Sinto falta – Um muçulmano à beira do fim de Ramadão

| 21 Mai 20

Mesquita de Lisboa

A Mesquita Central de Lisboa, quase vazia. Foto © Khalid Jamal

 

Todos nós sentimos falta de algo. Quem nunca vivenciou o sentimento saudoso de repentinamente a sua mente ver-se transportada para aquela memória imaterial e turva da nossa infância para a qual olhamos com tanto carinho? Neste tempo de isolamento social por causa da pandemia de covid-19, para o qual fomos arrastados sem opção de escolha, sinto falta de tanta coisa…

Sinto falta dos meus amigos
Sempre ouvimos dizer que os amigos são a família que escolhemos e que nunca nos falharão; basta ter poucos, mas bons. Os amigos são sagrados, são aqueles que nos não dão palmadinhas “amigáveis” nas costas; ao invés disso, dizem-nos as verdades mais amargas precisamente por saberem que ainda que demoremos a reconhecer, precisávamos do tal abanão. “O ser humano é influenciado pela fé dos seus amigos”, por isso sejam cautelosos nessa escolha, ensina-nos a doutrina islâmica.

Sinto falta das minhas idas à praia
A praia é o divertimento mais incrível que existe. Não cobra entrada e é simultaneamente tão redutor pela simplicidade abrupta a que convoca e tão magnânime pelo infinito do céu azul que se funde no mesmo azul do mar. O mar é revigorante e, como crente, mais uma das dádivas de Deus na Terra.

Depois de um mergulho, sinto falta de fazer uma oração na areia, perante alguns olhares curiosos, o que só num país como Portugal, em que se vive um clima de plena e temperada liberdade religiosa, é possível.

Sinto falta de ir comprar pão quentinho à padaria
O pão, como elemento essencial à alimentação humana, não é apenas sagrado no cristianismo. Um presente de Deus, é uma fonte de nutrição e de bênçãos. Ao ponto de o respeito por ele implicar que este não deva ser cortado com uma faca de forma grosseira e jamais deixado no chão, pois tal conduziria à ruína da pessoa. Estragar comida é um enorme pecado no islão, tal como a abastança, e o profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) deixou este mundo sem nunca se encher de pão de cevada (Ṣaḥīḥ al-Bukhārī 5098).

Que saudades de fazer a oração da manhã e ser dos primeiros a chegar à padaria para sentir o aroma a pão acabadinho de sair do forno.

Sinto falta de não dar valor à natureza.
É próprio da natureza humana nunca se estar plenamente satisfeito com nada. Quem diria que um dia sentiria saudades de ter a possibilidade de passar num qualquer jardim urbano, um reduto portentoso das maravilhas de Deus na terra, não lhe reconhecendo o valor merecido? Pois bem, as religiões convidam não só à espiritualidade, mas também ao respeito pelo ambiente.

Sinto falta de um abraço banal
Palavras para quê? No fim disto tudo, o abraço deixará de ser banal. Vai ganhar a intensidade que merece, vai tornar rostos cansados em sorrisos rasgados e vai substituir palavras de amor em gestos apertados.

Sinto falta de me perder nas horas
Numa qualquer conversa de café ou por telefone. Numa leitura do Alcorão ou no terço. Naquele e-mail que se envia escassos minutos antes de partir para uma nova reunião. Simplesmente a ver montras e a deambular pela baixa de uma qualquer cidade ou a ler as revistas antigas que se encontram num qualquer consultório.

Sinto falta de de não ver notícias
A ignorância é por vezes, uma bênção. Como combater esta sensação de insegurança e de ansiedade por um dia de liberdade que não vem, sem buscar Deus, o arauto da boa nova e da esperança para estes tempos difíceis?

Sinto falta de um dia-a-dia normal
Das rotinas das 9 às 17 de que sou particular opositor. De chegar a casa depois de um dia de trabalho extenuante a horas normais, que só é compensado com um jantar normal em família.

Sinto falta do meu avô
Se ele cá estivesse teria certamente resposta para isto. Como tinha para tudo. Como não me sentir só perante a ausência daquele que tinha sempre uma palavra de conforto para dar, mesmo diante da maior tragédia? Sempre que a vida lhe pregava uma partida, ele ia buscar novas forças e resistia-lhe.

Outrora avesso às novas tecnologias, dei por mim a receber chamadas via Skype de alguém que nascera nos princípios do século XX e que assistiu à primeira e segunda grandes guerras. O meu avô era certamente a pessoa mais culta que alguma vez conheci. A amplitude do seu conhecimento e hábitos sempre me deixou banzado. Como cumular numa mesma pessoa tamanha elasticidade? Via telenovelas e ouvia música clássica. Falava de religião e ciência, de viagens e gastronomia passando pela história da arte e por um novo livro que acabara de ler.

Sem dúvida, a minha referência em termos de elegância no trato, de educação e de uma bondade sem precedentes. Um sedutor nato, na verdadeira acepção da palavra. Com ele aprendi muita coisa, a ouvir música clássica e a fumar cachimbo, a petiscar a altas horas da noite, mas também a ser gente e a amar sem nada esperar em troca.

O Naná Sacoor, como era carinhosamente apelidado por todos, carregava um aroma próprio fruto do blend de tabaco exótico e raro Black Captain que fumava e gestos de amor como pagar a conta de uma vizinha na frutaria local sem que esta se apercebesse. E acima de tudo, era um homem normal.

Mesmo falhando com Deus, era capaz de interromper a sua oração com aquele sorriso arisca que todos conhecem para atender o telefone, sabendo que iria arrancar sorrisos dos seus netinhos sem mais. E essa sensibilidade e esperança inesgotáveis acompanhadas de uma conduta intocável fazem-me ter a certeza que já não se fazem mais homens destes. Morreu pobre, mas com uma riqueza imensa e irei recordá-lo sempre com um sorriso entre orelhas.

Sinto falta da minha família
Do meu pai que não pode regressar de Luanda. Dos convívios de família. Das tardes intermináveis de domingo à volta de um queijo exótico ou picante que alguém trouxe dos Açores ou das noitadas de jogos de tabuleiro que acabam sempre em discussão, antes de tomarmos um bom pequeno-almoço. Sim, porque o Eid [festa que assinala o fim do mês de Ramadão e que será celebrada esta sexta ou sábado, 22 ou 23 de Maio] é a festa da família sendo que é proibido estar triste nesse dia e o ritual mais não é do que uma oração matutina, seguida do momento nobre do dia: o tradicional almoço em família.

Este Eid será diferente, diria mesmo inaugural nesta era – resta-nos apenas a certeza e a fé, própria dos crentes, de que melhores dias virão.

Sinto falta da minha mesquita
Diz o sábio povo que somos animais de hábitos. Só alguém cuja obrigação inicial de ir à mesquita se converte a posteriori num prazer inesgotável conhece a sensação cáustica e a dor sem fim desta privação. Importa referir que o Ramadão de quarentena obriga a uma transformação radical dos nossos hábitos pois, se esta nada implica com o jejum obrigatório, já no que toca aos restantes rituais, ela destrói-os, designadamente as idas à mesquita.

É certo que Deus está entre nós e não somente numa qualquer mesquita, podendo cada um de nós procurá-lo nas nossas casas. No entanto é impossível ignorar que há certos locais que convidam à espiritualidade, contendo essa visita o amplo e não menos importante e pedagógico fenómeno da socialização, tão característico desta época. É preciso pois não esquecer que o Ramadão também se projecta através dos múltiplos laços que a fraternidade da partilha do iftar (quebra do jejum) convoca, numa afirmação pública de religiosidade, que por ora esbarra no dever de confinamento, sugestionando um individualismo e um recolhimento, incompatíveis com a função agregadora das orações em conjunto.

Mesquita de Lisboa

Mesquita Central de Lisboa. Foto © Khalid Jamal

 

Já sinto falta do meu Ramadão
Agora que se aproxima o Eid-Ul-Fitr, festa que celebra o fim do Ramadão e da nossa “quarentena” como era por muitos apelidada – antes de experimentarem na pele os efeitos de uma verdadeira e real quarentena, a primeira da história com estes contornos – confesso que sou invadido por um duplo sentimento, um misto de alívio e de esperança atenuado por uma saudade interminável… pois o tempo não volta para trás e esta “quarentena”, incluída dentro de uma outra, com diferença daquela não ser tão repleta de bênçãos, já não volta mais.

Que Deus, O Sapientíssimo nos permita não sentir falta ou magicamente cobrir (como uma mãe a um filho) a falta que as coisas nos fazem.

 

Khalid Sacoor D. Jamal é membro do Observatório do Mundo Islâmico e dirigente da Comunidade Islâmica de Lisboa; integra o painel do programa E Deus Criou o Mundo, da Antena 1.

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