Sínodo sobre Amazónia: Vaticano entreabre a porta a ordenação de homens casados e ministério para mulheres

| 18 Jun 19 | Cristianismo - Homepage, Destaques, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

Manifestação indígena em Brasília: as populações indígenas devem ser escutadas em todos os âmbitos, defende o documento preparatório do Sínodo dos Bispos católicos. Foto © Guilherme Cavalli/Conselho Indigenista Brasileiro

 

Abertura à ideia de ordenar homens casados e de um ministério para as mulheres. Estas são duas das propostas, no âmbito da organização eclesial católica, que se podem ler – ainda apenas como sugestões – no documento de trabalho preparatório da assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, que decorrerá entre 6 e 27 de Outubro.

O texto propõe que se debata a ordenação de anciãos, “preferentemente indígenas, respeitadas e aceites pela sua comunidade, ainda que tenham já uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”. Apresentada como uma das várias “sugestões” no capítulo da organização das comunidades, a medida é uma das que propõe “novos ministérios para responder de modo mais eficaz às necessidades dos povos amazónicos”.

A ideia de ordenar “viri provati”, na expressão latina, homens maduros e provados, já tinha sido apontada pelo Papa Francisco em outras ocasiões, mesmo reafirmando o compromisso da Igreja Católica com o celibato. Esta não será, no entanto, a primeira excepção católica à regra do celibato: já antes foram admitidos padres anglicanos, que eram casados, ​​ao serviço da Igreja Católica, depois de terem deixado a Comunhão Anglicana; e há várias igrejas católicas orientais (melquitas ou maronitas, por exemplo), que aceita a ordenação de homens casados.

“As comunidades têm dificuldade em celebrar frequentemente a eucaristia” por causa da falta de padres, verifica o documento. “A Igreja vive da eucaristia” e a eucaristia edifica a Igreja. Por isso se pede que, em vez de deixar as comunidades sem eucaristia, se mudem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para a celebrar”, justifica o texto.

 

“Identificar o ministério a conferir às mulheres”

As mulheres “pedem para recuperar o espaço” que lhes foi dado por Jesus” e devem ter “garantida a sua liderança”, diz o texto. Foto © António Marujo

 

No documento há, entretanto, várias outras sugestões que apontam para mais mudanças de paradigma no catolicismo. Logo no ponto seguinte, sugere-se (seguindo a versão italiana) “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tomando em conta o papel central que hoje desempenham na Igreja amazónica” (na versão espanhola, há um erro de concordância; além disso, registe-se que, estando cerca de 60 por cento da floresta da Amazónia situada em território brasileiro, o documento ainda não tem versão oficial em português disponível).

Neste ponto, a questão pode ter a ver com a ordenação de mulheres diáconos, cujo lugar na história da Igreja foi objectvo do trabalho de uma comissão de especialistas. Mas o Papa Francisco considerou que o relatório do grupo era inconclusivo.

O Instrumento de Trabalho aponta muito mais, no âmbito da participação dos fiéis católicos em lugares de responsabilidade comunitária: a promoção de vocações “autóctones de homens e mulheres” cuja contribuição decisiva deve ser o “impulso para uma autêntica evangelização a partir da perspectiva indígena, segundo os seus usos e costumes”; os crentes devem ter “protagonismo” e “espaço para que sejam sujeitos da Igreja em saída”, também com a abertura de processos sinodais “com a participação de todos” os fiéis; e devem ser criados itinerários formativos à luz do pensamento social católicos, “com enfoque amazónico”, em especial nos âmbitos da cidadania e política”.

 

“Conversão eclesial” na Amazónia

O documento, que foi apresentado nesta segunda-feira em Roma, não deixa dúvidas sobre os objectivos, logo a partir do título: “Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Divide-se em três partes e 21 capítulos, além da introdução e conclusão. “A voz da Amazónia” é a primeira e nela se fala da Amazónia como “fonte de vida” que, no entanto, se encontra ameaçada e cuja exploração é preciso “enfrentar”; fala-se também de um território onde tudo está ligado, do tempo de inculturação e de grandes desafios que se vive e dos caminhos de diálogo que são necessários.

A segunda parte aborda a “Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres”. Destruição extractivista, o isolamento voluntário dos povos indígenas, as ameaças que pesam sobre eles e as suas vulnerabilidades, as migrações das populações para os grandes centros, os desafios das culturas urbanas, a corrupção como “flagelo moral estrutural”, a saúde (incluindo a valorização das medicinas tradicionais) e a educação integral são os aspectos tratados.

Esta parte termina com um ponto dedicado à necessária “conversão eclesial” na Amazónia, apontando caminhos que a Igreja deve trilhar neste âmbito: desmascarar as novas formas de colonialismo; ser crítica das ideologias que fomentam o ecocídio amazónico; promover mercados eco-solidários e uma sobriedade que respeite a natureza e os direitos dos trabalhadores; e reconhecer formalmente um ministério especial na comunidade católica de promotor do cuidado da Casa Comum.

A terceira parte é dedicada especificamente à estrutura, organização e dinâmica eclesial: privilegiar uma Igreja com “rosto amazónico e missionário”, que esteja numa atitude de escuta e despojamento, através da inculturação (incluindo na liturgia), com atenção à evangelização nas cidades, ao diálogo ecuménico e inter-religioso e aos meios de comunicação.

 

“Indígenas que preguem a indígenas”

Crianças indígenas na região amazónica de Manaus: o documento sugere que deve ser apoiada a inserção dos religiosos junto dos mais pobres e excluídos, dando prioridade às necessidades dos povos locais. Foto © António Marujo

 

No que se refere à abertura do ministério presbiteral (de padre) a homens casados, o texto reafirma que “o celibato é um dom para a Igreja”, mas que a hipótese deve ser estudada para zonas mais remotas da região amazónica. Homens e mulheres com lugares de liderança nas comunidades devem ser “indígenas que preguem a indígenas a partir de um profundo conhecimento da sua cultura e da sua língua, capazes de comunicar a mensagem do evangelho com a força e eficácia de quem tem a sua bagagem cultural”. E acrescenta: “Há que partir de uma ‘Igreja que visita’ para uma ‘Igreja que permanece’, acompanha e está presente através de ministros que surgem dos seus próprios habitantes.”

Acerca do papel das mulheres, o texto destaca que nem sempre ele é valorizado nas comunidades católicas. “Elas pedem para recuperar o espaço dado por Jesus às mulheres” e devem ter “garantida a sua liderança”, assim como “espaços cada vez mais amplos e relevantes, na área formativa”. Deve ainda escutar-se a voz das mulheres e dar-lhes possibilidade de ser consultadas.

Sobre o papel dos religiosos e religiosas, o documento sugere ainda que deve ser apoiada a sua “inserção junto dos mais pobres e excluídos e a incidência política para transformar a realidade”. Ao mesmo tempo, as necessidades dos povos locais devem ser prioritárias para as congregações religiosas.

A assembleia especial amazónica do Sínodo dos Bispos – órgão consultivo do Papa, que reúne membros dos episcopados do mundo inteiro ou de determinada região do mundo, como neste caso – reunirá não só bispos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname, como também “homens e mulheres pertencentes aos povos amazónicos”, que possam “transmitir os seus desejos e anseios mais profundos”.

No final da assembleia sinodal, os participantes votarão um documento com propostas a entregar ao Papa que, por sua vez, redigirá a partir desse texto uma exortação apostólica, com indicações precisas sobre os caminhos a percorrer.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Centro cultural Brotéria já abriu no Bairro Alto, em Lisboa novidade

O novo centro cultural da Brotéria, revista dos jesuítas fundada em 1902 no Colégio São Fiel (Castelo Branco), abriu esta quinta-feira, em Lisboa, junto à Igreja de São Roque (Bairro Alto), mas o programa que assinala o facto prolonga-se nestes dois dias do fim-de-semana.

Vaticano ordena investigação a bispo por acusações de abuso sexual

O Vaticano ordenou uma investigação de alegações de abusos sexuais contra o bispo Brooklyn, Nicholas DiMarzio, que antes tinha sido nomeado pelo Papa Francisco para investigar a resposta da Igreja ao escândalo dos abusos sexuais cometidos por membros do clero na diocese de Buffalo.

Semana pela unidade dos cristãos com várias iniciativas

Várias iniciativas assinalam em Portugal a Semana de Oração pela Unidade os Cristãos, que se prolonga até ao próximo sábado, 25. Entre elas, uma oração ecuménica na igreja de Santo António dos Olivais decorre em Coimbra na sexta, 24, às 21h, com responsáveis de diferentes igrejas e comunidades.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Arte e Esperança novidade

Tenho tido a sorte de acompanhar, desde 2016, a apresentação dos Projetos Partis (Práticas Artísticas para a Inclusão Social) na Gulbenkian e em todos respiramos com emoção a frescura da criação artística onde os protagonistas são pessoas normalmente esquecidas por nós.

Cultura e artes

Cinema: À Porta da Eternidade

O realizador Julian Schnabel alterou, com este filme, alguns mitos acerca de Vincent van Gogh, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos. Os cenários, a fotografia e a iluminação do filme produzem uma aproximação visual às telas do pintor, no período em que van Gogh parte para Arles, no sul de França, em busca da luz, seguindo todo o seu percurso até à morte, aos 37 anos de idade.

Que faz um homem com a sua consciência?

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Jan
31
Sex
III Congresso Lusófono de Ciência das Religiões – Religião, Ecologia e Natureza (até 5 de Fevº) @ Universidade Lusófona, Templo Hindu, Mesquita Central e Centro Ismaili
Jan 31@09:30_14:00

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco