Sínodo: espírito de conversão

| 18 Jun 2021

sinodo bispos FEC sem creditos

“O Papa propõe, assim, uma Igreja mais sinodal e menos clerical, mais à imagem das comunidades dos primeiros séculos”. Foto: Direitos Reservados.

 

O Concílio Vaticano II afirmou que a “Igreja conjuga orações e esforços para que se transforme o Mundo inteiro em Povo de Deus, Corpo do Senhor e Templo do Espírito Santo e para que em Cristo, Cabeça de todos, seja dada ao Pai e Criador do universo toda a honra e toda a glória” (Lumen Gentium, 17). Realiza-se em outubro de 2023 a 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos, precedida por um processo inédito de consulta das assembleias diocesanas e continentais. O Sínodo tem por tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” e decorrerá segundo uma “modalidade inédita”, que tem como objetivo possibilitar “a escuta real do Povo de Deus e garantir a participação de todos no processo sinodal”. Não se trata, pois, de um mero acontecimento, mas de um processo que envolve os fiéis, o Colégio Episcopal e Papa, cada um segundo a sua função.

Recorde-se que o Papa Francisco publicou em 2018 a constituição apostólica Episcopalis Communio na qual reforçou o papel do Sínodo dos Bispos, sublinhando a importância de prosseguir a dinâmica do Concílio Vaticano II. Se as assembleias sinodais têm sido consultivas, o Papa usa agora a prerrogativa prevista no Direito Canónico, no sentido de atribuir ao Sínodo “poder deliberativo”. Com efeito, a constituição apostólica estabelece uma aproximação das assembleias sinodais ao modelo dos concílios ecuménicos.

A abertura do Sínodo de 2023 acontecerá na cidade do Vaticano, sob a presidência do sumo pontífice, nos dias 9 e 10 de outubro de 2021, e em cada diocese em 17 de outubro, sob a presidência do respetivo bispo. Assim, dar-se-á início à “fase consultiva” da 16ª assembleia do Sínodo, a partir de um documento preparatório, um questionário e um guião com propostas de consulta em cada diocese. Cada bispo nomeia um responsável ou uma equipa para a consulta sinodal, devendo cada Conferência Episcopal fazer o mesmo.

A consulta ao Povo de Deus, em cada diocese, culminará numa reunião com a equipa responsável que contribuirá para apresentação da reflexão diocesana, devendo as conclusões de cada diocese ser enviadas à respetiva Conferência Episcopal, para redação de uma síntese que deve chegar ao Vaticano até abril de 2022.

Os contributos envolvem a Cúria, Universidades, Uniões de Superiores e Superioras de Institutos Religiosos, Federações de Vida Consagrada e movimentos internacionais de leigos. A Secretaria-Geral do Sínodo redigirá um primeiro instrumento de trabalho antes de setembro de 2022. Em seguida, haverá a fase continental do Sínodo (setembro de 2022-março de 2023); nomeando as Conferências Episcopais um responsável. Estas assembleias continentais elaboram um documento final, até março de 2023.

Em simultâneo com as reuniões continentais, haverá assembleias internacionais de especialistas. Após a recolha destes contributos, será elaborado um segundo documento de trabalho, até junho de 2023, decorrendo a reunião final do Sínodo dos Bispos em Roma no mês de outubro seguinte. O Sínodo será, assim uma assembleia de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja. A irmã Nathalie Becquart é a primeira mulher a desempenhar um cargo de responsabilidade no Sínodo. Trata-se de um importante sinal, que constitui um passo que o Papa Francisco pretende que constitua um caminho no sentido da compreensão de um entendimento cada vez mais amplo e integrador do Povo de Deus, como se encontra plasmado na Constituição Lumen Gentium, do Vaticano II.

Esta leitura corresponde à exigência de interdependência e reciprocidade, já que a missão da Igreja não pode estar reservada a alguns, que são ordenados ou religiosos. O Papa propõe, assim, uma Igreja mais sinodal e menos clerical, mais à imagem das comunidades dos primeiros séculos – ou seja, “uma Igreja onde todos são atores e caminham em conjunto”, como afirmou a irmã Nathalie Becquart. A sinodalidade tem uma dimensão “constitutiva” na Igreja, que é preciso experimentar, para gerar comunidades missionárias e ao serviço do bem comum.

O método sinodal é, deste modo, sempre missionário, sempre orientado para o serviço de todos, para o diálogo com o mundo, bem como para o desafio do diálogo inter-religioso, do diálogo ecuménico, com o mundo político, social e económico. Contudo, segundo a irmã Becquart, esta mudança implica um processo “espiritual de conversão”, para vincar a dimensão “comunitária” na vida em Igreja.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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