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Igreja Ortodoxa

Sobre o canto da Festa da Natividade de Maria Mãe de Jesus

| 19/09/2021

Ícone da Natividade de Maria Mãe de Jesus

Ícone da Natividade de Maria Mãe de Jesus, sec. XVII. Mosteiro Dionisius, no Monte Atos

 

A Igreja Ortodoxa celebra no próximo dia 21 de Setembro (8 de Setembro no calendário juliano), a importante Festa à toda Venerável e Santa Maria Mãe de Jesus, que está entre os primeiros dias do ano litúrgico.

O músico ortodoxo Richard Barret publicou um estudo muito interessante sobre o tropário da Festa da Natividade de Maria Mãe de Jesus, um hino festivo partilhado entre os livros de canto bizantino e os livros de canto latino.

“O teu nascimento, ó Mãe de Deus, revelou a alegria a todo o universo, pois de ti nasceu o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus, que livrando-nos da maldição nos trouxe a bênção e, abolindo a morte, nos deu a vida eterna.”

 

A partir de documentos muito antigos, um em latim com neumas quadráticos gregorianos e outro em grego com neumas bizantinos, o autor apresenta um texto comum, ainda que cantado em tons diferentes nas liturgias respectivas.

Aquele artigo assenta na importância de três vectores: o culto a Maria Mãe de Jesus, a polarização latina e bizantina no cristianismo e a partilha entre civilizações. Nada é dito sobre data e local de origem dos documentos. Também são muito interessantes os comentários ao artigo, mostrando várias tensões culturais.

O culto mariano remonta ao século II, como uma devoção popular copta do Egipto, onde os hinos sempre tiveram um lugar muito importante; porque apesar da pobreza teológica do texto poético, foram escritos com estilo e estrutura egípcia corrente.

Deste modo, os hinos desempenharam um papel catequético fundamental no cristianismo dos primeiros tempos.

Canto natividade bizantino

Ilustração: pauta canto natividade bizantino

 

No contexto de partilha entre civilizações, focalizado neste artigo entre Constantinopla e Roma – com a Igreja alexandrina [copta] a ser percursora na fixação do cânone do Tropário da Natividade – o tropário apresenta-se enriquecido não pela retórica luxuosa, mas pela simplicidade do ensino dogmático de que é veículo.

Depois do século III ou IV, sem existir na matriz do Novo Testamento, o hino divulga-se por outras civilizações.

No seculo VI, Romanos o Melodista transfere-se da Síria, sua terra natal, para Constantinopla, onde produzirá uma obra de excelentes hinos em grego vulgar e assentes em tradições populares, que atravessaram territórios e o tempo até aos dias de hoje; também eles partilhados por diferentes civilizações e caminhos de fé.

A polarização da importância do Tropário da Natividade da Mãe de Jesus Cristo, pode ser localizada com epicentro em Roma, Constantinopla ou Alexandria, mas não circunscrita àquelas localidades sede das respectivas jurisdições religiosas, pois a sua influência litúrgica, estética e teológica, distribuía-se por muitas regiões, muitas vezes convivendo civilizadamente.

Canto natividade latino

Ilustração: pauta canto natividade latino

 

A partilha litúrgica do canto, como da veneração e do culto, emergem no contexto do desenvolvimento do cristianismo e no princípio comum da fé, revestindo-se de uma importância superior ao culto dos santos, logo a seguir, em dignidade espiritual e dogmática, à adoração a Jesus.

Na comparação dos textos, bem como no artigo e seus comentários, sentimos sobressair a questão civilizacional, que na noção sociológica pode ser entendida como fonte de progresso ou desenvolvimento de relações sociais de certas características culturais, normalmente estruturadas na urbe ou aglomerados humanos com elementos diversificados.

É nesta diversificação, caracterizada pela partilha de regras de convivência e representações de identidade que se desenvolvem traços culturais profundos e transmissíveis entre povos e gerações, como ocorre com a veneração a Maria Mãe de Jesus, não sem que se desenvolvam acessoriamente pequeníssimas diferenças na partilha dogmática pela indicação do tom em que é cantado.

No essencial, o hino decorre na partilha comum e universal da veneração a Maria Mãe de Jesus e na forma da sua manifestação através do canto litúrgico.

Neste aspecto, a civilidade confunde-se com ecumenismo, já que resulta do desenvolvimento de um mesmo culto em diferentes culturas, através da sua partilha comum e universal.

 

Alberto Teixeira é cristão ortodoxo

 

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