Sínodo, urgência de Participar – sugestões várias

| 27 Set 21

 

1 – Inquérito Sínodo

Olhar o outro. Ver o outro. Entender o outro. Escutar. Ajudar. Apoiar. Integrar. Proteger.

Não têm fim as palavras aplicáveis ao sentido do Documento Preparatório e ao Vademecum, nesta fase preliminar do Sínodo [da Igreja Católica] que irá marcar um tempo novo, viragem de reflexão e cidadania sobre a Igreja, a diversidade de culturas e realidades na atualidade do mundo. Entre 10 de outubro de 2021, com a presença e presidência do Papa Francisco e até outubro de 2023, um universo de gente participará nesta viragem, revisão de vida.

Sem ritual, sem gesto formal, sem ordenada súplica e oração, todos e todas, crentes e não crentes, somos chamados a participar, perguntar, debater, sugerir. A responder, a falar. Para os cristãos, as palavras de voz interior, de presença de Deus o Nosso Senhor em nós, são fortes na voz do Papa Francisco, nos seus apelos à misericórdia, à atenção, aos olhos abertos, à intervenção, às transformações urgentes e desejadas.

Somos chamados a interpretar os grandes temas do Sínodo: “Para uma Igreja Sinodal: Comunhão. Participação. Missão.” A nossa fala integra temperos de desabafo, questionamento, reflexão. Alinham-se mais palavras-chave, no desafio. Obstáculos. Exigências. Expectativas.

Porque entendemos o Sínodo como tema eclesial, clerical, e não falamos sobre as outras tantas questões humanas que nos afligem, perturbam, agitam, no desassossego da suposta normalidade da realidade em que vivemos? Como agir, intervir, contribuir?

Como disse Frei Bento Domingues na apresentação do seu livro A Religião dos Portugueses, eu vejo a atualidade de Deus no acontecer a vida. E assim, reparo em seguida.

Que a palavra Feminicídio toma conta da página do Público, em 21 de setembro: 35 mulheres assassinadas em 2020, 3 por mês, 27 em contexto de violência doméstica. No primeiro semestre deste ano, foram 14 as vítimas. Variadas razões, contextos, intimidades. Os dados são do Observatório das Mulheres Assassinadas.

Que ao lado, com destaque na mesma página do jornal, vem a notícia sobre a reserva de sangue, atualmente abaixo dos níveis habituais. Nos hospitais portugueses cerca de mil unidades de sangue e componentes sanguíneas são usadas todos os dias. Segundo o Instituto Português do Sangue e da Transplantação, uma única dádiva de sangue pode ajudar a salvar três vidas. O dador, de idade entre 18 e 65 anos, deve ter peso igual ou superior a 50 kg e levar vida saudável. Os mais afetados A negativo, O negativo, O positivo.

Que arte de fraternidade, que sabedoria de bom-senso podemos experimentar, sugerir, exprimir, no dia a dia em que tantas vezes caminhamos de olhos fechados, assobiando para o lado, como se nada tivesse a ver connosco?

Como proceder? Denunciando cenas de violência? Doando sangue? Ou?…

 

2 – Uma pequena pérola de memória, fragmento desta crónica da escritora brasileira Rachel de Queiroz, publicada no Jornal do Brasil em 16 de outubro de 1974. Sobre o Sínodo, em pontificado de Paulo VI:

“Vendo o noticiário acerca dos trabalhos do Sínodo de Bispos que ora se reúne em Roma, não venho podendo me furtar a uma impressão de que algo ali anda mal colocado, ou mal tratado. Os senhores bispos tratam o drama da Igreja no mundo moderno como se fosse uma questão de problemática a resolver com os recursos de um banco de dados e de alguns computadores bem calibrados. O chamado de Deus não é uma operação de bolsa de valores e não pode ser tratado como tal. Não será através de estudos e análises de marketing, nem com promoções publicitárias de lançamento de uma nova marca de champanha. Quando Ele quer realmente fazer-se ouvir, manda para a praça pública os seus santos. Não manda elegantes locutores de TV educativa – manda Francisco de Assis.”

 

3 – Rachel de Queiroz sentia o dever de “ser testemunha do seu tempo e de sua gente.” Miguel Sousa Tavares pensa “a missão de um jornalista: ser testemunha do seu tempo, contar aos outros o que eles não sabem ou não puderam ver com os seus olhos” (Expresso, 17 setembro 2021). Assim, tomo este dever de testemunhar com algum desconforto a cerimónia a que assisti, em recente celebração na Igreja dos Mártires, em Lisboa. A igreja cheia, missa de sábado à tarde, prevista Eucaristia por uma família em ação de graças. Uma parte dos lugares de repente ocupados por “Cavaleiros” da formal Ordem Constantiniana, trajados de amplas capas, bordados, adereços, apenas três senhoras em maioria masculina, e uma cerimónia de investidura depois da homilia. Homilia mais de quarenta minutos quase inteiramente dedicada à narrativa sobre a Ordem. O celebrante falou sem uma palavra de amor, compaixão, emoção. Um debitar de factos, inentendível. E uns poucos minutos de comentário sobre os textos. Uma visão distante do amor de Deus na palavra do Evangelho. No fim, à saída, impaciência geral, em críticas e desabafos.

Respeitando a diversidade, a vivência espiritual, a liberdade de expressão, não posso deixar de partilhar o meu sentimento de que estes são os modos mais eficazes de convite à debandada da Igreja, ao vazio que não desejo.

 

 Leonor Xavier é escritora e jornalista.

 

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