Sociedade à deriva: um novo caminho precisa-se

| 1 Dez 2022

Hong Kong manifestação. Joshua Wong

Manifestação Hong Kong, 1 de Julho 2020, contra a nova lei de segurança: “Podemos discordar das motivações, do tempo ou até da forma de atuação, mas nunca do direito.” Foto da página do líder estudantil Joshua Wong na rede Twitter.

 

Verifico, com alguma preocupação, que cada vez mais se colocam em causa direitos coletivos em nome de direitos individuais. Sobretudo quando os direitos coletivos conquistados parecem pôr em causa supostos direitos individuais não conquistados, mas percecionados como imprescindíveis em sociedades bem arrumadas, mais bem ordenadas, limpas (clean), securitárias, onde a liberdade dita individual se sobrepõe a qualquer outra ideia de uma sociedade verdadeiramente livre e democrática, mesmo ou sobretudo imperfeita. Acontece que, não raras vezes, o que se diz ser um atentado às liberdades individuais não é mais do que o incómodo sofrido no seu bem organizado e confortável quotidiano. A greve é um desses exemplos. Como também as manifestações e as ocupações de espaços que os jovens pelo clima têm levado a cabo são outro exemplo. Podemos discordar das motivações, do tempo ou até da forma de atuação, mas nunca do direito.

A preocupação é tanto maior quando esse tipo de discurso faz parte do léxico discursivo de comentadores, cronistas ou dos ditos fazedores de opinião. Na verdade, sem o dizerem e muito menos confessarem, eles enveredam por um caminho populista travestido de qualquer outra coisa que lhe dê maior credibilidade. E este caminho vem-se tornando cada vez mais habitual.

Causa-me também algum desassossego quando são os próprios ocupantes de funções de relevo em instituições representativas da democracia e da organização social a não respeitarem nem o lugar que ocupam ou ocuparam nem a instituição da qual fazem ou fizeram parte. Isso acontece porque talvez não exista uma consciência do que significa servir em proveito do bem comum sobrepondo-se a este os interesses pessoais, corporativos, ideológicos ou outros.

Mas o que me surpreende ainda mais é que quem eu julgaria acérrimo defensor do coletivo se deixe enredar em ideias de um utilitarismo económico e societal que poucas dúvidas deixa quanto aos seus objetivos. A discussão sobre a eutanásia é disso exemplo. Não pretendo fazer qualquer juízo de valor sobre a opção de cada pessoa – não é isso que está em causa nem tão pouco é este o momento –, mas apenas debater o que está ou não subjacente a tais opções e o que as fundamenta. Em nome do direito democrático restringem-se opções mais coletivas e afirmam-se as individuais como sendo a única verdade. As opções só existem quando os vários caminhos são colocados no mesmo plano. Se assim não for, a inexistência de verdadeiras escolhas é uma subversão da democracia.

A falta de referências e consequente perda de identidade coletiva a vários níveis tem como resultado um processo de autodefesa e de sobrevivência, quase animalesca, ou seja, a afirmação vincada das diferenças erigidas como verdades, não passíveis de discussão, deixando para trás ou mesmo destruindo eventuais pontes de entendimento. É um tempo do tudo ou nada. Especialmente do tudo.

Vivemos um tempo em que se reivindicam direitos sem qualquer preocupação em perceber se esses direitos colidem com outros que podem, ou não, ser-lhes superiores. Reivindicar direitos, por mais justos que sejam, é sempre uma situação de privilégio, pois isso significa que ao serem-me atribuídos determinados direitos outros deles serão excluídos. Quanto mais parcial for a atribuição de direitos mais excludente ela será.

Outras evidências existem que também nos devem preocupar, nomeadamente ao nível do discurso político. Há sinais preocupantes que vão além das fake news. A falta de rigor e alguma desonestidade intelectual na análise dos acontecimentos, a mentira ou a omissão, desrespeito pelas instituições e por quem as representa e, sobretudo, a falta de respeito pelo outro, mesmo se adversário.

O conflito deixou de ser sobre ideias para se situar entre adversários, transformados em quase inimigos. Isto é perigoso porque, infelizmente, há quem não tenha qualquer pejo em não ter ideias sustentáveis e coerentes em prol do bem comum.

Importa perceber que a aparição dos populismos e dos movimentos extremados não são o resultado de uma anomalia das democracias, mas sim a procura de soluções mesmo se fora do quadro da própria democracia. Se os políticos moderados, crentes na democracia, continuarem a pensar que se trata de um desvio ou de uma anomalia, continuarão a ser incapazes na procura de novas soluções verdadeiramente inovadoras e acabarão por perder o seu espaço. O que significa que devido à sua cegueira e incapacidade acabarão por ser eles próprios os que pior maltratam a democracia.

 

Revisitar o legado de Emmanuel Mounier

 

Edição 174 da revista Esprit dedicado a Emmanuel Mounier: à procura de uma terceira via entre fascismo e comunismo, inspirada na espiritualidade cristã. Foto: Direitos reservados

Edição 174 da revista Esprit dedicado a Emmanuel Mounier: à procura de uma terceira via entre fascismo e comunismo, inspirada na espiritualidade cristã. Foto: Direitos reservados

 

 

Sobretudo para os que são católicos, talvez valha a pena revisitar o legado de Emmanuel Mounier, fundador da revista Esprit em outubro de 1932. O tempo que então se vivia, sendo diferente, em meios e circunstâncias, não deixa de ter as suas similitudes com o tempo que hoje vivemos. Emmanuel Mounier, filósofo então com 27 anos, no meio dos males que atormentavam a época, procurava soluções, um caminho que possibilitasse um futuro diferente daquele que o caos parecia anunciar.

A crise económica devida ao crash da bolsa americana tinha chegado à Europa originando falências, desemprego em massa e miséria; na Alemanha, Hitler estava às portas do poder; Estaline reforçava o seu poder ditatorial; no continente europeu os jovens eram postos à prova entre as seduções fascista e a comunista.  Como sair desta confusão que só pode levar ao fracasso?! Este velho mundo parecia entrar em colapso.

 

Capa da revista La Croix.

Capa da revista La Croix.

Mounier, sem a pretensão de ter respostas, descrente de ideologias e de utopias, tem a habitá-lo, contudo, uma profunda convicção: a revolução deve ser espiritual. “O espírito deve tomar a iniciativa do protesto”[1], escreve ele no primeiro número da revista, persuadido que só a mobilização das convicções mais íntimas pode desestabilizar a “a desordem estabelecida”. Ele pretende recuperar o movimento das ideias que, no séc. XVI, deu origem ao humanismo europeu. A oposição entre o “EU” e o “NÓS” conduziu a dois impasses: o individualismo burguês e o coletivismo totalitário. A revista tornou-se um verdadeiro laboratório de ideias na procura de uma terceira via entre capitalismo e comunismo. Mounier denuncia de forma veemente os compromissos da burguesia católica com uma ordem social injusta. Condena a sua falsa piedade que esquece as exigências evangélicas e que condena os operários e os miseráveis desesperados às ilusões fascistas e comunistas. Contudo, ele acaba por constatar como a burguesia católica conservadora se apropria do espiritual desviando-o do essencial numa lógica de captação do catolicismo de direita que tende a solidificar o bloco «propriedade-família-pátria- religião». Estaremos hoje assim tão longe dessa realidade?

Se Mounier cedo percebe que a Igreja perdeu a classe operária, divórcio que ele nunca aceitou, a verdade é que desde dessa altura que a Igreja Católica tem vindo a perder não só os operários, mas outras classes e grupos, nomeadamente jovens.

Mounier, dizem, foi um precursor do Concílio Vaticano II. Ora os católicos têm agora uma oportunidade única de, através do Sínodo que está em processo e do caminho sinodal que foi feito, revelarem a sua humildade e coragem para fazerem transformações que sejam um exemplo para o mundo secular e um anúncio de esperança para toda a humanidade. Saibam eles aproveitar essa oportunidade.

 

José Centeio é editor da opinião no 7Margens e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social)contacto: jose.centeio@gmail.com 

[1] A revista semanal de 15/10/2022 do jornal La Croix dedicou-lhe título de capa (ligação só para assinantes) na celebração do que seriam os 90 anos da revista Esprit.

 

Francisco alerta bispos para o perigo do “carreirismo”

Último dia na RD Congo

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O secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) saudou a decisão do Tribunal Constitucional (TC), que declarou inconstitucionais algumas das normas do decreto sobre a legalização da eutanásia. “A decisão do TC vai ao encontro do posicionamento da CEP, que sempre tem afirmado a inconstitucionalidade de qualquer iniciativa legislativa que ponha em causa a vida, nomeadamente a despenalização da eutanásia e do suicídio assistido”, disse à agência Ecclesia o padre Manuel Barbosa.

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