Sopa de letras

| 7 Abr 21

Se os cristãos fossem hoje a cumprir a Torah à letra estaríamos a apedrejar até à morte os adúlteros e os homossexuais, não poderíamos envergar roupa com incorporação de determinados tipos de tecidos, não podíamos comer um rol imenso de alimentos e satisfaríamos muitos outros interditos, além de guardar religiosamente o sábado, quando ninguém poderia trabalhar.

“Se os cristãos fossem hoje cumprir a Torah à letra estaríamos a apedrejar até à morte os adúlteros e os homossexuais…”  Foto © Sagie Maoz / Wikimedia Commons

 

Qualquer pessoa de bom senso entende que nem todos os textos se podem ler ao pé da letra. É o caso da ficção, que pode transportar o leitor a mundos fantasiosos, pôr falas na boca de personagens imaginárias e inventar paisagens inexistentes. É o caso também da poesia em que o eu poético exprime sentimentos diversos das vivências do autor, onde as palavras são lapidadas como se fossem diamantes e as sonoridades contam.

Mesmo na prosa há figuras de estilo que funcionam como recursos utilizados para melhorar e embelezar o texto, para sugerir ideias, interpretações, sensações. As parábolas bíblicas integram essa estratégia tão cara às culturas antigas, ou as hipérboles que seriam absurdas uma vez levadas à letra. De facto, saber ler um texto tendo em conta o seu estilo literário é o primeiro passo para uma boa interpretação do mesmo.

O literalismo bíblico, porém, recusa a interpretação, ou melhor, impõe sempre uma interpretação literal a menos que não interesse à agenda da ideologia religiosa em questão. Nesse caso tenta desajeitadamente uma incursão para fora do campo da literalidade mas sem qualquer lógica ou enquadramento hermenêutico.

Os textos bíblicos incluem, entre outros estilos, literatura poética, de viagens, histórica, devocional, sapiencial e revelacional, mas também textos jurídicos e um pouco de apocalíptica. Ora, todos estes estilos necessitam de interpretação diferenciada. Por exemplo, ninguém lê poesia, que remete para o simbólico e cujos termos admitem uma generosa amplitude de cargas semânticas, da mesma forma como um texto jurídico, que se pauta por uma objectividade quase obsessiva, onde cada vírgula conta e cada termo deve ser o mais explícito e claro possível.

Conta-se que no interior do Brasil dos anos quarenta um recluso aderiu à fé cristã na cadeia. Ao tomar contacto com a Bíblia deparou-se com o seguinte texto do evangelho de Mateus: “Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno” (18:8,9). Acto contínuo arrancou um dos olhos de modo a evitar cair no inferno…

Como é óbvio a tentação da literalidade é amiga dos fundamentalismos e tem as suas razões, a maior das quais será talvez a falta de cultura bíblica, que não tem em conta os contextos escriturísticos, culturais, políticos, sociais e religiosos das diferentes eras ao longo de milhares de anos.

Por outro lado trata indistintamente o Antigo Testamento e o Novo como se fossem escritos na mesma época, sem distinguir os termos nem os tempos das alianças e ignorando a entrada do Cristo Encarnado na história humana, da qual resultou um novo paradigma. Querem aplicar a lei de Moisés à Igreja, mas normalmente apenas a parte que interessa. Caso contrário assumem justificações casuísticas para as incongruências demasiado fortes que a literalidade não consegue ultrapassar.

Se os cristãos fossem hoje cumprir a Torah à letra estaríamos a apedrejar até à morte os adúlteros e os homossexuais, não poderíamos envergar roupa com incorporação de determinados tipos de tecidos, não podíamos comer um rol imenso de alimentos e satisfaríamos muitos outros interditos, além de guardar religiosamente o sábado, quando ninguém poderia trabalhar.

Portanto, a literalidade bíblica não pode servir apenas quando dá jeito, nem pode ser alvo de aplicação casuística sem qualquer lógica ou enquadramento hermenêutico. Uma boa exegese obriga a critérios claros e objectivos que não permitam devaneios interpretativos. Stephen Tomkins escreve no The Guardian que na declaração de fé da Convenção Baptista do Sul (EUA), o primeiro ponto é a Bíblia, antes de qualquer menção a Deus. Daí o célebre aforismo idólatra de William Chillingworth: “A Bíblia, digo, apenas a Bíblia, é a religião dos protestantes!” Nestas coisas há uns que erram por excesso e outros por defeito.

O literalismo bíblico é uma pecha característica de alguns sectores religiosos. O verdadeiro problema está em que muitos, em vez de abordarem os textos bíblicos com toda a seriedade e disponibilidade mental e espiritual, usam-nos de forma instrumental, como ferramenta com o fim de validar os seus pressupostos doutrinários e a sua agenda religiosa. E já se vê que daí não pode resultar nada de bom. Fazer uma sopa de letras, quando se trata dos textos bíblicos (ou quaisquer outros), resulta sempre numa mistela intragável.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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