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sínodo, sinodalidade, Papa Francisco

Visão do teólogo Massimo Faggioli

Sínodo está a lançar as bases de um novo modo de ser Igreja

| 31/08/2024

sínodo, sinodalidade, Papa Francisco

O Papa Francisco rodeado de participantes da primeira assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade. Foto © António Marujo/7MARGENS

O Papa Francisco quis evitar que o Sínodo sobre a Sinodalidade fosse “sequestrado” por questões como os católicos LGBTQ e, sobretudo o lugar das mulheres na Igreja, mas sem que isso signifique cerrar as portas ao futuro. Para tal, criou vários grupos que estão a trabalhar, com um calendário definido, sobre uma agenda de temas difíceis que terão os seus desenvolvimentos já em período pós-sinodal. 

Quem propõe esta leitura é o teólogo e historiador da Igreja Católico Massimo Faggioli, docente da Universidade Villanova, nos Estados Unidos da América, num artigo que assina na revista católica Commonweal, intitulado “O Sínodo sobre a sinodalidade – etapa 2: o que esperar da segunda assembleia em outubro”.

O académico começa por reconhecer que as expectativas para a fase derradeira do Sínodo, lançado em 2021 pelo Papa, “não são tão altas” como eram ao abrir-se a primeira sessão. Porém, observa, “mesmo que pareça haver menos entusiasmo, uma leitura atenta do documento preparatório (Instrumentum Laboris) produz uma imagem mais esperançosa”. 

Acresce que o “processo sinodal” continuará, acredita Faggioli. Documenta-o o que se passou desde que, no final de outubro, encerrou a primeira sessão. Várias das matérias que foram ali assunto de debates e de votações foram objeto de documentos e decisões de Roma: respostas às dubia de vários cardeais; o documento Fiducia Supplicans, sobre as bênçãos de casais homossexuais; a Dignitas Infinita, sobre a dignidade humana; o documento do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos sobre o primado do bispo de Roma, à luz da sinodalidade e do diálogo ecuménico; ou a clarificação e reafirmação da oposição do Papa à ordenação de mulheres (numa entrevista ao canal televisivo CBS), sem esquecer que várias das reuniões do Conselho de Cardeais tiveram intervenções de várias figuras femininas, incluindo uma ‘bispa’ da Igreja Anglicana.

 

Mulheres na Igreja: Papa impôs a sua vontade ao Sínodo

Ao mesmo tempo, o secretariado geral do Sínodo e a Cúria Romana, em articulação com o Papa, punham em campo múltiplos grupos de estudo, com teólogos e agentes de pastoral de várias partes do mundo, uns mais diretamente a preparar a segunda sessão sinodal e outros a aprofundar temas complexos e, em alguns casos polémicos, ao quais proporão os seus relatórios até meados de 2025 (fazendo um ponto de situação aos participantes da segunda sessão do Sínodo).

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 de outubro de 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS

Para o autor do artigo, o Instrumentum Laboris evidencia uma eclesiologia voltada para o ‘povo de Deus’ que representa uma “viragem” daquela que foi prevalecendo desde os anos 80, mais alicerçada na “eclesiologia de comunhão”, plasmada no documento Communionis Notio, de 1992, da Congregação para a Doutrina da Fé. A viragem do Instrumentum Laboris observa-se, por exemplo, quando as igrejas são vistas como “locais” e não “particulares” (“uma ambiguidade linguística estudada na época do Vaticano II”, anota Faggioli)  ou quando, em vez de usar o conceito de Igreja “universal”, que remete para a abordagem de cima para baixo, fala sobre a “ecclesia tota” (“toda a Igreja”): o que se refere nos parágrafos 88 e 91 abre espaço a orientações mais precisas quer para a implementação de mudanças estruturais no quadro de uma Igreja sinodal quer para a descentralização que Francisco começou a desenhar logo em 2013, na Evangelii Gaudium. 

Nestas matérias, que se relacionam com a implementação de uma “nova eclesiologia” e que passam por processos de escuta e de participação terão mais hipóteses de reunir uma aprovação generalizada do que temas como, por exemplo o lugar das mulheres da vida da Igreja, que suscitam ainda oposição nomeadamente em África e na Europa central.

No entanto, sublinha o autor do artigo, “a forma como o papel das mulheres na Igreja for abordado será crucial para todo o processo sinodal”. Ora o que se sabe é que, se é pouco crível que a segunda assembleia sinodal não fale desta matéria, que se cruza com outras que serão abordadas, por decisão do Papa o assunto do diaconado das mulheres não figurará na agenda. Mas ele continua a ser levantado em diversas tomadas de posição e o trabalho teológico em torno dele vai continuar. Francisco criou comissões sobre esta matéria em 2016 e 2020, cujos relatórios continuam por divulgar. Acresce que este é o único tema que foi colocado pelo Papa sob controlo exclusivo do Dicastério para a Doutrina da Fé, num grupo de trabalho que é também o único cuja constituição se desconhece.  Em conclusão, “Francisco impôs-se à liberdade do Sínodo” e, desse modo, também “comprometeu a sua credibilidade nesta questão”.

 

Igrejas locais: diferentes ritmos na concretização das reformas

Que esperar, depois de outubro, ou seja, depois de terminar formalmente o processo sinodal lançado em 2021? Para Faggioli, acontecerá o mesmo que ocorreu com o Concílio Vaticano II: “Os membros da assembleia voltam para casa, [mas] a Cúria permanece”. Simplesmente, desta vez os próprios lideres do Vaticano parecem em sintonia com a ideia de que “o processo sinodal não termina com o fim da segunda assembleia do Sínodo”, já que se tratará de desenvolver o modo de ser sinodal a todos os níveis da vida da Igreja, tendo em conta o que vier a sair dessa segunda sessão.

Sínodo

Aspeto da aula sinodal na abertura do Sínodo 2021-24, em Roma, 9 de outubro de 2021. Foto © Vatican Media.

Por outro lado, os resultados dos dez grupos de estudo, que trabalham em sintonia com o espírito sinodal, serão um dado relevante a ter em conta – o próprio Papa poderá entender aguardar por eles para fazer a sua exortação apostólica. 

Um aspeto essencial para que o artigo chama a atenção e que vem exposto no parágrafo 95 do Instrumentum Laboris diz respeito à “valorização das peculiaridades associadas ao contexto em que vive cada Igreja local”, que pode fazer com que “a adoção de um estilo sinodal” pode avançar sem que todas as Igrejas tenham forçosamente de o fazer “ao mesmo ritmo relativamente a cada questão”. Isso constituirá “expressão de uma legítima diversidade” e “ocasião para um intercâmbio de dons e enriquecimento mútuo”.

 

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