
“Enquanto declaram a morte de Deus, há filosofias que instigam o ser humano a caminhar até à sua completa autossuficiência, tornando-se deus, prescindindo dessa alteridade absoluta que é maior do que o universo onde nos coube acontecer.” Foto © Rafael Barquero / Unsplash
Por mais adultos que julguemos ser, seremos sempre crianças à espera de um colo onde pousar a nossa inquietação. Pretender alcançar a completa autossuficiência é esquecer quem somos e renunciar à humilde condição de quem se sabe finito e contingente. Jamais seremos, pela força estrita da nossa vontade, deuses, libertos de todas as peias que nos mantêm reféns das coordenadas espácio-temporais em que a nossa vida decorre.
É por isso que precisamos de Deus, esse colo benigno onde apaziguar a tumultuosa existência e encontrar a esperança de virmos a ser o que tanto ansiamos. Não por força da nossa impertinente arrogância, mas por mero dom gratuito daquele que ama sem disso necessitar.
Enquanto declaram a morte de Deus, há filosofias que instigam o ser humano a caminhar até à sua completa autossuficiência, tornando-se deus, prescindindo dessa alteridade absoluta que é maior do que o universo onde nos coube acontecer. Porém, segundo creio, tais filosofias estão votadas ao fracasso. O homem é, e será sempre, essa poeira cósmica na qual emerge a consciência que o universo poderá ter de si próprio. Assim, acontece-lhe a vida sem disso ter sido o responsável e a mesma vida esvai-se num ápice, porque nada que exista no universo está livre da mais avassaladora de todas as leis: a tendência inexorável para a própria destruição.
Precisamos de Deus para sermos “deuses”. Precisamos de Deus para nos erguermos acima da nossa finitude. Não como conquista, que jamais seríamos capazes de realizar, mas como dádiva absoluta e imerecida fluindo do Amor sem condições nem constrangimentos.
Não nego que desconheço se é ou não verdadeira a ideia de um deus que existe como mero resultado do nosso desejo de ser como ele, tendo plena consciência de o não sermos de facto e projetando assim esse desejo numa alteridade sobrenatural. Não tenho acerca disso a menor certeza. E, contudo, Inclino-me para lhe negar validade, porque só a existência real desse Deus pode satisfazer o desejo universal de nos realizarmos enquanto imagem e semelhança dele, pois só Ele é o garante do cumprimento desse anseio permanente que nos invade o espírito. A sua não existência exclui o sentido desse anseio intemporal, uma vez que existe sem preencher em si mesmo as condições essenciais para a sua efetivação.
Pelo contrário, a ideia de que o deus de que precisamos para satisfazer o nosso desejo de eternidade é mera projeção do ser humano não parece ter consistência uma vez que, a ser assim, jamais poderemos vir a ser efetivamente o conteúdo do nosso desejo, carecendo dos meios para alcançar os fins por que tanto ansiamos. Não temos as armas para realizar a batalha que desejamos empreender. Falta-nos a bagagem para enfrentar os desafios desse projeto. Dizer o contrário, isso sim, seria mera ilusão.
No plano do ateísmo, a alternativa racionalmente sustentada seria aceitar a nossa condição mortal e a inutilidade desse desejo intemporal que nos habita, classificando-o como mera ilusão sem conteúdo objetivo. Não descarto uma tal possibilidade. Talvez vivamos enganados acerca de quem somos e da finalidade para a qual viemos à existência. Talvez tudo não passe de um mero equívoco. Talvez esse desejo de ser deus seja uma estranha estratégia da natureza para realizarmos os seus objetivos mais ou menos ocultos. E apesar disso, acolho, cheio de esperança, a ideia de que a verdade do ser humano está em Deus e nele só, porque só nele o nosso coração pode alcançar a plenitude de si mesmo. Para que o desejo de Deus que nos habita faça sentido é forçoso que Deus exista.
O problema da existência de Deus está também intimamente ligado ao conceito que dele temos. Muitos ateus estariam de acordo com a afirmação da sua existência se a palavra “Deus” fosse sinónima de “universo”. Deus seria o universo enquanto unidade autossuficiente. Assim sendo, o universo não precisaria de nenhum fundamento absoluto, pois ele seria o fundamento de tudo o que o habita. Não parece de todo impossível que assim seja. Contudo, ao observarmos os elementos que compõem o universo verificamos que nada têm de absoluto ou necessário. Todas as coisas são contingentes. Existem, mas podiam não existir. Não têm em si mesmas o fundamento da própria existência. Será que o universo como um todo é maior do que a soma das partes? Terá ele consistência absoluta sem depender de nenhuma alteridade? Será que ele é o fundamento de cada elemento que o constitui e é, em si mesmo, ontologicamente autónomo? Parece-me de todo improvável que assim seja. Dado o conhecimento científico atual, sabemos que o universo em que habitamos (não sabemos se existem outros) não existiu desde sempre. Teve início há cerca de 13,8 mil milhões de anos. E se teve um princípio, não é eterno, nem absoluto ou necessário. É, tal como todos os elementos que o compõem, contingente. Precisa, portanto, de uma explicação última para a sua vinda à existência. É a esse princípio sem princípio, essa explicação derradeira para todas as coisas, esse fundamento absoluto de tudo quanto existe que chamamos Deus. É por isso que não pode ser simplesmente identificado com o universo. É, pelo contrário, a razão de todas as coisas, o suporte explicativo para tudo quanto existe. E se o universo cabe, decerto, em Deus (neste sentido, Espinosa tinha razão), Deus não pode esgotar-se no universo. O universo está em Deus e este perpassa-o, como condição fundamental da sua existência, mas Deus é e permanecerá sempre o mistério absoluto que não cabe nos limites frágeis da razão humana, nem se pode esgotar nas coordenadas espácio-temporais em que se movem todos os objetos materiais.
Nós precisamos de Deus para virmos a ser do tamanho dos nossos sonhos. Mas também o universo precisa de Deus para explicar a sua própria existência.
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.









