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Belém, Natividade, Natal

Testemunho de um cristão na Palestina

Só há um caminho para Belém: segue a estrela, não há atalhos

| 10/12/2021

O muro de separação Israel-Palestina, atravessando a cidade de Belém

O muro de separação Israel-Palestina, atravessando a cidade de Belém. Foto: Direitos reservados.

 

Sou Nicola, uma das poucas pedras vivas que permanecem na cidade de Belém, ou um dos poucos peixes do aquário, já que Belém, o berço da fé e da paz, parece um aquário: as paredes são o muro de separação que rodeia a pequena cidade, a água é a nossa esperança, os peixes somos nós, a pequena comunidade cristã que ainda permanece, o oxigénio é o nosso Deus que nos protege e o alimento são os peregrinos que nos mantêm firmes e mantêm Belém viva. Mas agora que Belém tem muito espaço na hospedaria, não chegaram os peregrinos para encher e ver o Menino Jesus, por causa da covid.

Entre muro e política, religião e perseguição, ódio e destruição, pobreza e abandono, pandemia e isolamento, continuamos firmes na fé em Deus, de que isto tem de acabar.

O muro que divide Israel e Palestina mede aproximadamente 800 quilómetros. Em maio de 2014, o Papa Francisco, em visita a Belém, desceu do carro, ao passar junto ao muro. Fiquei surpreendido quando vi que começou a rezar, colocou a mão no muro e disse que neste mundo tem de haver pontes e não muros.

Este muro trouxe-nos muitos danos graves, prejudicou-nos: não só as famílias e comunidades, mas a cada um de nós, pessoalmente: fez-nos sentir presos no alcatraz, solitários numa ilha, criminosos ou selvagens. Por uns, todos pagam, triste realidade.

Enquanto a pomba da paz vista um colete à prova de bala, continuaremos a pagar esta condenação, porque a liberdade fugiu para o Pólo Norte e ficou sem sinal. Para entrar em Belém não deveria ser preciso senão os documentos Paz, Amor e Felicidade.

pomba da paz nicola belem

A pomba da paz com colete à prova de bala, pintada do lado palestiniano do muro de separação Israel-Palestina, em Belém. Foto: Direitos reservados.

 

O último Natal foi triste e sombrio. Esperemos que este seja melhor e que as fronteiras e aeroportos abram pouco a pouco e os peregrinos comecem a voltar: aqui em Belém, desde o padeiro até ao madeireiro dependem e vivem do peregrino, porque a “mina de ouro” de Belém é a Basílica da Natividade de Jesus e o “petróleo” é o artesanato em madeira de oliveira, tradição antiga do século IV.

Antes da pandemia, a cidade velha estava cheia de turistas e os habitantes de Belém fechavam as portas e janelas por vergonha ou por causa do barulho. Agora, deixam-nas abertas para o ar fresco entrar… Muitos, sentados nas ruas a ver a cidade vazia, com saudades dos peregrinos, como as mulheres que esperavam que os maridos voltassem do mar, como se vê na escultura da “Tragédia no Mar”, em Matosinhos. É mesmo uma tragédia e um choque ver Belém vazia, o que nunca aconteceu nem na Grande Guerra 1914-18, nem na Segunda Guerra Mundial, nem nas guerras de 1948 ou de 1967.

 

Estamos a morrer devagar
Árvore de Natal na Praça da Manjedoura

Árvore de Natal na Praça da Manjedoura, em Belém. Foto: Direitos reservados. 

 

Estamos a morrer devagar. Sem turistas, só Deus sabe o que nos vai acontecer. Fomos abandonados, como uma ovelha na selva.

A Terra Santa vive do turismo, mas Belém vive e depende do turismo. Sem peregrinos, não é nada.

Jerusalém é uma das cidades mais importantes na Terra Santa e muito visitada, enquanto Belém, ao lado e com muita história bíblica (Raquel, o rei David, o nascimento de Jesus) e com três celebrações natalícias (católica, ortodoxa e arménia) para o peregrino parece que é perigosa ou que fica longe. Pelos média, o muro, os controlos que separam, muitos acabam por não vir e os que vêm ficam por pouco tempo, poucos dormem, poucos almoçam ou compram. Se assim fosse em Fátima, as lojas, hotéis, restaurantes e museus fechariam. Isso é o que está a acontecer connosco em Belém nos últimos 20 anos. E, por sermos minoria, somos estrangeiros na nossa própria terra. E muitos perguntam-se porque já não há aqui muitos cristãos.

A pandemia parece não ter fim, mas irá acabar e a vida voltará à normalidade. A fé em Deus é uma excelente “vacina”. Nós não temos medo da pandemia, temos medo, sim, de começar a ficar com fome.

A Terra Santa sem peregrinos é como peixe sem água. Mas sem nós, os cristãos que cuidamos dos lugares sagrados, estes seriam pedras mortas, museus e não igrejas vivas – e os peregrinos seriam os únicos cristãos. A Terra Santa não é minha nem dos padres nem das irmãs que cuidam das igrejas ou conventos; é também vossa, de quem me lê. A vossa presença é muito importante, porque vocês são os embaixadores da paz, para manter viva a presença de Jesus. Paulo VI, o primeiro Papa peregrino aqui, em 1964, disse que a Terra Santa é o “quinto evangelho” porque nela se podem ver e tocar os lugares onde Nosso Senhor Jesus Cristo andou.

Ser cristão na Terra Santa é um privilégio, uma vocação, é uma missão; mas também há que ser herói para aguentar tantas dificuldades. É o preço que se paga pelo amor a Jesus.

 

Oliveira, a árvore da Vida
Basílica da Natividade

Basílica da Natividade, em Belém. Foto: Direitos reservados.

 

Se no início do próximo ano não começar a regressar o turismo, os cristãos que ainda aqui vivemos (1,5% da população), teremos de começar a procurar outro sítio: não dá para viver assim.

Confiamos em que os lugares santos voltem a abrir as suas portas e a Terra Santa volte a encher-se de peregrinos, para nos dar esperança de que não estamos sozinhos assim e que tudo vai melhorar, se Deus quiser.

De Belém, onde a Palavra se fez carne, o meu grande desejo é que a Terra Santa não fique sem cristãos para manter viva a memória da vida de Jesus e seus discípulos, viver de forma digna sem estarmos forçados a imigrar, que a pandemia desapareça, que a paz e o amor reinem e que não continuemos a ser passarinhos enjaulados por este muro, nem abandonados. Que todos sejamos a estrela que ilumina a vida dos idosos, dos sem abrigo, dos doentes e dos pobres, dos perseguidos e abandonados. E, assim, a manjedoura estará pronta para Jesus nascer nos nossos corações todos os dias.

Convido todos a virem e experimentarem como o que se diz que as cidades são livros que se leem com os pés; venham conhecer a terra do leite e do mel, a terra que viu profetas e apóstolos, reis e santos, que viu nascer, crescer, morrer e ressuscitar Jesus Cristo, o filho de Deus feito Homem, a Luz do mundo, a nossa salvação, o caminho e a vida eterna. Poderão ouvir os sinos a cantar, as pedras a sussurrar e as oliveiras a narrar a história do nosso salvador, Jesus Cristo. A oliveira é para nós a mais importante e mais sagrada de todas as árvores desde os tempos antigos, porque tem um significado histórico e religioso na cultura cristã e uma profunda ligação com as nossas raízes – por isso lhe chamamos a árvore da vida.

O Jardim do Getsémani e o Monte das Oliveiras estão a pouca distância de Belém, onde centenárias oliveiras são testemunhas sobreviventes dos tempos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ali ele descansou e orou, e pouco antes da sua Paixão abençoou com as suas orações – e essas oliveiras permanecem fortes e dão frutos até hoje. “É árvore da Vida para aqueles que a alcançam; felizes daqueles que a possuírem” (Provérbios 3;18).

Um santo e feliz Natal. Se te sentires perdido, segue a estrela.

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Estrela que assinala o lugar onde Jesus teria nascido, na Gruta da Natividade. Foto: Direitos reservados.

 

 

 

Nicola é um cristão da cidade de Belém, onde trabalha como guia e representa uma pequena comunidade de artesãos de artigos em oliveira (presépios, anjos, imagens de Nossa Senhora, cruzes, terços, santos…). Quem queira ajudar essas pessoas para que possam continuar em Belém e manter viva esta antiga tradição, pode entrar em contato para nicolasbelen@hotmail.com ou por whatsapp (00972-52457-6851). Em Lisboa, o artesanato de Belém está à venda na Basílica dos Mártires (R. Anchieta, 10), todos os dias, das 10h às 19h, até dia de Natal.

 

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