As casas eram construídas pelos nubentes e seus amigos. O material utilizado era o adobe, isto é tijolos de barro e areia, secos ao Sol, o que constituía a opção mais económica, sendo também ecológica.
Casa da terra natal!
Onde estás exactamente?
Neste cantinho bendito
Ou na alma da nossa gente?
Casa da terra natal!
Que de madrugada
O Sol te abraça contente,
E vês o Céu estrelado
Quando ele se põe a poente.
Oh!, Céu da terra natal!
Oh! Estrelas do Céu da terra natal!
Quantas vezes vos olhei!
Quantas vezes vos amei!
Quantas vezes me aconcheguei
No vosso manto protector?
Quantas vezes deslizei
E em vós me reencontrei!
Amo-vos!
Vede!
Como choro de emoção!
Aqui,
Casa da terra natal,
Nos descobriremos,
Com a Natureza
Nos extasiaremos
E de Humanidade
Transbordaremos.
Aqui,
Casa da terra natal
Mais sementes germinarão
Mais vidas florescerão.
Aqui,
Casa da terra natal,
Onde respiramos Universo,
Que está no nosso coração! [1]

Um canto da casa, quase encoberto pela laranjeira. Foto: DR
Quando os noivos entravam na sua casa, tinham tudo anotado no ´rol das visitas´: fulana deu uma galinha, sicrana deu meia dúzia de ovos, beltrana deu um alqueire de milho…quando estas dadoras se casassem eram-lhes devidos aqueles alimentos.
As duas divisões principais da casa eram:
– a casa de fora, isto é, sala de visitas, onde a mãe apenas fazia a limpeza, dava corda ao relógio e abria para a visita pascal;

Relógio de corda da casa, adquirido em 1949, à Boa Reguladora. Foto: DR
– a cozinha, onde todas as tarefas domésticas se faziam, as nossas refeições (sopa e broa), a comida dos animais e se convivia à noite à volta da lareira. Os móveis principais eram o arquibanco e a cantareira. O primeiro permitia, guardar por baixo, cereais e outros ingredientes necessários à culinária, e por cima servia para nos sentarmos. A cantareira, um móvel também típico, tinha três compartimentos, no inferior guardava-se louça maior como panelas, o intermédio era ocupado pelos cântaros e o superior era reservado para louça delicada.

Notar o formato da parte em que estão os cântaros, carpinteirado, de forma que pudessem ser inclinados, para facilitar a retirada de água para beber e cozinhar. O uso da lanterna, deve-se à falta de electricidade. Foto: DR
Naquela visita, acompanhado por homens de opa vermelha, o padre M. Veríssimo, a quem expresso a minha profunda, sentida e muito devida gratidão, entrava pela casa dentro “Maria, Maria!” “A Paz seja nesta casa e em todos os que nela habitam!” Dávamos sempre um beijinho a Jesus na Cruz. Havia cheiro a alecrim espalhado pela casa e pelos caminhos cobertos de junco, para além de que, mais tarde, as mulheres cobriam a Cruz com flores. Não posso deixar de associar o crucifixo florido à pensada visão do jardineiro por Maria Madalena (Jo 20:15) ou ao sonho de C. Jung (1875 -1961), em que Cristo estava banhado por uma luz brilhante, sendo o seu corpo esverdeado. “Era a procura do Espírito, para aceder às energias espirituais transformadoras que se encontram nas profundezas da alma humana e do corpo da Terra”. [2] Ainda as palavras de Miguel de Unamuno (1864 – 1936) nos remetem para a alegria da Páscoa, para a Paz e para a passagem da morte para a Vida : “…el Cristo portugués anda por costas, y prados y montañas, con la gente del pueblo – se ríe con ellos, merienda y cuando en cuando, para llenar su papel, se cuelga un rato de la cruz.” [3]
Quando a azáfama agrícola apertava mereciam-se dias, isto também era uma troca de trabalho entre amigos, uns iam trabalhar para os outros, e.g. numa colheita ou numa vindima, trabalho esse que seria depois retribuído. Tudo combinado com a maior sensatez e alegria. Que bom pensar como aquele povo, embora quase analfabeto, prescindia de patrões!! E lembro as palavras do Papa Francisco “A Terra, que é Mãe para todos, pede que a respeitemos e que não a tratemos com violência ou, pior ainda, com arrogância de patrões”.
No dia da desmancha do porco ou da marrã, eram separados pedaços de carne e morcelas por pequenos alguidares, que eram levados a outras famílias, as quais depois retribuiriam, se possível. Era a prática do que ouvi em 13 de Junho de 2025, a A. P. Monteiro “Somos o que os outros não acumularam no alqueire”.
[1] Aldina Brás: PHILIA, Edição da SPA, 2024. Notar que substitui o nome da paróquia por terra natal.
[2] JP Newell: THE GREAT SEARCH. TURNING TO EARTH AND SOUL IN THE QUEST FOR HEALING AND HOME. Wild Goose Publications, 2024
[3] Miguel de Unamuno: POR TIERRAS DE PORTUGAL Y DE ESPAÑA. Edição Alianza Editorial, 1911
Maria Aldina Brás, trabalhadora rural na infância e adolescência, geneticista médica e Professora aposentada da UNL. Autora de dois curtos E-books/PODs editados pela SPA: VIDA e PHILIA. Autora/coautora de múltiplos artigos científicos cf. ResearchGate e novaresearch.unl.pt. Católica, mãe e avó.
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