“Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseje debaixo do céu”
(Eclesiastes 3,1)
“A vida é algo calmo, amigo, simples. O impulso é pressa e perseguição.
Impulso de ter vida de imediato, totalmente, no espaço de uma hora.
Disso está Paris tão cheia que por esse motivo está tão próxima da morte.”
(Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas. Assírio & Alvim, 2020, pág. 20)
“Não é o futuro, mas o passado que constitui o verdadeiro espaço de possibilidades.”
(Judith Schalansky, Inventário de Algumas Perdas.Elsinore, 2021, pág. 22)
Vivemos, actualmente, num mundo global de avanço tecnológico sem precedentes. As distâncias encurtaram, com um simples clique somos constantemente informados sobre tudo o que se passa no planeta, as máquinas facilitaram a dureza do trabalho, a Inteligência Artificial permite desempenhar tarefas cada vez mais complexas e trouxe grandes avanços na ciência e na saúde, a riqueza aumentou a nível global, vamos conhecendo os mistérios do Universo com as viagens planetárias e os satélites colocados em órbita.
Paul Virilio, filósofo francês, já em 1984, a propósito do progresso tecnológico, alertou para o perigo de o ser humano poder ser dominado ou instrumentalizado pela tecnologia. “O problema não está no uso da tecnologia, mas na compreensão de que se está a ser usado por ela”. (1)
Com efeito, a globalização e o avanço tecnológico, apesar dos benefícios e da espantosa revolução que foi a Inteligência Artificial, não trouxeram a felicidade que se esperava. A escassez de tempo é uma das grandes questões da sociedade actual, o que constitui um paradoxo, porque o progresso tecnológico deveria ter aumentado o tempo disponível.
Dimensões do tempo em conflito

“Segundo Hartmut Rosa, há uma desconexão entre o ritmo acelerado do mundo e o ritmo da existência individual, o que leva a sociedades arrítmicas. Segundo ele, a aceleração do ritmo de vida leva a uma contracção do tempo. Por isso “fazemos mais coisas em menos tempo.” Foto © Kevin Ku / Unsplash
Somos tempo. Tudo acontece no tempo. Há um tempo objectivo marcado pelos ponteiros do relógio que pode ser quantificado e igual para todos, e há um tempo subjectivo, qualitativo, que é o tempo vivido, o tempo das nossas vivências, que nos dá a experiência da passagem do tempo, e que não é igual para todos.
O sociólogo alemão Hartmut Rosa é um dos académicos que mais tem estudado a crónica falta de tempo que caracteriza a nossa época, e que ele considera ser consequência da «aceleração social» que tem acompanhado as mudanças no mundo. Na sua obra Social acceleration: ethical and politcal consequences of a desynchronized high-speed society (2), Hartmut Rosa analisa o conceito de “aceleração social” na modernidade, não só as suas consequências na transformação das estruturas temporais, mas também as consequências éticas e políticas no mundo e nas nossas vidas.
Segundo este autor, há uma desconexão entre o ritmo acelerado do mundo e o ritmo da existência individual, o que leva a sociedades arrítmicas. Segundo ele, a aceleração do ritmo de vida leva a uma contracção do tempo. Por isso “fazemos mais coisas em menos tempo”. E exemplifica com estudos realizados sobre este tema: “tendência para comer mais depressa, dormir menos, comunicar menos com as nossas famílias” (3).
Para o mesmo autor, o modelo capitalista, com a pressão exercida para mais produção, mais inovação, mais consumismo, é uma das forças impulsionadoras da “aceleração social” porque o ciclo de produção, distribuição e consumo está em constante aceleração. Tudo tem de ser rápido. Este ritmo veloz também se estende à vida afectiva e social: os encontros com os amigos, as relações afectivas, as parcerias sexuais, as quais muitas vezes são episódios de curto prazo que não deixam marcas na personalidade, nem criam vínculos ou laços sociais.
Na sociedade de consumo tudo tem de ser realizado no mais curto espaço de tempo possível porque vivemos numa sociedade de insatisfação permanente. A mesma pressão estende-se à actualização contínua da informação nas redes sociais que, por excessiva e rápida, não dá lugar ao pensamento crítico e à reflexão sobre o que se recebe.
Estado de “alienação”

“Dado que o presente perdeu a relação com o passado e o futuro com o presente, o indivíduo fica “paralisado” numa contínua agitação frenética.” Foto © Ryoji Iwata / Unsplash
Este aumento da velocidade dos nossos ritmos de vida e a correria para nos mantermos informados conduzem-nos a um estado de “alienação” que nos impede de nos relacionarmos com pessoas, com lugares, saberes e informação que mudam a cada instante.
Por outro lado, com esta urgência permanente que leva à escassez de tempo, dada a velocidade da informação e das mudanças, as pessoas são pressionadas a posicionarem-se no presente. O presente dura cada vez menos tempo, quer em termos de conhecimentos, quer em termo de informação. Dado que o presente perdeu a relação com o passado e o futuro com o presente, o indivíduo fica “paralisado” numa contínua agitação frenética. Isto faz crescer uma sensação de instabilidade porque a relação com a memória do passado, é essencial para a construção da nossa identidade e história.
Sem memória, o futuro não é um cumprimento de metas, mas um destino desconhecido, cada vez mais incerto e incontrolável, como acentua Hartmut Rosa. O capitalismo não cria futuro, daí a desorientação.
Este mundo virtual em que vivemos alterou a nossa noção de tempo. Chegamos a um lugar e a um espaço sem que se parta. Para os gregos o tempo era circular, ou seja, um ciclo de eterno retorno. O cristianismo mudou a noção de tempo. O tempo é linear, há uma meta nas nossas vidas, há caminhos a percorrer que constituem a verdade e a substância da nossa existência e nos levam a um tempo escatológico, a um tempo além do tempo.
A intensificação da competição na sociedade actual, é outro efeito da aceleração social referido por Hartmut Rosa. A actualização permanente dos saberes e competências profissionais gera sentimentos de fracasso e vergonha naqueles que, em tempo rápido, não podem competir com os outros. O mesmo se aplica às actividades de lazer, as quais, por vezes, são mais um produto de consumo e não uma forma de usufruir da beleza que eleva a nossa alma e nos torna melhores.
Por sua vez, o crescente hiper-individualismo não produz sentimentos de confiança porque não estabelece vínculos sociais e de pertença, na empresa ou em qualquer outra comunidade de trabalho, e cria insegurança que pode mesmo potenciar o insucesso.
A aproximação das distâncias entre os povos, contrariamente ao que se esperava, nem sempre contribuiu para nos aproximarmos uns dos outros e para nos conduzir à hospitalidade. Habituados a passar apressadamente, sem empatia nem interesse pela vida, pelo trabalho e sofrimento dos outros seres humanos, brancos, pretos ou amarelos, africanos, asiáticos ou outros, não vemos neles um irmão, talvez como também o não vemos no rosto do nosso vizinho. Ou, pior ainda, “no mundo fluído, desregulamentado e individualizado, a mudança acelerada e difusa estimulou os sentimentos de insegurança e xenofobia”, como escreve Zygmunt Bauman (4).
Ressonância e recentramento

“Grávida de Felicidade”, de Fernanda Páscoa pormenor
O progresso tecnológico também manteve, ou mesmo criou desigualdades temporais em quantidade e em qualidade entre ricos e menos ricos ou pobres. Os que têm menos rendimentos, consomem mais horas a fazer trabalhos extra, têm casas com menos equipamentos domésticos para facilitar o trabalho, vivem nas periferias, gastam mais tempo para aceder aos transportes e cuidados de saúde. “A pobreza” de tempo verifica-se, igualmente, na falta de tempo para o ócio, para o lazer e para aceder à cultura.
Para escapar a este ritmo acelerado da vida moderna e contrariar o fenómeno de alienação que traz angústia e sofrimento, Hartmut Rosa apresenta-nos o conceito de “ressonância”. A “ressonância” é a resposta ao fenómeno de “alienação” causado pela velocidade dos nossos ritmos de vida, que nos leva a um sentimento de perda de contacto com um mundo em mudança permanente, onde pessoas e lugares correm para todo o lado.
A “ressonância” leva-nos a ter consciência desse tempo alienado e a “recentrar” as nossas vidas, isto é, a escolher o que é mais importante para trazer sentido às nossas vidas e estabelecer uma melhor relação com o mundo e connosco mesmos, “um mundo mais humano… um mundo que responde” o que nos permitiria ter “uma vida boa” (5).
O ideal de “vida boa” e de felicidade evoluiu ao longo dos séculos. No passado, antes mesmo da sociedade capitalista, por influência do cristianismo, o ideal de felicidade era uma vida “rica de experiências e realização das capacidades”, ao longo de um tempo finito até ao tempo escatológico, a um tempo além do tempo.
Na sociedade da aceleração e com a secularização do tempo, a felicidade consiste em “usufruir” o máximo da vida para “apagar a diferença entre o tempo do mundo e o tempo das nossas vidas”. A aceleração moderna do ritmo da vida “representa a resposta actual ao problema da finitude e da morte” (6).
Há sinais de desaceleração. Hartmut Rosa considera que a aceleração tecnológica não foi acompanhada por uma paralela aceleração social, a qual está ligada a mudanças estruturais e culturais. Isto acontece, não por falta de informação ou comunicação, mas por excesso, por indiferença e falta de tempo, porque, muitas vezes, “as pessoas experienciam uma falta de direcção, de prioridades”, de um progresso como “um tempo congelado”, de inércia, apesar do ritmo acelerado de acontecimentos, uma sensação de “fim da História” (7).
Uma nova relação com o mundo, com a natureza, com a Terra, com o tempo, com a memória, com o silêncio
Vivemos na modernidade. Movemo-nos por leis, somos autónomos. Mas o ser humano não é uma máquina, é mais complexo, tem desejos, tem intenções, tem sonhos e emoções.
Temos de aprender a habitar a Terra de uma forma mais humana, cuidar da “casa comum”. É preciso encontrar o que perdemos. Escapar ao vazio e à perda de sentido.
Regressar à memória

“Temos a nostalgia da vida ao ritmo das estações do ano que nos colocam numa temporalidade, dos frutos e das flores, diferentes em cada estação, da liturgia das festas e das celebrações religiosas ou profanas.” Foto: Primavera. © Lopes Morgado
“Somos as nossas memórias, ou seja, somos aquilo que fomos.” (8)
Temos a nostalgia da vida ao ritmo das estações do ano que nos colocam numa temporalidade, dos frutos e das flores, diferentes em cada estação, da liturgia das festas e das celebrações religiosas ou profanas. Sentia-se o perfume das flores e o murmúrio das fontes, e o vento transportava os cheiros do tempo das colheitas, retomados ano após ano.
Voltaremos a ouvir o som límpido dos sinos das igrejas?
Voltaremos a ouvir o suave murmúrio da passagem das nuvens e das “Aves dormindo enquanto flutuam”? (9)
Heidegger diz-nos que precisamos de tornar a olhar o tempo com inocência, regressar ao tempo do espanto que perdemos porque com o avanço da ciência e da técnica somos todos “criadores”, criámos a realidade e perdemos a relação com a Natureza.
É preciso abrir um olhar novo à realidade do mundo em que vivemos, não ter medo da tensão e da confusão que nele habita.
Às vezes, os nossos olhos cansam-se de olhar para cima. Mas nós sabemos que Deus não nos elegeu para a infelicidade. Talvez, numa noite silenciosa, ouviremos uma voz de pássaro, ou um chamamento. Então, abriremos o nosso coração ao genuíno sopro do mundo para recuperar a imagem da sua unidade e do seu mistério.
Regressar ao silêncio e à contemplação

“Na montanha estamos mais perto do céu que nos dá a sua bênção, o ar é mais puro, o tempo é mais lento e sentimos o silêncio de uma paz paradisíaca.Foto: Yakushima, a montanha e o mar ao fundo.” © Teresa Vasconcelos.
Contra o falar vazio e superficial ou mesmo violento da vida quotidiana, José Maria Esquirol propõe o silêncio. “Os maiores rios são os mais silenciosos. O silêncio, é efectivamente, um exercício de saída e de acesso. De saída do que abafa e de acesso à serenidade e à calma”. (10)
Temos de voltar a subir à Montanha.
Na montanha estamos mais perto do céu que nos dá a sua bênção, o ar é mais puro, o tempo é mais lento e sentimos o silêncio de uma paz paradisíaca.
Nas montanhas construíram-se igrejas, mesquitas e mosteiros de peregrinação.
Na montanha Jesus ensinou os discípulos e deixou-nos o sermão das bem-aventuranças, que nos faz, por instantes, esquecer a violência das guerras e o mundo das realidades efémeras, e acreditar que no dia seguinte começará um tempo tão leve, tão leve, como um orvalho benfazejo que desce sobre a terra. Então, não precisaremos de ter medo, é só estar à escuta, perseverar.
Na montanha continuam a passar peregrinos e amantes da natureza para rezar ou apenas para ouvir o silêncio e contemplar a terra banhada na névoa matutina.
Não será a montanha o lugar para a nossa vida neste mundo encontrar a sua forma e os seus limites?
Na montanha não nos sentiremos perdidos e aprenderemos a erguer os olhos e a acalentar esperanças.
E a viver o tempo da espera.
(A ideia da escrita deste artigo partiu das aulas a que assisti de Outubro a Dezembro de 2024, lecionadas pela Prof. Doutora Daniela Monteiro, docente da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP, tendo como tema “Estudos Sociais do Tempo e (Ex)pressões na sociedade”, no âmbito do Curso “Sophia”, da mesma Universidade. Este curso de Extensão Universitária, iniciado em 2013 e destinado a pessoas reformadas e realizado num contexto de diálogo e partilha de conhecimentos, foi um verdadeiro espaço de aprendizagens para nos levar a uma reflexão e um olhar crítico sobre a realidade do mundo em que vivemos.
Para a escrita deste pequeno artigo baseei-me na obra do autor Cartum Rosa, e, a partir das notas que tirei das aulas, desenvolvi algumas das questões sobre o tempo, abordadas pelo autor atrás referido.)
Notas
(1) Ronaldo Queiroz de Morais, Paul Virilio: o pensador do instante contemporâneo. Editora Contexto Educação, 2002.
(2) Constellations, N.º 1, 2003, Blackwell Publishing.
(3) idem, pp. 2,3.
(4) Zygmunt Bauman, Amor Líquido. Relógio d’Agua, 2006, pág. 145.
(5) Cartum Rosa, pág. 550.
(6) Idem, pág. 25.
(7) Ibidem, pág. 13.
(8) Pedro Cabral, Alexandria. RTP2, Novembro de 2024.
(9) Maoma Sheik, Aves Dormindo Enquanto Flutuam. Assírio & Alvim, 2021
(10) Josep Maria Esquirol, A Resistência Íntima. Edições 70, 2020, pág. 30.
Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada, com formação académica na área de Filologia Germânica. Desempenhou alguns cargos políticos e foi presidente da Fundação Cultural Bracara Augusta de 2000 a 2013.










