Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 13)

Só uma Igreja cujo centro é o Evangelho será credível

| 13 Abr 2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

Nesta décima terceira resposta, Cristina Inogés-Sanz, teóloga que integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos, desafia-nos a assumir a nossa responsabilidade enquanto leigos e saber qual o nosso lugar nessa Igreja, porque “ninguém é dono da Igreja, nem mesmo os bispos que agiram como se dela fossem donos.”

 

O problema radica na distorção teológica do exercício do poder

 

paroquia de nossa senhra da hora matosinhos sinodo foto dr

“Temos de ter a coragem de deixar as nossas capelinhas em que nos sentimos bem – uma versão moderna das três tendas da narrativa da transfiguração – e sair à rua porque a Igreja está a demorar demasiado tempo a instalar-se na rua. E precisa de o fazer, literalmente.” Foto: Paroquia de Nossa Senhora da Hora, Sínodo, Matosinhos. DR

 

1.1  A tremenda crise que a Igreja atravessa fez com que o Cristianismo, e o próprio Evangelho, tenham perdido boa parte de sua credibilidade. Esta crise, cujo sinal mais saliente são os abusos sexuais cometidos, na sua maioria, por membros do clero, mas que tem raízes no abuso de poder, deveria fazer soar o alarme para que nós leigos levemos a sério a nossa responsabilidade, o nosso ser Igreja e o lugar que cada um de nós tem nela. Ninguém é dono da Igreja, nem mesmo os bispos que agiram como se dela fossem donos.

Não podemos enganar-nos e acreditar que toda essa situação é fruto apenas dos abusos sexuais. A crise para a qual nos têm arrastado, principalmente, os bispos (de todo o mundo), resulta da arrogância de terem agido como senhores feudais dos seus territórios-dioceses, sem a menor possibilidade de controlo por parte dos fiéis súbditos, pois a única função destes na Igreja era dizer “amém”.

Estamo-nos desconjuntando como telhas de barro malcozidas. É hora de transformar esta realidade. Agora sabemos como fazê-lo porque sabemos que o verdadeiro problema radica na distorção teológica do exercício do poder. As atrocidades que foram cometidas sob a capa de formas do exercício de um poder corrupto, fazendo as pessoas acreditarem que isso era assim por vontade de Deus, devem-nos fazer entender que aquilo que agora temos não se parece com o que a Igreja deveria ser.

Esta Igreja da qual fomos súditos mudos deve ser transformada por todos nós porque o que a partir de agora não fizermos, ninguém o fará por nós.

Passámos anos a ouvir dizer que tínhamos que dialogar com o mundo, mas, na hora da verdade, o mundo é o grande inimigo. Desde quando? Porquê? O mundo somos nós mesmos. Continuam a fazer-se, em praticamente todas as áreas, abordagens e planos pastorais que se tornam obsoletos e caducos mesmo antes de começarem a serem concretizados. Deixamo-nos consumir pela teologia da adoração quando, na realidade, a fé e a coerência da vida cristã se jogam na teologia do crucificado. Do crucificado, não da cruz.

Temos de ter a coragem de deixar as nossas capelinhas em que nos sentimos bem – uma versão moderna das três tendas da narrativa da transfiguração – e sair à rua porque a Igreja está a demorar demasiado tempo a instalar-se na rua. E precisa de o fazer, literalmente.

Embora seja forte a tentação de nos sentirmos “de Francisco”, temos que nos sentir e ser “do Evangelho”, porque só uma Igreja cujo centro é o Evangelho será credível. É tempo de deixar para trás a passividade e o conforto; é tempo de enfrentar a realidade de que somos ovelhas sem pastor (porque não temos pastores) e que temos de sair juntos dessa crise porque, ou saímos juntos, ou nos afundamos juntos – Francisco dixit.

Não podemos ser membros da Igreja por hábito ou tradição familiar. Devemos ser membros da Igreja por convicção evangélica, por decisão pessoal e por compromisso batismal. Se não respondermos a esta crise como ela merece e exige, do Quem estamos dando testemunho?

1.2  Se os bispos quisessem ouvir, poderíamos unir forças e, entre nós todos, com serenidade, calma, mas sem deixar o tempo passar, encontrar a solução, ou soluções, necessárias, assumir as mudanças urgentes, mas receio que este caminho não vai ser possível porque as mitras não se querem dar a este trabalho. São incapazes de perceber que perder um grama de poder lhes daria toneladas de autoridade moral.

Olhando a realidade deste prisma, penso que quem criou e manteve a situação que até aqui nos trouxe deveriam ser os que fizessem o q      eu fosse possível para garantir a mudança. Mas, como são bispos, temo que nada mude se nós, leigos, não assumirmos uma liderança compartilhada que nos leve a adotar todas as medidas sejam necessárias.

Se na sociedade civil passamos a vida a exigir mudanças e soluções, por que não o fazer na Igreja? Por que permanecemos adormecidos, permitindo que a situação se mantenha?

 

2. É preciso ouvir e partilhar dores, esperanças e possibilidades de mudança. É possível fazer isso ao nível paroquial, diocesano e nacional. Nada nos impede de criar grupos sinodais para continuar ouvindo, dialogando e propondo soluções. E que tudo o que é dito e proposto nesses grupos seja divulgado por meio dos média e das redes sociais. E tudo isso, claro, com uma linguagem fresca e eclesial, propositiva e, sobretudo, não gerando mais polarização do que a que já existe.

Será preciso ter em conta e estar preparado para, na medida do possível, não se deixar influenciar por aqueles que, sem quererem participar nestas propostas porque não acreditam na Igreja sinodal, farão tudo para impedir e pôr em perigo este processo.

 

3. Será necessário recuperar a voz daqueles que abandonaram os templos – não a Igreja – e também a voz daqueles que estão interessados ​​em viver o Evangelho, mas não são atraídos pela Igreja. Quem acredita e pensa fora da estrutura eclesial tem uma visão menos contaminada e seria de grande ajuda contar com a sua contribuição. Temos de trabalhar em propostas concretas adaptadas à realidade de cada dia e esquecer as utopias.

Se como teóloga puder contribuir com algo para esta reflexão e para a mudança de atitudes, aqui estou.

 

Tradução: Jorge Wemans.

 

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