Assembleia entrou na última fase

Sínodo escreve carta aos católicos e Papa pede rotas “seguras” para migrantes

| 19 Out 2023

Escultura, Migrações, refugiados, Anjos desconhecidos, Timothy Schmalz

Oração do Papa Francisco e dos participantes da assembleia sinodal evocativa dos migrantes e refugiados, junto da escultura Anjos Desconhecidos, de Timothy Schmalz, na Praça de São Pedro. Foto © Vatican Media

 

O Papa Francisco pediu nesta quinta-feira que se redobrem os “esforços para combater as redes criminosas, que especulam com os sonhos dos migrantes” criando, ao mesmo tempo, rotas “mais seguras”. Durante uma oração em plena Praça de São Pedro, junto do monumento aos migrantes Angels Unaware (“anjos desconhecidos”), do canadiano Timothy P. Schmalz, o Papa acrescentou que “as rotas migratórias do nosso tempo estão cheias de homens e mulheres feridos e abandonados semimortos, cheias de irmãos e irmãs cujo sofrimento brada aos olhos de Deus”.

A celebração desta oração com os participantes acontece quando a assembleia sinodal entra na última fase de debates. Ao mesmo tempo, foi anunciado que a assembleia redigirá uma “carta ao povo de Deus”, que pretenderá mobilizar todas as pessoas que ainda não foram alcançadas pelo processo sinodal em curso desde há dois anos.

Esta decisão obrigou a alterar o calendário dos últimos dias de trabalho. Assim, a manhã de segunda-feira será dedicada a um plenário (congregação geral, na linguagem do Sínodo), após o que se segue dia e meio sem trabalho para os participantes. Na tarde de terça, 24, reúne apenas a comissão que vai escrever o relatório de síntese. Quarta, a síntese será distribuída aos participantes, que terão algumas horas para a ler, após o que se reunirão de novo em plenário para comentários ao documento.

A manhã de quinta-feira é dedicada a reuniões de grupos também para comentar a síntese e propor eventuais alterações ao texto. À tarde, em plenário, serão decididos os modos e calendário do próximo ano até à segunda assembleia sinodal, que decorrerá em Outubro de 2024. Na sexta-feira, reunirá apenas a comissão de redacção, para que o documento seja aprovado na sua versão final (de manhã) e votado (de tarde) no sábado. A missa de encerramento decorre na manhã de domingo, 29, presidida pelo Papa.

Esta alteração também tem em conta o convite de Francisco para um dia de jejum e oração pela paz, convocado para o dia 27 sexta-feira [ver outra notícia no 7MARGENS].

Quer o tema da guerra e da paz – agora agravado pelas tragédias do atentado terrorista em Israel e dos bombardeamentos em Gaza –, quer o dos migrantes e refugiados têm merecido uma atenção especial do Papa, mesmo durante estes dias do Sínodo. E por isso não foi estranho ver de novo Francisco a evocar as pessoas que “fogem da guerra e do terrorismo”, repetindo que o Mediterrâneo se tornou um “túmulo” para muitas delas. O Sínodo debate um tema – “comunhão, participação e missão” – que só aparentemente diz respeito apenas à vida interna da Igreja Católica. De facto, o Papa quer que esta assembleia seja uma forma de os católicos se re-situarem na sua missão no mundo. E ainda há dias, na assembleia sinodal, Luca Casarini, que trabalha numa organização de apoio ao resgate de migrantes no Mar Mediterrâneo, deu o seu testemunho, tendo entretanto informado a assembleia, já nesta semana, de que 116 pessoas tinham sido retiradas de dois barcos, que vinham de vários países africanos.

 

As estradas e a chave

Escultura, Migrações, refugiados, Anjos desconhecidos, Timothy Schmalz

Escultura Anjos Desconhecidos, de Timothy Schmalz, na Praça de São Pedro. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A oração decorreu junto da escultura que evoca precisamente sucessivas vagas de migrantes e migrações ao longo da história – europeus, americanos, africanos ou asiáticos, de todas as religiões e todos sujeitos e protagonistas das mesmas tragédias que são a guerra e a miséria. Presentes estavam também, além dos participantes do Sínodo, refugiados dos Camarões, El Salvador e Ucrânia.

O Papa tomou como ponto de partida da sua reflexão a Parábola do Bom Samaritano, que conta a história do homem que, mal visto no seu tempo, é afinal aquele que salva outro que tinha sido deixado quase morto à beira do caminho. “A estrada, que levava de Jerusalém a Jericó, não era segura, tal como hoje não o são as numerosas rotas migratórias que atravessam desertos, florestas, rios e mares. Quantos irmãos e irmãs estão, hoje, na mesma condição daquele viandante da parábola! Quantos são roubados, espoliados e espancados no caminho! Partem enganados por traficantes sem escrúpulos; depois são vendidos como mercadoria de troca. Acabam sequestrados, prisioneiros, explorados e reduzidos à escravidão. São humilhados, torturados e estuprados. Muitos morrem, sem nunca chegar à meta.”

Por isso, o Papa considera urgente o compromisso de todos “em tornar mais segura a estrada, para que os viandantes de hoje não caiam vítima dos salteadores”. E sugere: “É necessário multiplicar os esforços para combater as redes criminosas, que especulam sobre os sonhos dos migrantes.” São necessárias rotas seguras e também “maior empenho para se ampliar os canais migratórios regulares”, colocando ao mesmo tempo em diálogo “as políticas demográficas e económicas com as políticas migratórias”, tendo no centro sempre “os mais vulneráveis”, e promovendo “uma abordagem comum e corresponsável da governação dos fluxos migratórios, que parecem destinados a aumentar nos próximos anos.

E a parábola referida é “a chave para passar dum mundo fechado a um mundo aberto, dum mundo em guerra a um mundo em paz”.

 

As “questões delicadas” da autoridade

Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo

O cardeal Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, relator-geral do Sínodo. Foto Conferencia Episcopal Espanhola/Wikimedia Commons

 

Ao falar da carta ao povo de Deus que será aprovada entretanto, o relator-geral da assembleia, o cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, alertou para a necessidade de os comentários se fixarem num “número muito limitado” de temas: “Este Sínodo será avaliado com base nas mudanças perceptíveis que dele resultarão. Os grandes meios de comunicação social, especialmente os mais distantes da Igreja, estão interessados em possíveis mudanças num número muito limitado de assuntos.”

Na conferência de imprensa de quarta-feira, várias perguntas referiram precisamente a questão das pessoas LGBTQ+ ou que vivem uma relação com alguém do mesmo sexo, um dos temas mediáticos desta assembleia. O cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, afirmou que o tema surgiu nas reflexões em plenário e nos grupos, mas confirmou que nesta sessão do Sínodo não haverá conclusões.

Zbigņev Stankevičs, arcebispo de Riga e secretário-geral da Conferência Episcopal da Letónia, acrescentou que o convite do Papa em Lisboa, durante a JMJ, para que a Igreja seja lugar para “todos, todos, todos” significa que as pessoas homossexuais também devem ser acolhidas “com amor, sem julgar”. E deu o seu próprio testemunho de como antes “julgava as pessoas” e que, quando ouviu o Papa perguntar “quem sou eu para julgar?” começou a fazer um processo para entender as pessoas concretas. “Tive como uma iluminação: também a pessoa homossexual é meu próximo, devo amá-la”.

Também Pablo Virgilio David, bispo de Kalookan e presidente da Conferência Episcopal das Filipinas, se referiu ao tema, acrescentando que há uma grande tendência em classificar as pessoas segundo o género, sexualidade, filiação política ou religiosa, mas Jesus via “cada ser humano como um filho de Deus”.

O relator, cardeal Hollerich, referiu-se como “questões delicadas” os temas da autoridade, do serviço, do discernimento e da descentralização na Igreja, que estão a ser debatidos nestes dias. Nos lugares onde predomina o clericalismo, a Igreja não muda, disse é “uma Igreja sem missão”. Por isso, os grupos devem debater como ter uma Igreja “saudavelmente descentralizada”. E Timothy Radcliffe, o teólogo e antigo superior-geral dos dominicanos que co-orientou o retiro preparatório da assembleia sinodal, afirmou que a Igreja “já não é primordialmente ocidental” e nela “as mulheres já estão a assumir responsabilidades e a renovar a teologia e espiritualidade”, como também “os jovens de todo o mundo, como vimos em Lisboa, estão a levar-nos em novas direcções, para o continente digital”.

Hollerich apresentou os temas concretos do debate destes últimos dias em grupos, antes de passar à discussão do relatório de síntese: questões como o exercício da autoridade e da “corresponsabilidade” contra o clericalismo que quer “manter o status quo, porque só o status quo cimenta” o poder; o discernimento que permita chegar a consensos que não polarizem e que respeitem a autoridade, sem isolá-la da comunidade; a criação de estruturas com um “grau de sinodalidade efectiva”; e o próprio lugar do sínodo como exercício de corresponsabilidade.

 

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