
“A Skady salvou-me a vida e salvou-me a memória. Trocou-me o trauma pela nostalgia, ensinou-me a poética das boas escolhas entre realidades paralelas. Coisas que se aprendem com os cães.” Foto: Skady © Ana Sofia Brito
Sonhei que a minha cadela – a Skady; Deusa da caça, das tempestades e das montanhas – era a Nossa Senhora de Fátima. Tinha o focinho ligeiramente mais longo e fino, sobre o qual pendia um extenso manto de cetim azulado. Olhava-me com amor. Reconhece-se o amor pelo brilho que os olhos emanam. Serenidade define inteiramente aquela postura.
O manto pendido, os olhinhos radiantes quase cobertos, o focinho grisalho de tanto saber e sentir, a magreza e a telepatia. Sim, a telepatia. Eu chorava por telepatia – o peito apertado, a garganta sufocada, o estômago esmagado como que por baixo de uma derrocada.
De cima do altar, falou-me por palavras de gente, num timbre que era o meu: “Não te preocupes, eu não sou um Humano, lido com a dor sem prioridade. Estou bem.”; e sorriu com a alma, porque os cães não sorriem com o focinho; é-lhes inútil a máscara, desprezam-na.
Então transbordaram-me lágrimas que escusei enxugar.
Os cães podem tornar-se a vida de alguém e ela foi a minha, tanto que às vezes me confundia achando que aquela pele de lobo abrigava uma pessoa.
Vivemos juntas 16 anos. Fui o seu primeiro colo, a primeira luz.
O Freud tinha morrido e eu precisava de um novo amor para curar a dor de o ter perdido – sei que é uma teoria controversa, mas comigo resulta.
O Pulgas era o sem-abrigo mais famoso da cidade, arrumava carros e tinha uma fiel matilha. Fui ter com ele:
– Como é que é Pulgas, está-se bem?
– Olha lá, morreu o meu Freud, quero outro cão, não tens praí nenhuma cadela prestes a parir??
– Estás com sorte, pá… aí há dias a Castanha pariu uma ninhada lá no buraco, ontem espreitei e pareciam ser uns cinco ou seis. Dá-me 5€, déb… e um maço de tabaco; e vou-te lá buscar um canito, ficas com ele. Anda já, anda lá comigo escolher.
Entrámos na “casa”. Era um casarão centenário devoluto cujo tempo havia arruinado. Não havia parede que não tivesse buraco, telha que não tivesse goteira. Perguntei:
– Pulgas, ouve lá, como é que consegues viver assim?
Respondeu-me convictamente, como se lhe tivesse perguntado outra coisa qualquer, era seu hábito; talvez defesa:
– Há 7 anos que não tomo banho, habituei-me. E vou chegar a velho, vais ver. Não me injeto, só fumo; é o meu segredo para a longevidade.
Fomos ao quintal onde havia um buraco na terra que parecia ter sido feito por uma toupeira, ou algo do género. O Pulgas não cabia na cova, então deitou-se à superfície, esticou o braço por ela adentro o mais que pôde e trouxe a primeira cria que apanhou pelo cachaço. Meteu-a diretamente no meu colo – como fazem as enfermeiras às mães, nas salas de parto, quando os bebés nascem.
– Olha, é uma fêmea, há problema? – Perguntou-me enquanto sacudia com indiferença a imensidão de pulgas da manga encardida.
– Não, não me importo. Os filhos não se escolhem, é Deus que os traz conforme a sua vontade.
– Olha lá … – ia dizendo enquanto a olhava com mais atenção – parece uma Rottweiler, preta e castanhinha. Gordinha, pá, belo bicho que levas aí. Isso já é cão para uns dez dias.
Dali fui diretamente ao veterinário e tomei todas as diligências para salvaguardar a vida e a dignidade do animal.
Por esses dias eu havia descoberto que estava doente – gravemente, assuma-se – tinha 19 anos. Foi uma dessas coisas chatas que a vida nos serve em pratos quentes sem avisar. Uma dessas coisas chatas que não devia acontecer a ninguém, muito menos aos 19 anos. Há mais do que fazer nessa idade para nos preocuparmos com a finitude.
A Skady crescia, com o tempo a velocidade controlada, quase lenta, como sempre na juventude. Eu amava-a e, talvez por isso, nenhum diagnóstico me tenha desesperado.
Hoje, vinte e um anos volvidos e problema arrumado, não me lembro sequer desses dias de hospital, mas lembro-me perfeitamente de chegar a casa e ser lambuzada pela bolinha de pêlo mais fofa de todos os universos.
Lembro-me de a ensinar a sentar, ela tinha três meses. Aprendia com um talento impressionante. Foi então que começámos nesse jogo de telepatia. Eu dava-lhe os comandos por pensamento e ela obedecia. A ciência há-de ter uma explicação qualquer para isto, ou a psicologia canina, mas eu gosto de imaginar que era telepatia.
A Skady salvou-me a vida e salvou-me a memória. Trocou-me o trauma pela nostalgia, ensinou-me a poética das boas escolhas entre realidades paralelas. Coisas que se aprendem com os cães.
A vida andou, como anda sempre, e nunca mais nos largámos. Fui mãe pouco tempo depois; mais uma vez, e por reflexo dessa coisa chata anteriormente mencionada, adivinhavam-se tempos difíceis. Gravidez de alto risco. Cinco meses a só poder sair de casa para dar a volta ao bairro, e os quatro meses finais sem mesmo sair de casa.
Foram dias maravilhosos, mais uma vez na indiferença dos diagnósticos, não havia medo. A Skady estava comigo.
De novo a telepatia: abria-lhe a porta e deixava-a sair sozinha, meia hora depois regressava. Nesse entretanto o telefone tocava. Ou era a minha avó a dizer que a Skady já lá tinha passado para comer a sua fatia de fiambre e havia de estar quase de regresso a casa; ou era a minha amiga Emanuela a dizer que a Skady já tinha passado na loja para a cumprimentar e havia de estar a subir; ou era a Gordana, a dizer que ela já lá tinha ido beber no pote da água que ficava ao lado da banca.
Por esses dias de confinamento, consequentes da gravidez atípica, eu lia a tempo inteiro. A vida era preguiça, silêncio e imaginação intercalados com bocejos de cão. Ouvia-a chegar, depois da sua volta de liberdade, arranhava a porta na urgência de voltar para mim. Entrava e refastelava-se aos meus pés.
Fui para o hospital grávida e voltei mãe. A Skady já o era, pareceu-me. Devia ver para além da minha barriga pois não houve surpresa quando cheguei com a bebé ao colo. Cheirou-a, quis lambê-la mas conteve-se – imagino que por força da telepatia. Passou a dormir aos pés do berço. Deixou de querer dar as suas voltas de liberdade.
Podia escrever tantas histórias da Skady mas seria desapropriado para uma crónica, que se quer curta. Talvez um dia escreva um livro inteirinho das aventuras da Deusa dos Invernos – A Biografia.
Passaram 16 anos desde que a Skady nasceu até ao sonho no qual se tornou a Nossa Senhora do Manto de Cetim Azul. Nunca nos separámos. De casa em casa, de vida em vida, de fase em fase.
A Skady ultrapassou a idade prevista para um cão do seu porte, deixou de mover as patas traseiras, perdeu a visão e escasseou-lhe a audição. Eu não aguentava a angústia de a olhar sem saber o que fazer para a ajudar. Deixou de ser a caçadora de galinhas, trepadora de montes, rochas e falésias, e nadadora de mares revoltos, para se tornar a vulnerabilidade sem vitimização que só eu não sabia aceitar. Fosse eu um cão e viveria bem melhor.
O meu sonho não foi um sonho – em culpa própria me confesso – foi uma alucinação proveniente da toma de Ayahuasca. A medicina indígena que deturpa, ou aperfeiçoa – depende da opinião na qual queiramos acreditar, científica ou espiritual – os sentidos.
Era noite de inverno, eu estava numa tenda aquecida por fogueiras. A Skady era a Nossa Senhora e ensinou-me que a dor é outra coisa qualquer, bem diferente da definição do conceito que eu conhecia.
Paralisei por oito horas e o corpo indomável fez-me acreditar que morreria ali, aos pés da Skady, sob a benção do altar.
Antes de morrer lembrei-me que ela me ensinara a desprezar o sofrimento, era eu que não tinha o seu talento de aprendizagem. Os amores de outras espécies são mais eficazes, deixo a explicação para os filósofos.
Não morri por inteiro, afinal. Fui ressuscitando à medida que o céu clareava por cima da tenda, era domingo de manhã, ao longe ouvi os tiros dos caçadores e pensei nas mortes que aconteciam àquela hora nos campos em volta: “Está tudo bem, a Skady está serenamente em lugar merecido.” Lembrei-me do psicanalista a dizer que a morte é irmã da vida e senti o abraço da tranquilidade.
Os cães são Deuses, a Divindade é isto.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros Em Breve, Meu Amor e O Homem do Trator.







