Solidariedade com Cabo Delgado (7): A revolta e a impotência da irmã Mónica Rocha perante a tragédia

| 11 Mai 21

Embora não se encontre na zona de conflito em Cabo Delgado (Norte de Moçambique), a irmã Mónica Rocha, das Irmãs Reparadoras de Fátima, partilha as consequências do que ali ocorre. Por isso, aceitou prestar ao 7MARGENS um testemunho sobre o que se passa na zona em que vive e acolhe os muitos que constantemente chegam da província vizinha..

Cabo Delgado, Moçambique, mulheres, Oikos

As populações deslocadas chegam até à cidde de Lichinga, capital da província do Niassa, vizinha de Cabo Delgado. Foto © Oikos

 

A resiliência de um povo

Estamos em Lichinga, no bairro da Cerâmica, 454 km para leste de Cabo Delgado, junto ao lago Niassa e à fronteira com o Malawi. Nesta diocese, há mais de 1.100 pessoas deslocadas, estando mais de metade aqui em Lichinga. No nosso bairro da Cerâmica, temos mais de 60 pessoas a viver em casas que a população local disponibilizou, para estas famílias viverem durante um tempo, até se conseguirem organizar.

A minha visão de toda esta situação é de revolta e impotência. Revolta, por ver que não se está a fazer o suficiente para colocar um fim a estes conflitos, que continuam a matar, a massacrar, a decapitar, etc… Os testemunhos são muitos, e os horrores descritos incompreendidos, numa sociedade evoluída que defende os direitos humanos. Como é possível decapitar um ser humano e arrancar as cabeças para expô-las como suporte de uma panela para cozinhar?… E como é possível matar um ser humano e obrigar outro ser humano a comer dele?… Estes são relatos de pessoas que conseguiram fugir, mas para trás deixaram uma vida, uma história, uma família, amigos, um emprego… Agora, para recomeçar, precisam de ajuda e essa ajuda não está a ser dada pelo Governo a muitos deles.

Sinto impotência, por não poder fazer mais por estas pessoas, que inocentemente foram apanhadas no meio de um conflito, o qual se tenta justificar atribuindo culpados; mas, na realidade, a verdade é camuflada e o medo de falar e expor o que realmente se passa é muito.

A liberdade de expressão não é possível ainda em Moçambique e este conflito comprova isso. Muitos que já tentaram de alguma forma denunciar e mostrar o que realmente se passa foram silenciados.

São momentos como estes, relatos que escutamos na primeira pessoa, de quem conseguiu fugir, mas vive angustiado sem saber notícias de quem se perdeu no caminho ou não conseguiu fugir, que nos fazem pensar o quanto a vida é preciosa e frágil.

A resiliência deste povo e a força de vontade em recomeçar é visível; contudo, quando se fala na possibilidade de voltarem para Cabo Delgado, todos recusam. Até a possibilidade de serem alojados num espaço mais distante daqui e mais perto de onde saíram é negada por todos com a justificação de que estarão mais perto de Cabo Delgado e tal possibilidade é rejeitada por todos.

Neste momento, com o fim da época chuvosa, é a altura ideal para construírem casas e trabalharem os terrenos para produzirem alimentos. Neste sentido, para além da ajuda mensal que procuramos dar em alimentos básicos como a farinha, o óleo, o arroz e o feijão, neste momento gostaríamos de ajudar também na construção das casas.

O testemunho deste povo sofredor é para mim motivo de reflexão: como pode o ser humano ser tão desumano, no caso dos insurgentes, e como pode o ser humano ser tão resiliente, no caso dos deslocados?

A ajuda neste momento mais importante, segundo também o pedido dos próprios deslocados, passa pela aquisição de um terreno, que estamos a tentar que seja dado pelo Governo; posteriormente, serão necessárias a construção de casas e a aquisição de materiais para a agricultura.

Para tal, é necessária ajuda e ela poderá ser feita mediante o valor que cada pessoa possa dar; com o contributo de todos, poderemos conseguir ajudar algumas destas famílias a recomeçar a viver com esperança e em paz.

Deixo o meu apelo a todos aqueles a quem esta mensagem chegar e que possam dar um pouco do que têm, para que o pouco de cada um se torne no suficiente para colmatar algumas destas necessidades…

 

As Crianças em Lichinga, na missão das Irmãs Reparadoras, em Moçambique. Foto © Irmãs Reparadoras

 

Como ajudar

Canalizados para Moçambique através da Socialisresp, Solidariedade Reparadora, os donativos podem ser efectuados por transferência bancária para o IBAN PT50 0035 0442 0003 1265 930 41, da Caixa Geral de Depósitos.

A Socialisresp é uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, cuja missão é prestar serviços de apoio de natureza moral e material a pessoas que dele careçam, desenvolvendo atividades de protecção à infância e juventude preferencialmente em países onde trabalham as Irmãs Reparadoras de Fátima.

O comprovativo de transferência deve ser enviado para socialisrep@gmail.com para posterior envio de recibo.

 

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