflexões participativas da comunidade. Segundo, as comissões presbiterais ou as comissões de vigários são ouvintes atentos das diretivas do seu bispo, do qual dependem e possuem uma cultura herdada dos tempos inquisitoriais. Terceiro, porque a Comissão Diocesana Pastoral é formada por elementos apáticos que de modo algum abordarão as questões pastorais de forma contundente; aliás começa logo por a agenda de trabalhos já vir configurada de antemão: são aqueles assuntos e nada mais. Teremos até de fazer um esforço por lhe chamar “representativo”, porque nem isso é traduzível neste esquema que se diz “representativo”. 

Um Sínodo tem de ser sempre participativo, na medida em que se ouvem todas as opiniões do Povo de Deus – de onde emana o Espírito do Senhor. Quem afirmar que já existia sinodalidade antes do Papa Francisco falar nisso, está profundamente errado. Até porque os “peritos” em sinodalidade são os membros do Povo de Deus e não pessoas ditas “peritas”. Mesmo as sínteses finais das decisões tomadas devem ser do conhecimento de quem anteriormente as propôs, senão não temos participação ativa. Mais: as dioceses devem realizar com regularidade, anual ou bianual, os seus sínodos próprios, não por vontade superior, mas por emanação do Povo de Deus, com pareceres das assembleias comunitárias: isto é “participação”. Não acredito em poderes vindos duma pirâmide de costas para o Povo de Deus. 

Querem continuar com as estruturas que temos e chamar sinodal a isso? Pois bem, até há muitos leigos/as de “sacristia” interessados, que são, normalmente, os representantes das comunidades. Continuem e vejam os resultados!

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental. 

 

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