
Edgar Morin fala da necessidade do ser humano se maravilhar. Foto © Lisaetwikipedia
“Se formos capazes de nos maravilhar, extraímos forças para nos revoltarmos contra essas crueldades, esses horrores. Não podemos perder a capacidade de maravilhamento e encantamento” se queremos lutar contra a crise, contra as crises, afirmou Edgar Morin à Rádio Vaticano em entrevista conduzida pela jornalista Hélène Destombes e citada ontem, dia 18 de setembro, pela agência de notícias ZENIT
“O grande problema é que a vida apresenta crueldades, horrores. Quando olhamos, por exemplo, para o que está acontecendo no Afeganistão, não podemos maravilhar-nos. Pelo contrário, sentimos algo de terrível. (…) O julgamento dos terroristas [do Bataclan] que decorre em França (…) [recorda] uma coisa horrível que te marca, mesmo que não tenhas desejos de vingança – que nunca tive –, acaba por produzir em ti um sentimento terrível. Mas se formos capazes de nos maravilhar, extraímos forças para nos revoltarmos contra essas crueldades, esses horrores” explicitou o filósofo francês agora com 100 anos.
Na entrevista, Edgar Morin, falando do maravilhamento, precisou: “Na minha conceção do humano, penso que nossa vida é bipolarizada entre a prosa e a poesia. Prosa são as coisas que fazemos por coação, de que não gostamos, que fazemos pela obrigação de sobreviver, enquanto poesia é realmente viver e viver é florescer, é comungar, é admirar, é maravilhar-se e é gozar o prazer de uma bela música, bem como o prazer de uma relação amorosa, ou o prazer de uma bela paisagem ou de um jogo de futebol. ”
Recusar o pensamento linear
Interrogado por Hélène Destombes, o autor do recente Lições de um século de vida regressa a alguns dos seus temas favoritos: “Devemos afastar-nos de um pensamento linear que consiste em ter a impressão de que a História está sempre a progredir (…) Houve um reinado do pensamento linear, do pensamento puramente quantitativo que via os problemas humanos apenas por meio do cálculo, enquanto o cálculo nada entendia sobre as nossas emoções e nossa vida real. A forma de pensar de que dispomos, portanto, não é adequada para pensar nem o mundo, nem nós próprios, nem sequer a pandemia. ”
A política, também não ficou de fora nesta entrevista: “É necessária uma reforma política. O gigantesco problema ecológico deve ser introduzido na política: a luta contra a poluição, contra a degradação dos solos, a destruição da biodiversidade e contra as alterações climáticas. Tudo isto pode criar postos de trabalho, mobilizar forças e criar uma economia que, além disso, teria um caráter social e diminuiria o enorme poder do lucro sobre o mundo de hoje. Temos enormes problemas e a pandemia devia ter-nos acordado. Infelizmente, ainda não o fez. ”









