Solidariedade com Cabo Delgado (6) – Médicos Sem Fronteiras: A violência dificulta que a ajuda chegue onde é precisa

| 2 Mai 21

A situação que se vive nos últimos meses agravou uma crise humanitária já negligenciada, diz a organização Médicos Sem Fronteiras. Foto © MSF.

 

Apesar de um constante agravamento, a situação em que vive a população de Cabo Delgado não tem merecido atenção do Presidente da República e do governo de Moçambique, incapazes até de remediar o sofrimento de milhares de refugiados. Disso se têm encarregado diversos organismos. O 7MARGENS tem escutado instituições e organizações não governamentais que estão no terreno para saber como é que elas vêem o que se está a passar, que trabalho desenvolvem e o que podem os portugueses fazer para ajudar os moçambicanos desta zona.

Depois do padre Jorge Vilaça, do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga; de Catarina Martins Bettencourt, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre; de Carlos Almeida, coordenador nacional da Helpo; de Abudo Gafuro, presidente da Associação Kuendeleya; e de Marisa de Freitas David, coordenadora de comunicação da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, publicamos a seguir as respostas de Dulce Furtado, assessora de imprensa da organização não governamental Médicos Sem Fronteiras. 

 

Como vê a Médicos Sem Fronteiras a situação em Cabo Delgado?

A organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) considera que o conflito em Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, apesar de ser reconhecido internacionalmente, agravou uma crise humanitária já negligenciada. Com a atenção que está a ser dada quase exclusivamente ao “combate ao terrorismo”, as soluções que estão a ser propostas podem mais uma vez descurar a necessidade urgente de salvar vidas e aliviar o sofrimento das comunidades afetadas pelo conflito.

As razões para o conflito podem ser multifacetadas e complexas, mas as consequências da violência são notavelmente simples: medo, insegurança e falta de acesso às necessidades básicas de sobrevivência, incluindo comida, água, abrigo e cuidados urgentes de saúde.

A violência em Cabo Delgado está também a dificultar o acesso dos trabalhadores humanitários aos locais onde mais são precisos, o que faz com que a escala da resposta humanitária seja largamente superada pela escala das necessidades. O que parece estar a ganhar escala é o conjunto de operações antiterrorismo financiadas regional e internacionalmente e que podem ter um impacto ainda maior nas populações vulneráveis.

 

Que acções está a Médicos Sem Fronteiras a empreender para ajudar as vítimas?

A MSF tem ativadas respostas de emergência em várias localidades na província de Cabo Delgado com o propósito de prestar assistência médica e humanitária às populações deslocadas pelo conflito – que se arrasta desde 2017 – e as quais procuram refúgio nos acampamentos de deslocados internos, assim como às comunidades anfitriãs que acolhem as pessoas deslocadas internamente. Mais de 670 mil pessoas tiveram já de fugir para salvar a vida em Cabo Delgado. Foram destruídas casas, escolas, hospitais, modos de subsistência e as populações estão a viver em condições terríveis e em sobrelotação nos locais para onde afluriam em busca de segurança, e onde falta acesso a cuidados médicos e o acesso a água potável e saneamento, assim como a alimentos, é muito limitado.

Há uma preocupação premente com os riscos de propagação de doenças como a cólera e a malária, com infeções respiratórias e com desnutrição aguda, sobretudo entre as crianças. Equipas da MSF estão a trabalhar em Mueda, Nangade, Montepuez, Macomia e na capital da província, Pemba, com o propósito de ajudar a colmatar as necessidades médicas das populações em fuga da violência, que teve o mais recente foco intenso nos finais de março na cidade de Palma, forçando uma vez mais as pessoas a fugirem, muitas para as matas, ficando dias sem comer nem beber nada.

A par da prestação de cuidados médicos e de promoção de saúde, a MSF desenvolvem também apoio em saúde mental, para ajudar as pessoas a lidarem com as experiências traumáticas pelas quais passaram e a conseguirem prosseguir na sua jornada.

 

Como podem os portugueses ajudar?

Em Portugal podem ser feitos donativos pontuais à Médicos Sem Fronteiras, para já ainda apenas pela via internacional online: https://donate.msf.org/?country=PT. Os recursos arrecadados desta forma ajudam financeiramente a MSF a continuar a providenciar assistência médica de emergência, de forma independente e imparcial, às pessoas afetadas por conflito armado, epidemias, desastres naturais e em exclusão de acesso a cuidados de saúde. A MSF define as respostas de emergência com base nas necessidades existentes nas populações.

 

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