Contributo português

Síntese nacional do Sínodo católico: uma mão cheia de pistas e alguns vazios

| 2 Mai 2024

O Papa Francisco e participantes da assembleia do Sínodo sobre a sinodalidade, em outubro 2023: em Portugal, ainda é urgente uma conversão à ideia da sinodalidade, diz a síntese nacional. Foto © António Marujo/7MARGENS

É urgente uma conversão à sinodalidade por parte de padres e leigos que continuam reticentes relativamente a este processo de mudança lançado pelo Papa Francisco, reconhece a síntese da segunda fase de auscultação das dioceses portuguesas da Igreja Católica, conhecida esta quinta-feira, 2 de maio.

O documento, de oito páginas densas, foi elaborado por uma comissão de redação criada pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), como contributo para a segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade que vai decorrer em Roma no próximo mês de outubro. Resulta da análise de sínteses que terão sido feitas nas dioceses (desconhece-se o grau de participação e o texto não o refere).

A desconfiança de alguns membros do clero e de leigos deve-se a diferentes razões. Uns consideram o processo sinodal “interessante, mas pouco efetivo do ponto de vista das mudanças, até de prática pastoral, inviabilizando este caminho conjunto”, nota a comissão de redação. Por outro lado, também há quem diga que a abertura e acolhimento de “diferentes sensibilidades” podem apontar para uma reforma que “colide com a fidelidade à grande tradição da Igreja”.

Destacando que a adoção deste caminho sinodal supõe “uma contínua conversão individual e comunitária”, o documento-síntese nacional enfatiza que “todos são chamados a tomar parte nesta viagem e ninguém pode ser excluído”. “Uma Igreja sinodal”, acrescenta, “constrói-se na diversidade, através de uma escuta ativa e empática, sem posturas de superioridade intelectual, moral ou eclesial, em atitude de discernimento, diálogo e comunhão fraterna, em que cada um é convidado a ‘calçar os sapatos do outro’”.

O texto reconhece que o processo envolve “transformações estruturais e teóricas”, mas deve ser vivido “como uma experiência concreta de fé nas comunidades, onde o mandamento do amor se manifesta em ações práticas e tangíveis”, e em que “o compromisso de acolhimento e de escuta deve traduzir-se em ações concretas que se dirijam a ‘todos, todos, todos’, sem exceção”. “Importa não conceptualizar ou complexificar em excesso a ideia e os processos da sinodalidade”, alerta o documento.

 

Novos horizontes para os ministérios

Pobreza, sem-abrigo, mesa, comida, partilha

Mesa com comida para pessoas sem-abrigo em Lisboa: o serviço da caridade deveria ter mais ministérios, sugere o documento. Foto © Miguel Veiga

Sobre os ministérios, defende-se o seu desenvolvimento “com maior criatividade” (e não apenas para substituir tarefas do clero), “envolvendo a comunidade no indispensável discernimento” e “tendo por base as necessidades das Igrejas locais”. Por outro lado, eles não devem orientar-se apenas para a vida interna da Igreja, mas abrir-se a áreas da vida social, como a saúde mental, cuidado de doentes crónicos e seus cuidadores, pessoas desempregadas, refugiados, imigrantes, entre outros.

Nessa linha, o documento propõe que a Igreja não se fique pela instituição de ministérios como o de leitor, catequista ou acólito, mas crie outros voltados para a pastoral familiar, para a ação caritativa ou para a escuta e acompanhamento de pessoas nas situações de mais necessidade.

Ainda como forma de participação na vida e missão da Igreja, a síntese defende a instalação e dinamização urgente e efetiva dos diversos conselhos e órgãos colegiais, tanto a nível paroquial como diocesano, assegurando a sua representatividade e que as suas deliberações tenham um caráter “mais vinculativo”. É também considerado necessário que as lideranças desses órgãos sejam regularmente renovadas, que o seu funcionamento seja transparente e que pratiquem “uma cultura de prestação de contas”.

Neste âmbito, os jovens são credores de uma atenção especial, mediante missões concretas que podem ser-lhes confiadas, não apenas quanto às questões que lhes dizem especificamente respeito, mas à vida eclesial no seu conjunto. E deve também valorizar-se o diálogo intergeracional e o protagonismo que podem assumir na vida das comunidades, dando continuidade ao testemunho que deram na recente Jornada Mundial da Juventude.

 

Mulheres na Igreja: avançar em todas as frentes menos uma

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade, em outubro 2023: a síntese deixa de lado a questão dos ministérios. Foto © António Marujo/7MARGENS

Relativamente ao papel das mulheres na vida eclesial, uma problemática que tem estado no topo das preocupações do processo sinodal, a síntese da Igreja Católica em Portugal assume uma posição clara quanto à importância da sua participação nos processos de decisão: devem poder assumir “papéis de liderança, especificamente nos conselhos pastorais e económicos”, sendo mesmo desejável “procurar a meta da paridade”. O seu “contributo crucial” não se joga “apenas na pastoral e nos ministérios, mas também na missão da Igreja junto das comunidades”.

Já quanto a matérias mais polémicas como o diaconado feminino ou mesmo o presbiterado, o assunto é remetido, de forma meramente alusiva, para o ponto das matérias “fraturantes” que carecem de maior aprofundamento doutrinal e pastoral. A justificação é a que o Papa costuma dar, ancorada nos princípios petrino e mariano: “homens e mulheres são complementares e não precisam de ser iguais na sua participação na vida eclesial e ministerial”.

De entre outros aspetos abordados no documento-síntese, destacam-se os seguintes:

  • Valorização do ministério do diácono permanente, que não deve existir para substituir o presbítero, mas orientar-se para o âmbito da caridade/diaconia, que “continua a ser o parente pobre”’ na vida e estruturação das comunidades.
  • Aposta no conhecimento e o estudo aprofundado da Doutrina Social da Igreja, crucial para a credibilidade do testemunho das instituições eclesiais e dos agentes envolvidos na pastoral social.
  • Necessidade de formação de todos os membros da Igreja, requisito do “caminhar juntos” sinodal, desde logo a formação espiritual.
  • Incluir a pedagogia sinodal nos planos formativos de leigos e do clero, de modo a evitar uma comunidade clericalizada.
  • Celebração “mais cuidada, organizada e participada” da eucaristia (possibilidade de criação de equipas de liturgia nas paróquias; leigos a assumir mais funções, nomeadamente na preparação da homilia; alargar os ministérios de acólito e leitor; valorizar o acolhimento dos participantes, fomentar o convívio no seguimento da celebração, valorizar a celebração da Palavra, mobilizar as crianças e envolver os jovens na celebração litúrgica).
  • Fortalecimento das estruturas familiares por meio de grupos de apoio e redes de partilha que possam tornar-se pequenas comunidades, onde as experiências e desafios da vida em família possam ser discutidos abertamente.
  • “Saber auscultar as vozes dos que, de alguma forma, se sentem excluídos – tais como as famílias reconstruídas, as pessoas separadas, as pessoas com atração pelo mesmo sexo – com o objetivo de integrar na vida da Igreja o seu contributo”.

A realidade das pessoas LGBTQ não é referida explicitamente na síntese. Foto © Sharon Mccutcheon | Unsplash

O documento não aborda tudo o que seria necessário, naturalmente. Não aborda de forma explícita as problemáticas relacionadas com as pessoas e comunidades LGBTQ+ ou a relevância, nos tempos que correm, de aprender a ler os sinais dos tempos. Mas também é verdade que se desconhecem os materiais das dioceses na base dos quais esta síntese foi redigida. De resto, encontram-se poucos sinais desses contributos diocesanos e de outras instituições, o que poderia ser relevante para se avaliar as caraterísticas dessa participação.

O relatório foi elaborado pela Equipa Sinodal criada pela CEP, constituída por José Eduardo Borges de Pinho, professor jubilado da Universidade Católica Portuguesa; Pedro Vaz Patto, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz; Eduardo Duque, padre  e professor da Universidade Católica Portuguesa; Carmo Rodeia, diretora do Serviço Diocesano para as Comunicações Sociais da Diocese de Angra; Anabela Sousa, diretora do Gabinete de Comunicação da Conferência Episcopal Portuguesa; e Manuel Barbosa, padre e secretário da CEP.

 

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