Solidariedade com Cabo Delgado (5): Oikos, integrar os deslocados enquanto tarda uma solução política

| 15 Abr 21

Oikos, Moçambique, Cabo Delgado, crianças

Desde 2009 que a Oikos tem representação permanente em Cabo Delgado. “Seria impossível não responder à emergência e crise humanitária no Norte de Moçambique.” Foto © Oikos

 

Estando a tardar uma solução política para a situação em Cabo Delgado, como constata a Oikos, torna-se ainda mais importante o amplo trabalho humanitário na província moçambicana. O 7MARGENS tem escutado instituições e organizações não governamentais que estão no terreno para saber como é que elas vêem o que se está a passar, que trabalho desenvolvem e o que podem os portugueses fazer para ajudar os moçambicanos desta zona.

Depois do padre Jorge Vilaça, do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga; de Catarina Martins Bettencourt, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre; de Carlos Almeida, coordenador nacional da Helpo; e de Abudo Gafuro, presidente da Associação Kuendeleya; ouvimos Marisa de Freitas David, coordenadora de comunicação da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento.

Como vê a Oikos a situação em Cabo Delgado?

A Oikos tem consciência que este problema requer uma solução política que está a tardar. Enquanto essa solução não for encontrada, que permita que as pessoas se sintam em segurança nas suas casas, as pessoas procurarão essa segurança fora das suas comunidades. Mesmo que a procura dessa segurança represente, igualmente, um risco pela ausência de estruturas para receber, acomodar e assistir estas pessoas condignamente.

Moçambique é país do coração da Oikos. Além de tudo o que liga Moçambique a Portugal, este foi um dos primeiros países onde a Oikos estendeu a sua atividade internacional, trabalhando no combate à fome, redução da pobreza e melhoria da vida de milhões de pessoas no país há mais de 30 anos.

Desde 2009 que temos representação permanente em Cabo Delgado, Montepuez. Seria impossível não responder à emergência e crise humanitária no Norte de Moçambique, que está perto de atingir as 800 mil pessoas. Numa primeira instância, estamos a integrar pessoas deslocadas nas comunidades onde trabalhamos na área da segurança alimentar e a coordenar com as Nações Unidas e parceiros dos clusters de ajuda humanitária para contribuir na resposta de emergência.

Cabo Delgado, Moçambique, mulheres, Oikos

Cabo Delgado é uma zona de insegurança alimentar aguda e a maioria das famílias muito pobres esgotou as suas reservas de alimentos. Foto © Oikos


Que ações está a OIKOS a empreender para ajudar as vítimas?

O que estamos já a fazer:

  • A Oikos está a apoiar a integração de pessoas que chegam à procura de abrigo e proteção em Famílias de Acolhimento nas comunidades onde trabalhamos na área da segurança alimentar.

 

  • Esta é uma zona de insegurança alimentar aguda e a maioria das famílias muito pobres esgotou as suas reservas de alimentos. Nestes lares, onde já faltava principalmente comida, as famílias tentam alimentar 3 a 4 vezes mais pessoas dentro do seu lar.

 

  • Para fugir aos ataques no Norte de Moçambique, as pessoas chegam a andar mais de 450km e a ficar uma semana no mato sem água potável ou alimentação até encontrarem uma zona de abrigo segura. Com muita proximidade e trabalho conjunto da Oikos com as autoridades locais, estamos a apoiar as pessoas que chegam a encontrarem familiares na região. Já proporcionámos centenas de reencontros em 5 distritos diferentes: Montepuez, Chiure, Ancuabe, Namuno e Balama. Este encontro não só é fundamental ao nível do suporte emocional como as pessoas podem assim ser acolhidas em família, evitando os centros de acolhimento temporários com carências ainda maiores.

 

  • Suporte a mulheres. Fruto de um trabalho longo da Oikos com pequenos produtores locais, conseguimos apoio para integração em comunidades rurais de mulheres com entrega de bicicletas, roupa e telemóveis para contacto com família. As bicicletas estão a ser um importante meio de suporte aos centros de acolhimento. Foram ainda entregues baldes com torneira para água potável para utilização de cerca de 2600 pessoas.
Oikos, Moçambique, Cabo Delgado, crianças.

Oikos está a apoiar a integração de pessoas que chegam à procura de abrigo e proteção em Famílias de Acolhimento. Foto © Oikos.


Próximos passos para os quais estamos a reunir apoios institucionais e individuais
  • Apoio aos centros de acolhimento onde falta de tudo para suprir as necessidades básicas: alimentação, higiene (ainda mais no contexto da covid) e abrigo de primeira necessidade como lonas e esteiras.

 

  • Apoio continuado às famílias de acolhimento, que evitam grandes concentrações no centro e proporcionam melhores condições de vida e reinserção das pessoas deslocadas, muitas vezes da sua própria família chegadas em fuga. Estas famílias já são por si muito pobres e com graves carências. Assim, é urgente o apoio com cabazes de alimentação de reforço, conjuntos de higiene e limpeza e ainda conjuntos para família que asseguram que a Oikos possa distribuir materiais essenciais na proteção e abrigo de uma família em primeira instância como cobertores, esteiras de dormir de fibra natural e utensílios de cozinha.

 

Como podem os portugueses ajudar?

A melhor forma de poder ajudar localmente a situação em Moçambique é fazer um donativo para uma organização que esteja no terreno e seja da sua confiança.

Bem sabemos que, à distância, muitos de nós gostaríamos de poder juntar roupas, comida, produtos de higiene. Mas os custos de transporte e logística são gigantescos: toda a organização de recolha, organização e separação de bens e quantidades. Agora pense em todo esse tempo, energia e dinheiro aplicados diretamente no local – mais uma vez, por uma Organização em que confie e com provas dadas do seu trabalho.

Os produtos e bens não só têm um custo totalmente diferente como estamos ao mesmo tempo a apoiar e a estimular a economia local! E estamos a cobrir as necessidades exatas das pessoas, como as lonas corretas para abrigo, as esteiras de chão, os baldes com torneira dispensadores de água potável, entre muitos outros.

É esta a forma de intervenção que a Oikos acredita. O nosso apoio em emergência é suportado nas necessidades locais exatas e seguindo os padrões recomendados pelos parceiros de Ajuda Internacional e Autoridades Locais, com total adequação ao tipo de bens alimentares e não alimentares a distribuir.

O apoio ao trabalho de emergência da Oikos em Moçambique pode ser concedido acedendo a https://www.oikos.pt/donate.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito novidade

As proibições teológicas souberam gerar meios de liberdade para mercadores e intelectuais, como seguros e universidades. A antiga cultura sabia que bem precioso, mesmo divino, era o conhecimento e protegia-o do lucro. Agora, na lógica do capitalismo, vêem-se apenas custos e benefícios. Este é o décimo quinto dos textos da série de crónicas que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábados, da autoria de Luigino Bruni.

Breves

“Tragédia brasileira: risco para a casa comum?” novidade

  Entre os dias 4 e 6 de Maio (terça a quinta-feira), um seminário internacional que se realiza em formato digital irá debater se a tragédia brasileira é um risco para a casa comum, numa iniciativa de várias organizações religiosas, de defesa dos direitos humanos...

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

APAV lança vídeo sobre violência sexual contra crianças

A APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima acaba de lançar o primeiro de um conjunto de vídeos que visam a prevenção da violência sexual contra crianças e jovens, procurando capacitar as pessoas sobre estes crimes e a informá-las sobre como pedir ajuda.

Xexão (um poema e uma evocação em Lisboa)

No 30º dia após o falecimento de Maria da Conceição Moita, a comunidade da Capela do Rato, em Lisboa, vai celebrar, a 30 de Abril, às 19h, eucaristia evocando a sua vida. Tendo em conta as regras de segurança em vigor, e o número restrito de lugares na capela, é necessária uma inscrição prévia, que deve ser feita na página digital da Capela do Rato.

Quebra de receitas da principal Igreja financiadora do Vaticano

A Igreja Católica alemã, que é líder no contributo que dá habitualmente para as despesas da Santa Sé (juntamente com a dos EUA), teve “um verdadeiro colapso” nas receitas, em 2020, segundo dados divulgados pelo jornal Rheinische Post, citados por Il Messaggero.

Entre margens

O desaparecimento dos gigantes da fé novidade

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram. O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.

Alma mutilada novidade

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar

José Augusto Mourão… o frade, poeta e professor

Fazemos memória, nesta quarta-feira, 5 de maio, do décimo aniversário da partida para o Senhor de frei José Augusto Mourão op. Nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de junho de 1947, deixou-nos aos 64 anos. Conheci Frei Mourão quando, há já muitos anos, comecei a participar nas eucaristias do Convento de S. Domingos de Lisboa, levado pelo meu amigo Luís de França, também ele frade dominicano, entretanto já desaparecido do meio de nós

Cultura e artes

Alusões a um corpo ausente novidade

Cada pessoa que fizer uma evocação de José Augusto Mourão fá-lo-á de um modo diferente. O percurso biográfico de Mourão presta-se a essa pluralidade quase heterodoxa, diferente das narrativas oficiais com as quais se canoniza uma vida e uma determinada biografia da mesma.

Flannery O’Connor e “Um Diário de Preces” novidade

Flannery O’Connor foi uma escritora norte-americana (1925-1964), falecida aos 31 anos de lúpus, doença degenerativa precocemente diagnosticada (aos 12 anos) e que, depois de lhe terem sido dados cinco anos de vida, Flannery conseguiu, com uma vontade indomável, prolongar por mais 10 anos. Católica convicta, viveu em Savannah, na Geórgia, no sul protestante e conservador. Escreveu sobretudo sobre a decadência do sul da América. Fez uma licenciatura em Inglês e Sociologia e uma pós-graduação através de um writer’s workshop (oficina de escrita) na Universidade de Iowa. Escreveu 32 contos e dois romances.

O teatro da vida na leitura cristã de Luís Miguel Cintra

A revista E, do Expresso, deste fim-de-semana traz em várias páginas a súmula de mais de duas horas de conversa de Luís Miguel Cintra com a jornalista Luciana Leiderfarb, com as imagens da objetiva do repórter António Pedro Ferreira. Destaca-se dela não só uma grande personalidade do teatro, mas também uma pessoa de enorme sensibilidade e riqueza humanas.

Verbalizar o desejo

Em Rezar de Olhos Abertos, José Tolentino Mendonça assume a missão de guiar o crente e a comunidade (alguns textos surgem nesse contexto) na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda.

Sete Partidas

O regresso à escola má

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This