Sínodo para a Amazónia e Crise Civilizatória (ensaio)

| 22 Out 19

Dom Mauro Morelli, bispo emérito de Duque de Caxias (Rio de Janeiro, Brasil), fotografado em Outubro de 2013, em Belo Horizonte. Foto © António Marujo

 

Sendo a Fé em Cristo a mesma em Osaka, Nova Iorque, Roma ou Rio de Janeiro, é a realidade que determina e diferencia o jeito de ser Igreja e configura caminhos e prioridades da evangelização. Na realidade local, regional e planetária, a Igreja deve estar inserida como testemunha e servidora da Vida em Comunhão.

Vivemos, em verdade, uma crise civilizatória. Esta é a Hora da Graça da Libertação! Escolhamos a vida como pessoa, família, nação e povos. A Igreja, como pitada de sal e fermento, participa com a família humana e com toda a criação da busca de um tempo novo ou de um novo ciclo em que tudo se revista da sabedoria e da beleza de Cristo, que segundo Isaías 40, caminha conosco como “pastor apascentando o rebanho, reunindo as ovelhas dispersas e carregando no colo as feridas”.

Desde a primeira hora, na manhã de Pentecostes, e por dois séculos, a Igreja viveu a unidade no pluralismo cultural, eclesiológico, litúrgico e ministerial. O serviço do Evangelho foi confiado ao Colégio Apostólico e à Igreja; sendo o pastoreio exercido sem feudos, com participação da Comunidade através da escuta da Palavra, do discernimento orante e do processo decisório.

Consciente das heranças históricas decorrentes do abraço de Constantino, o Papa Francisco, na esteira de João XXIII e de Paulo VI, conclama a Igreja a cultivar a colegialidade e a sinodalidade, em todos os seus níveis e dimensões, desde a comunidade local até à dimensão católica ou universal.

Vida em Comunhão, segundo a ecologia integral, abrange todas as dimensões das relações do ser humano na Casa Comum, ou seja, ambientais, sociais, económicas, culturais e políticas no dia a dia de nossa existência.

 

Uma “ecoclesiologia”

Assim, pois, a própria Igreja, à luz da ecologia integral, deve passar por profundo questionamento e conversão sobre o modo de viver, testemunhar, celebrar, anunciar e servir o Evangelho da Vida em Comunhão. Com uma nova “ecoclesiologia”, todas as relações na Igreja, congeladas ou/e bloqueadas por leis e rubricas, devem ser avaliadas e transformadas para que, em todos os níveis, sem subserviência ou independência, a Igreja seja regida pelo princípio da autonomia em comunhão, inserida na rede de solidariedade da Casa Comum.

Em Cristo não há mais sagrado e profano, judeu ou pagão, grego ou romano, homem e mulher; sendo Deus louvado não somente em Sião ou no Monte Garizim, segundo nossas tradições e reduções, mas no Espírito que sopra em todo o lugar, superando dicotomias, barreiras, preconceitos e esquizofrenias.

Belo exemplo, o processo de convocação do Sínodo para a Amazónia. As tensões do processo sempre inevitáveis, sejam superadas com paciência e mansidão, desde a Cúria Romana até à paróquia de São Roque de Minas, na Serra da Canastra, onde vivo a solicitude pela Igreja, como bispo emérito, em comunhão com o pároco e com o bispo desta diocese de Luz, no Estado de Minas Gerais (Brasil).

 

Não fechemos o coração, pois a crise é tempo da graça que nos liberta do clericalismo, ou seja, do ministério transformado em poder e até em tirania sobre o Povo de Deus submetido aos nossos humores e caprichos. O pastoreio da Igreja deve ser confiado a pessoas comprovadamente eminentes na Fé e excelentes na Caridade. Da mesma forma, chega de procurar uma paróquia para um padre e uma diocese para um bispo, deixando nas mãos solitárias e diplomáticas do núncio apostólico a coordenação do processo de formação de dioceses e de eleição/transferência de bispos.

Sejamos de facto Igreja em saída, como na manhã de Pentecostes, rumo aos porões e às periferias existenciais ou geográficas, onde o ser humano subsistindo aviltado e esmagado, a Mãe Terra chora e geme pela degradação ecocídia.

Honremos a memória e o legado de mulheres e homens eminentes na Fé que deram suas vidas para resgatar e promover a dignidade humana, a justiça e a paz, como dom Hélder Câmara, fundador da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] com monsenhor Giovanni Baptista Montini [futuro Papa Paulo VI], dom António Batista Fragoso, Zilda Arns, padre Penido Burnier, Irmã Dulce e Madre Tereza.

 

Um sínodo para metrópoles e megalópoles

As megalópoles de São Paulo e Rio de Janeiro vistas de satélite. Foto NASA/Wikimedia Commons

 

No contexto atual, em que a Nação Brasileira se encontra dominada pelo ódio e pelo atraso (cf. Jeremias14,18; Amós 6.1-7; 8, 4-8.11-13), como não recordar o franciscano Paulo Evaristo Arns, saudoso arcebispo profeta de São Paulo e mártir da Cúria Romana, baluarte da democracia brasileira e promotor da colegialidade e da sinodalidade na vida e na missão da Igreja? Incentivado pelo Papa Paulo VI, sonhou e abriu caminhos para a presença e a missão da Igreja na megalópole sem esquartejá-la, dividindo-a por ruas e riachos, mas articulada em regime de Autonomia em Comunhão, priorizando a cidadania do povo das periferias geográficas e existenciais. Sonho, convertido em anos de trabalho sério, ignorado e descartado pela Cúria Romana. Até à sua morte, como Maria, em silêncio guardava tudo no coração. Não apenas para a Amazónia, é urgente um Sínodo para as metrópoles e as megalópoles.

Ouso afirmar que, mais do que nunca, urge separar definitivamente Igreja e Estado, confiando às Comissões de Justiça e Paz, em âmbito nacional e internacional, o diálogo com Governos, Agências Internacionais e Organismos da ONU. Uma nova Constituição ou “Motu Proprio” pode confiar à Comissão Internacional de Justiça e Paz as entidades internacionais denominadas Santa Sé e Cidade do Vaticano. A Cúria Romana e Conferências Episcopais, livres da diplomacia, possam efetivamente promover a colegialidade de cada bispo na solicitude pela Igreja e a sinodalidade, ou seja, a participação efetiva de cada batizado na vida e na missão da Igreja a serviço do Reino de Deus.

Ao amanhecer do novo, vislumbro a CNBB, livre do poder e de ânsia de conquistas e privilégios, reintegrando em seus quadros os bispos eméritos, como animadora da Igreja profética e pastora, comprometida com a preservação das fontes da vida e com os povos originários, com os desvalidos e discriminados das periferias e grotões desse país continental, quer agrade ou desagrade a governantes e poderosos.

Em sintonia com o Sínodo para a Amazônia, no cuidado com a Casa Comum, sejamos atentos à exortação do Papa Francisco: “a extinção de uma cultura é tão ou mais grave do que a extinção de uma espécie” (LS 145).

Caminhemos de esperança em esperança, em comunhão com tudo o que existe e vive nesta Casa Comum, de forma solidária e participativa, como pitada de sal e fermento na massa, pois “ tudo o que é bom é nosso, nós somos de Cristo, Cristo é de Deus e Deus será tudo em todos” (cfr.1 Coríntios 3,22- 23; 15, 20-29). Vem, Senhor Jesus! Ap 22,20 .

Dom Mauro Morelli foi o primeiro bispo (agora emérito) da diocese de Duque de Caxias (Rio de Janeiro, Brasil)

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