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vacina covid 19 foto pexels

SNS ou Gesundheitsamt?

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“O sistema alemão é semiprivado, existe um seguro público altamente regulado (ainda bem), que paga o médico de família que eu escolher.” Foto © Pexels

 

Muito se tem falado sobre vacinas, obrigatoriedade ou não. Como portuguesa a viver na Alemanha tento observar e perceber os processos que levam a que Portugal tenha 87% da população com duas doses da vacina contra a covid e a Alemanha tenha 69%.

E a minha resposta é: SNS.

É na logística, na organização, no sistema público e universal e na adesão a esse sistema, apesar de subfinanciado e paternalista, que Portugal ganha em taxa de vacinação em relação ao grande paradigma do desenvolvimento que é a Alemanha.

Eu odeio ir ao médico, evito aqui como evitava em Portugal, mas sempre que em Portugal ia à minha Unidade de Saúde Familiar havia um trabalho de acompanhamento que cria confiança. Mediam-me a tensão arterial, pesavam-me, a médica perguntava-me como eram os meus consumos de álcool, se ainda era fumadora, nem sempre pedia análises, mas sabia os meus comportamentos que podiam contribuir para um melhor ou pior estado de saúde. Conhecia-me.

O sistema alemão é semiprivado, existe um seguro público altamente regulado (ainda bem), que paga o médico de família que eu escolher. O paraíso do capitalismo: o Estado paga, os médicos recebem e eu tenho liberdade de escolha. Ou não, porque se o Estado paga e os médicos recebem significa que quantos mais pacientes atenderem, mais recebem. Isto faz com que nunca me tenha sentado num consultório médico mais do que dois minutos.

Isto, claramente, não cria muita confiança no sistema de saúde.

Além disso, quando há um ano fui diagnosticada com covid-19, perguntei ao meu médico a que devia ter atenção, se havia algum tipo de alimentação que pudesse aumentar as defesas… um conselho. A resposta foi: “Vá para casa fazer quarentena e espere uma chamada do Gesundheitsamt” (equivalente alemão à Direção Geral de Saúde), chamada essa que nunca chegou.

Em Abril seguinte, perguntei-lhe como seria para ser vacinada, respondeu-me que não precisava porque já tinha tido o vírus. É verdade que esse tinha sido o discurso inicial, mas à época já se falava de: “Quem teve covid não é prioritário mas deve tomar uma dose passados seis meses”.

Tenho pelo menos mais umas quatro histórias deste género (em três anos de emigrante) que não interessam a ninguém, mas que retiram a confiança no sistema de saúde alemão.

Ao contrário, em Portugal, por muito que seja um sistema subfinanciado, e talvez também por isso, há uma preocupação de humanização, de aconselhamento, de prevenção, de acompanhamento do doente. Há também uma confiança nas autoridades de saúde, seja por parte do cidadão comum como dos próprios médicos que seguem diretrizes claras. Os médicos e enfermeiros ligam a saber como estão os pacientes, têm acesso à base nacional de vacinação e têm a informação centralizada com os serviços hospitalares.

A minha enfermeira de família disse-me que todos os dias, aos poucos e por ordem de prioridade, ligava a todos os que não se tinham vacinado a perguntar o porquê. Há imensos motivos para não se tomar a vacina: não perceber como funciona o SMS por marcação, não ter telemóvel, não ter facilidade de transporte e suporte, desconhecimento, medo dos efeitos secundários até chegar aos que são verdadeiramente contra. É certamente paternalista, mas quantas pessoas poderão ter sido convencidas por um único telefonema?

Na Alemanha, além da descrença nacional no sistema, é próprio a falta de sistema. Se alguém ligasse aos 28% que não se vacinaram e perguntasse o porquê… Eu não sou matemática ou socióloga, mas diria que pelo menos metade aceitava tomar a vacina se alguém se esforçasse por fazer o primeiro contacto e se mostrasse disponível e respondesse a dúvidas, logísticas, científicas ou existenciais.

 

Isabel Melo, cidadã do mundo, trabalha como educadora em Munique (Alemanha).

 

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