Leituras de Páscoa (9)

“Sobre a Páscoa” – a primeira homilia

| 1 Abr 2024

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Hoje, 28 de Março, os cristãos celebram Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa.

 

O que realmente celebramos na Páscoa cristã

 

Até à data, conhecemos como as mais antigas homilias pascais as únicas que nos restam dos dois primeiros séculos: a homilia Perì Pascha, do bispo Melitão de Sardes, e o In sanctum Pascha, do Pseudo-Hipólito. A homilia de Melitão de Sardes, agora editada pela Paulinas Editora em versão portuguesa completa, é a mais antiga que chegou até nós. Para além do contexto em que nos situa e dos conteúdos tão antigos e sempre novos que nos lega, permanece de capital relevância para a história do cristianismo e para melhor compreendermos o que realmente celebramos na Páscoa cristã. Isidro Lamelas, frade franciscano e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, é o responsável pela tradução, edição e notas.

 

 

Novo e antigo, eterno e passageiro é o mistério da Páscoa

El Greco, Ressurreição: “Ressuscitou dos mortos e fez ouvir a sua voz”. Imagem reproduzida via Wikimedia Commons

O Cristianismo e a Igreja nasceram da Páscoa de Cristo. Este foi sempre o acontecimento fundante da religião que tem como pedra angular a fé em Cristo real- mente Crucificado e Ressuscitado. Somos fruto da sua Paixão confessa Santo Inácio de Antioquia, no começo do século II (Carta aos Esmirnenses, I,1-2). Ao dizer isto, o bispo antioqueno tem bem presente esta primordial convicção de São Paulo: Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé (1Cor 15,14). […]

Como ensinará, mais tarde, Santo Agostinho, «não é grande coisa acreditar na morte de Cristo. Também os pagãos creem nela, assim como os Judeus e os que não têm fé. Que Ele morreu todos acreditam; mas a fé do cristão é na ressurreição de Cristo. É este o nosso distintivo fundamental: acreditar que Cristo ressuscitou» (Comentários ao Salmo 120,6: «Páscoa é, na verdade, uma palavra hebraica, ainda que alguns a julguem grega, como se fosse sinónimo de “paixão”. Mas não é assim. Perceberam-no e explicaram-no bem os exegetas mais atentos e eruditos: “Páscoa” é um termo hebraico, e não significa “paixão”, mas “passagem”. Efetivamente, através da Paixão o Senhor passou da morte à vida, e a nós que acreditamos na sua ressurreição Ele abriu-nos a porta pela qual também nós passamos da morte à vida. […]

 

  1. Foi lido o trecho do Êxodo dos Judeus (Ex 12,1ss), e foram explicadas as palavras do mistério [Depois da leitura em grego, um leitor (que poderá ser o próprio Melitão) fez uma explicação literal, uma breve paráfrase exegética, para tornar o texto mais claro a todos, à maneira de «admonição», antes da homilia]: Como a ovelha é imolada e como o povo é salvo.
  2. Agora, irmãos, deveis compreender como, novo e antigo, eterno e passageiro, corruptível e incorruptível, mortal e imortal, é o mistério da Páscoa. […]
  3. No tempo, pois, em que o cordeiro é imolado, e a Páscoa é comida, e o mistério é levado ao cumprimento, e o povo celebra a festa, e Israel é assinalado [com o sangue]; eis que vem o anjo a flagelar o Egito: não iniciado no mistério, não partícipe da Páscoa, não assinalado com o sangue, não protegido pelo Espírito, o inimigo, o infiel: numa só noite feriu-o, privando-o dos seus filhos. […]
  4. Ele é o cordeiro sem voz (Cf. Is 53,7), é o cordeiro degolado (Cf. Is 11,19), aquele que nasceu da Virgem Maria, a boa cordeira; aquele que foi tomado do rebanho, e, conduzido ao matadouro (Cf. Is 53,7), foi imolado ao entardecer [Os Evangelhos falam da «hora nona», entre o meio-dia e as 3 horas da tarde, cf. Mt 27,46. Os Quartodecímanos estão determinados em fazer coincidir a morte de Cristo com a hora da imolação do cordeiro pascal da festa judaica, que, conforme Ex 12,6, tinha lugar «ao escurecer».] e à noite sepultado; aquele que sobre o madeiro não foi quebrado, que na terra não sofreu corrupção, que ressuscitou dos mortos e ressuscitou o homem do abismo do túmulo. […]
  5. Ressuscitou dos mortos e fez ouvir a sua voz, gritando: «Quem deporá contra mim?
    Que se apresente diante de mim! Eu que libertei o condenado, Eu que dei a vida ao morto, Eu que ressuscitei o sepultado.
  6. Quem é o meu acusador? Sou Eu, diz Ele, o Cristo, sou Eu que destruo a morte, que triunfei sobre o inimigo, que calquei aos pés o inferno, que agrilhoei o forte, e elevei o homem à sumidade dos Céus; Sou eu, diz Ele, o Cristo.»

 

Sobre a Páscoa (Perì Pascha) – A mais antiga homilia pascal, de Melitão, bispo de Sardes
Estudo, notas e tradução de Isidro Pereira Lamelas
72 pág., Paulinas Editora

 

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“Se não prepararmos melhor o nosso Serviço Nacional de Saúde do ponto de vista de cuidados paliativos, não há maneira de ter futuro no SNS”, pois estaremos a gastar “muitos recursos” sem “tratar bem os doentes”. Quem é o diz é Catarina Pazes, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) que alerta ainda para a necessidade de formação de todos os profissionais de saúde nesta área e para a importância de haver mais cuidados de saúde pediátricos.

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Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

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