“Sombra Silêncio” – poesia para vigiar o Mistério
Assim descreve Carlos Poças Falcão, numa breve nota final, os poemas reunidos em Sombra Silêncio: «Cançonetas de um Verão que logo passam, mas que para sempre ficam ligadas à memória mítica de um rosto, de um clima, de um lugar – assim estes poemas. Em caso algum me biografei. Mas em todos eles me vejo e me estranho.»
Trata-se de uma obra que merece aqui ser invocada, chamada para o espaço de leitura, de escuta e de conversação. O poeta vimaranense oferece-nos nestes poemas, numa linguagem sóbria e despojada, um caminho de entrega e confiança pessoal onde Deus surge como um tu, em ritmo e entoação sálmica. O desejo de oração e de escuta entrecruza-se com a nostalgia de um espaço de silêncio e de confiança, onde o corpo e os sentidos são uma abertura ainda por purificar na busca do Mistério.
«Se conseguisse apenas caminhar, quando caminho;/ apenas inspirar e expirar; orar apenas,/ em estado de oração – seria um vivo; os meus sentidos/ noticiavam Deus ao mesmo Deus, em transparência»
«Daqui, deste ruído, serei eu, Senhor, capaz/ de te ouvir? Parece que meus olhos são mais prontos/ a ver só as fissuras, os derrames e as úlceras/ que assomam dos infernos – mas estão cegos para ti/ embora tu os limpes, lhes dês luz e os procures.»
Nota-se um registo pessoal, de leitura do percurso já feito, meditado, em que a noite e o dia se entrelaçam numa sociedade em que o brilho das luzes e o ruídos das comunicações pedem um outro tipo de olhar e de escutar, de palavras e de gestos. O Mistério revela-se como Sombrae Silêncio, apontando-nos páginas bíblicas como a do episódio de Elias na montanha (1Reis 19, 12), ou da Anunciação a Maria (Lucas 1, 35). Mas nestas páginas somos reconduzidos também, por exemplo, à poesia de Fernando Echevarría, ao Diário de Dag Hammarskjöld ou às lúcidas análises de Eduardo Lourenço.
«Neste humanismo abafa-se – e não sem um tremor/ armamo-nos dos verbos de um programa insubmisso:/ calar e apagar, desconectar, desaparecer./ Manda a democracia que falemos? Nós calamos./ Exige o espectáculo mais brilho? Apagamo-nos./ Devemos estar em rede e ao serviço? Desligamo-nos./ A Coisa Absurda chama-nos? Ah, não comparecemos!»
Nos ritmos preenchidos e aparentemente caóticos do quotidiano, a poesia surge-nos como um convite à simplicidade da linguagem, à leitura demorada das letras e dos sinais, à vigilância diante do Mistério que visita o nosso real. Sombra Silênciocontém, sem dúvida, esse convite.
«Foi numa dessas horas que descobri que Deus/ não passa bem sem mim – o que não me indigna/ e também não me alivia da grande liberdade. Afinal/ ser homem para Deus é o sabor inicial.»
Sombra Silêncio, de Carlos Poças Falcão; Ed. Operaomnia, Guimarães, 2018, 64 páginas.
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