Solidariedade com Cabo Delgado (4): Kuendeleya, uma associação mobilizada para ajudar os deslocados

| 11 Abr 21

Pemba. Cabo Delgado. Moçambique

Crianças deslocadas a comer em Pemba: “uma situação muito dramática”. Foto © Associação Kuendeleya.

Revela-se de uma importância extraordinária o amplo trabalho humanitário desenvolvido em Cabo Delgado, que desde há anos vive uma situação dramática, agravada pelos ataques terroristas à cidade de Palma. O 7MARGENS tem, por isso, escutado as instituições e organizações não governamentais que estão no terreno para saber como é que elas vêem o que se está a passar, que trabalho desenvolvem e o que podem os portugueses fazer para ajudar os moçambicanos desta zona. Depois do padre Jorge Vilaça, do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga; de Catarina Martins Bettencourt, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre; e de Carlos Almeida, coordenador nacional da Helpo, publicamos agora o testemunho de Abudo Gafuro, presidente da Associação Kuendeleya, uma organização criada localmente e composta por jovens católicos, protestantes e muçulmanos, como conta, no final, o responsável da Kuendeleya.

 

Como vê a Associação Kuendeleya a situação em Cabo Delgado?

A Kuendeleya vê como uma situação muito dramática esta crise político-militar de invasão da região norte e centro da província Cabo Delgado por quem a destrói através do horror. Todos os dias se vive uma incerteza dolorosa, sobretudo por falta de segurança e de respostas eficazes aos terroristas. Assusta viver assim.

Que acções está a Associação Kuendeleya a empreender para ajudar as vítimas?

Pemba, Cabo Delgado, Moçambique

Deslocados com ajuda alimentar, uma das prioridades da Kuendeleya. Foto © Associação Kuendeleya.

 

A Kuendeleya tem feito um triplo trabalho:

  1. ajuda psicológica e moral de escuta, acolhimento e alguma reinserção social;
  2. ajuda humanitária para com as vítimas (confeção e fornecimento de refeições e de bens de primeira necessidade);
  3. grande disponibilidade para ajudar os deslocados internos em vários aspetos no desembarque, contacto de familiares, criação de abrigos, etc. Ajudamos em cercas no local para poderem descansar, ou mesmo passar a dormir, nos primeiros minutos quando chegam à cidade de Pemba, sobretudo aqueles que não tem famílias ou amigos para os poder acolher.

Exemplo: eu estou a acolher 14 pessoas na minha modesta casa, sobretudo mulheres deslocadas de Mocímboa, são pessoas que conheço e são amigos; à minha mãe, pedimos para acolher duas mulheres que tiveram bebés no mangal e no barco artesanal durante a fuga.

Para reinserção social, desenvolvemos sessões de formação, ensinando a fazer alguma coisa positiva, criar um pequeno negócio para sustentabilidade. E fazemos palestras sobre empreendedorismo e pequenos negócios na cidade.

Neste momento, há problemas de alimentação saudável porque há milhares de crianças e mulheres, idosos vulneráveis, com desidratação e fraqueza, precisam de alimentos e também de instrumentos agrícolas para trabalharem com a terra na produção de alimentos e, quem sabe, se podem fazer uma coisa melhor, diminuir a importação.

 

Como podem os portugueses ajudar?

Pemba, Cabo Delgado, Moçambique

Voluntários da Kuendeleya: “Nós temos o propósito de atuar em sociedade, neste teatro em que estamos a viver, para a tornar mais confiável.” Foto © Associação Kuendeleya.

 

Os portugueses têm o dever, como um povo irmão, de ajudar Cabo Delgado e o país em geral, contra a sua pobreza cultural, formativa, alimentar. E na questão de segurança, pois é necessário responder-lhe imediatamente como a população pretende.

Em minha opinião, ainda não vi algum país conseguir resolver o problema de terrorismo sozinho. Os militares portugueses são experientes e muito rápidos nos resgates, fazem-nos falta. É por aí, vejo como uma prioridade a ajuda militar como uma estratégia para poder combater o terrorismo tão violento no norte de Moçambique. Estamos em riscos de o terrorismo chegar em atentados à numerosa Pemba, caso não haja uma intervenção imediata a contê-lo.

O que estamos a viver hoje, sentimos, é uma falta de ética política.

É urgente educar o país em ética pública; temos que ter a ética como um valor fundamental para o crescimento e desenvolvimento socioeconómico, político, militar, desportivo, para poder garantir os direitos humanos aos cidadãos e o respeito, o amor, a justiça perante a vida humana. Devemos ser todos tratados como Gente.

Nós temos o propósito de atuar em sociedade, neste teatro em que estamos a viver, para a tornar mais confiável. Gostaríamos de promover formação de curta duração de ética e deontologia profissional mas sentimos muitas resistências oficiais e pouco apoio. Queremos respeito pela dignidade humana. Promovemos diálogos inter-religiosos, a Igualdade de género, a imparcialidade, a justiça e sobretudo a Paz.

Com fé, esperança e amor entre irmãos…

Demostramos o nosso trabalho pela prestação de contas aos doadores.

Fazemos sensibilização da população para não aderir aos movimentos de terrorismo.

 

Da equipa de futebol amador na praia à associação de acolhimento de deslocados

Pemba. Cabo Delgado. Moçambique

Voluntários da Kuendeleya: tudo começou a jogar futebol na praia. Foto © Associação Kuendeleya.

A Associação Kuendeleya – composta por jovens católicos, protestantes e muçulmanos praticantes – começou por ser uma equipa de futebol amador na praia. Trabalhei com o padre Eduardo Roca, com quem também estudei ética na Universidade Católica de Moçambique, no bairro Mahate, onde vivem muçulmanos pobres, na ajuda ao acolhimento de deslocados que vinham de Mocímboa e Macomia, em 2018, para Pemba. Seguiu-se depois o ciclone Kenneth, a assolar toda a província de Cabo Delgado. Demos todos uma mão.

Em 2020, com a intensidade dos ataques terroristas, estávamos nós na praia de Paquite a jogar futebol e, de repente, vimos quatro barcos cheios de pessoas. Assustados, corremos para o bairro e falámos com os policiais comunitários. Estes foram fazer a triagem e, afinal, tratava-se de deslocados internos, várias mulheres e muitas crianças. A polícia chamou-nos para ajudarmos e estivemos três dias nesse apoio. Tive, então, a ideia de pedir ajuda aos familiares e amigos de pão e açúcar para chá para distribuirmos. Intensificaram-se as chegadas: 386/427/780/1000/2980 ao dia…

Foi quando começámos a ver aparecer as ONG, a Cáritas, a UNICEF, etc.

Não parámos. Lançámos campanha de fundos e fizemos sempre questão em apresentar contas, mostrar no Facebook como era aplicada a ajuda, conversar com os doadores as necessidades concretas das pessoas que contactávamos. A cidade começou a fazer confiança em nós. Estamos a querer legalizar a associação, mas as dificuldades que nos surgem são muitas, há sempre um obstáculo…

Pemba. Cabo Delgado. Moçambique

“A juventude de Cabo Delgado aspira a uma nova ordem que supere a pobreza e as injustiças gritantes e quer agir com ética.” Foto © Associação Kuendeleya.

Não desistimos! A juventude de Cabo Delgado aspira a uma nova ordem que supere a pobreza e as injustiças gritantes desta sua terra e quer agir com ética, ensinando-a aos mais novos.

O nosso grupo-alvo são crianças, mulheres grávidas, idosos e mães em idades muito jovens, sobretudo pessoas mais vulneráveis.

Kuendeleya significa Prosseguir-Desenvolver-Continuar nas línguas nativas: muani, macua, suaíli e maconde.

 

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