“Sombra Silêncio” – poesia para vigiar o Mistério

18 Mar 19Cultura e artes, Literatura e Poesia, Newsletter, Últimas

Assim descreve Carlos Poças Falcão, numa breve nota final, os poemas reunidos em Sombra Silêncio: «Cançonetas de um Verão que logo passam, mas que para sempre ficam ligadas à memória mítica de um rosto, de um clima, de um lugar – assim estes poemas. Em caso algum me biografei. Mas em todos eles me vejo e me estranho.»

Trata-se de uma obra que merece aqui ser invocada, chamada para o espaço de leitura, de escuta e de conversação. O poeta vimaranense oferece-nos nestes poemas, numa linguagem sóbria e despojada, um caminho de entrega e confiança pessoal onde Deus surge como um tu, em ritmo e entoação sálmica. O desejo de oração e de escuta entrecruza-se com a nostalgia de um espaço de silêncio e de confiança, onde o corpo e os sentidos são uma abertura ainda por purificar na busca do Mistério.

«Se conseguisse apenas caminhar, quando caminho;/ apenas inspirar e expirar; orar apenas,/ em estado de oração – seria um vivo; os meus sentidos/ noticiavam Deus ao mesmo Deus, em transparência»

 «Daqui, deste ruído, serei eu, Senhor, capaz/ de te ouvir? Parece que meus olhos são mais prontos/ a ver só as fissuras, os derrames e as úlceras/ que assomam dos infernos – mas estão cegos para ti/ embora tu os limpes, lhes dês luz e os procures.»

Nota-se um registo pessoal, de leitura do percurso já feito, meditado, em que a noite e o dia se entrelaçam numa sociedade em que o brilho das luzes e o ruídos das comunicações pedem um outro tipo de olhar e de escutar, de palavras e de gestos. O Mistério revela-se como Sombrae Silêncio, apontando-nos páginas bíblicas como a do episódio de Elias na montanha (1Reis 19, 12), ou da Anunciação a Maria (Lucas 1, 35). Mas nestas páginas somos reconduzidos também, por exemplo, à poesia de Fernando Echevarría, ao Diário de Dag Hammarskjöld ou às lúcidas análises de Eduardo Lourenço.

«Neste humanismo abafa-se – e não sem um tremor/ armamo-nos dos verbos de um programa insubmisso:/ calar e apagar, desconectar, desaparecer./ Manda a democracia que falemos? Nós calamos./ Exige o espectáculo mais brilho? Apagamo-nos./ Devemos estar em rede e ao serviço? Desligamo-nos./ A Coisa Absurda chama-nos? Ah, não comparecemos!» 

Nos ritmos preenchidos e aparentemente caóticos do quotidiano, a poesia surge-nos como um convite à simplicidade da linguagem, à leitura demorada das letras e dos sinais, à vigilância diante do Mistério que visita o nosso real. Sombra Silênciocontém, sem dúvida, esse convite.

«Foi numa dessas horas que descobri que Deus/ não passa bem sem mim – o que não me indigna/ e também não me alivia da grande liberdade. Afinal/ ser homem para Deus é o sabor inicial.»

Sombra Silêncio, de Carlos Poças Falcão; Ed. Operaomnia, Guimarães, 2018, 64 páginas.

Artigos relacionados

Breves

Freira Indiana apela ao Vaticano contra a sua expulsão da ordem

A irmã Lucy Kalappura, da Congregação das Irmãs Clarissas Franciscanas, que protestou contra o bispo Franco Mulakkal devido à suposta acusação de violação de uma freira, apela ao Vaticano que evite a sua expulsão da ordem a que pertence, depois de lhe terem sido instauradas alegadas “ações disciplinares”.

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

Bicentenário do Báb, “Manifestante de Deus” e fundador da Fé Bahá’í novidade

Uma das particularidades da religião bahá’í é ter na sua origem dois Profetas: o Báb e Bahá’u’lláh. E se na terminologia bahá’í os fundadores das grandes religiões mundiais são referidos como “Manifestantes de Deus” (porque manifestam características divinas), a origem dupla da Fé Bahá’í levou alguns autores a referir os seus fundadores como “Manifestantes Gémeos”.

A crise do capital, uma doença demolidora

Tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população.

Cultura e artes

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Uma exposição missionária itinerante, porque “parar é retroceder”

Um altar budista do Tibete; uma barquinha em chifres, de Angola; um calendário eterno dos aztecas; crucifixos de África ou da Índia; uma cuia da Amazónia; uma mamã africana e uma Sagrada Família, de Moçambique; uma placa com um excerto do Alcorão; e um nilavilakku , candelabro de mesa indiano – estas são algumas das peças que podem ser vistas até sábado, 19 de Junho, na Igreja de São Domingos, em Lisboa (junto ao Rossio).

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco