
Foto: Ajahn Sumedho. © Margarida Melo
Ajahn Sumedho, o monge americano que inaugurou o primeiro mosteiro budista da tradição Theravada no Ocidente, esteve em Portugal, de visita a Sumedharama, o mosteiro na Ericeira batizado em sua honra. Aos 90 anos, as gargalhadas são as mesmas de sempre; a acutilância com que assevera que “somos todos parte da mesma consciência” é cada vez mais fina.
Com os seus 1,90m, voz de barítono e aspeto de “Super Homem”, como dizia a monja Candasiri, é fácil imaginá-lo como mais um tropa americano. É ainda mais fácil imaginar o que seria ver surgir esta figura de pele branca por entre as vestes cor de açafrão e as centenas de monges de pele dourada, que lhe davam pelo ombro, e cuja língua não entendia.
Mas não houve nada, nem sequer os 33ºC e 80% de humidade da floresta da Tailândia, que o tivesse destituído de abandonar o seu propósito: seguir «o caminho do meio», tal como o Buda o ensinou há 2500 anos e Ajahn Chah, aquele que se tornou o seu mestre, encarnava na perfeição.
Talvez a experiência enquanto paramédico durante a Guerra da Coreia o tenha ajudado, pela pior das razões.
Ao fim de décadas de prática, e milhares de ensinamentos, agora ministrados por si, é ainda à sua própria vida que vai buscar histórias para parodiar. “Quando não entendia Thai, todos os monges me pareciam iguais. Depois, quando aprendi, desatei a fazer comparações – «bom, mau, médio» – mas foi então que aprendi a olhar não os seres, mas sim o espaço entre si. E quando entendemos o espaço, esse vazio que, tal como o silêncio, é o vácuo onde, tal como a música, toda a existência se manifesta, ganhamos outra perspetiva”. Tal como se estivéssemos na casa das máquinas a visionar o filme, ao mesmo tempo que visionamos a máquina que o projeta na tela.
É desta forma muito clara que responde a todas as nossas questões – “a guerra”, o “mal”, “quem magoa”, “quem tira”, “quem invade” – “sempre que pensarem nisto, pensem que somos todos parte da mesma consciência”. Com esta aceção, Ajahn Sumedho leva-nos rapidamente a abandonar esse dedo em riste em direção ao outro, mas a torná-lo para nós mesmos, para o nosso interior, e olhar o que alimentamos no nosso coração e na nossa mente. Essa que se conjuga na comunhão do espaço.

‘Om, é o som desse universo. “Somos todos parte da mesma consciência”. Lembremo-nos disto.’ Foto © Sam Willis / Pexels
Poderíamos invocar os avanços da Física, e as conclusões inusitadas da Física Quântica, que vão linearmente de encontro àquilo que Siddharta Gautama pressente sob aquela árvore de Bodhi há cerca de 2500 anos, para confirmar esta aceção de Ajahn Sumedho.
Mas, foi o próprio Buda que nos incitou a não acreditar porque nos dizem, mas porque o experienciamos por nós mesmos. Experimentemos, então. Um cântico. Um cântico que se revela no silêncio: “Om So Hum”. “So” significa “Isto” ou “Universo”; Hum: “Eu”, “Ego individual”. Portanto, a tradução de “So Hum”, em sânscrito, consistirá em qualquer coisa como “Eu Sou Isto”. E no ressoar deste cântico milenar, ao entregarmo-nos a este som primordial, apercebemo-nos que somos todos um, surgimos todos de uma mesma fonte, de um mesmo universo. Om, é o som desse universo. “Somos todos parte da mesma consciência”. Lembremo-nos disto.
Obrigada, Ajahn Sumedho.
Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.










