Sophia lida pelos mais novos (6) – A Floresta

| 14 Dez 19

Uma floresta onde se esconde um tesouro – e o que fazer com ele? Um convento de frades e um bando de bandidos, uma menina que acredita em anões e um anão que guarda a floresta há 200 anos. E ainda um músico que só precisa de 20 moedas e um cientista olhado como louco. Ingredientes de A Floresta, um dos contos infantis de Sophia de Mello Breyner, hoje aqui relido em textos e ilustrações de alunos do 4º ano, turma C, da Escola Básica Bom Pastor (Porto) –e ainda numa placa de pasta de modelar dos alunos do 6º ano do Externato da Luz (Lisboa). 

Esta releitura dos contos infantis de Sophia, constitui uma outra forma de assinalar o centenário do nascimento da autora de Contos Exemplares, assinalado a 6 de Novembro. Esta celebração passou já, no 7MARGENS, pelos textos e ilustrações sobre A Fada Oriana, de O Cavaleiro da DinamarcaO Rapaz de Bronze, A Menina do Mar e A Árvore e prossegue na próxima semana. 

Sophia foi evocada já no 7MARGENS por um artigo acerca do convite à viagem na sua poesia, bem como com um poema (quase) inédito e um outro texto sobre No Tempo Dividido e a temporalidade na sua obra poética.

Desenho dos alunos do 4º ano C, da Escola Bom Pastor, para o livro “A Floresta”, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

“Este tesouro não pode ser dividido”

Era uma vez uma casa que tinha uma cozinheira e a sua ajudante. Na quinta dessa casa havia arvoredos muito giros, fontes e jardins. Nessa casa vivia uma menina chamada Isabel.

Certo dia, a Isabel foi à floresta onde fez uma casinha para os anões, mas a Mariana, empregada da casa, disse à Isabel que os anões não existiam, porque ela nunca viu nenhum e se visse algum ficaria espantada.

Passado algum tempo, a Isabel foi à floresta e encontrou um anão na casinha que ela tinha feito. O anão tinha aproveitado para dormir uma sesta na casinha que ela fez. Quando a Isabel viu o anão a dormir, teve vontade de o acordar, mas teve medo que ele se assustasse.

O anão abriu os olhos e olhou para a Isabel e disse:

– Deixa-me sair daqui.

– Eu não vou fazer-te mal nenhum – disse a Isabel.

– Deixa-me sair, por favor – disse o anão.

– Eu deixo-te sair com a condição de voltares, depois – disse a Isabel.

– Sim, eu volto – disse o anão

– Eu vou confiar em ti, mas tens mesmo de voltar – disse a Isabel

– Sim, sim, eu cumpro as minhas promessas – respondeu o anão.

– Também eu, por isso deixo-te sair – disse a Isabel.

O anão foi dar uma volta e, passado muito tempo, ainda não tinha regressado, por isso a Isabel disse:

– Aquele anão fugiu.

Passado um bocado, chegou o anão e a Isabel disse:

– Eu pensava que já não vinhas.

– Eu cumpro as minhas promessas – disse o anão.

A Isabel estava feliz por ter concretizado o seu sonho de conhecer um anão. Ela ia todos os dias à floresta conversar com o anão.

O anão contou-lhe a história daquela floresta onde existiam salteadores. Mas um dia conseguiram prender todos eles.

O capitão dos salteadores ficou ferido e pediu aos frades que viviam naquela floresta para o curarem, mas os frades não conseguiram curá-lo e ele acabou por morrer. Antes da sua morte, o capitão dos salteadores muito arrependido pediu que o frade desse o seu tesouro a alguém bom. O cofre com o dinheiro do salteador ficou escondido debaixo da capela. Os frades não encontravam ninguém bom a quem dar o tesouro dos salteadores.

Certo dia, construíram um muro à volta da floresta e os anões que adoram a liberdade foram viver para os campos de flores, no Norte.

– Isto que eu estou a contar-te foi há duzentos anos, nessa época todos os meus amigos partiram e só eu fiquei a tomar conta do tesouro dos salteadores. Eu fiquei triste por estar longe dos meus amigos.

– Vamos ter de arranjar um remédio para essa situação – disse a Isabel.

Eles ficaram em silêncio e, de vez em quando, uma folha caía com um leve rumor.

– É aqui que está o tesouro. Junto às últimas paredes da capela os anões fizeram uma sala subterrânea e colocaram lá o tesouro. Essa sala subterrânea tem um cheiro horroroso – disse o anão.

– O meu professor Cláudio é uma boa pessoa e poderia ficar com esse dinheiro para comprar um violino novo.

O professor Cláudio não quis ficar com todo aquele dinheiro, ele só queria vinte moedas, mas o anão disse:

– Não podes, porque este tesouro não pode ser dividido, ele deverá ser todo para uma pessoa boa.

Leonor Leite e Francisco Leite

Transformar as pedras em ouro

O anão contou a história da floresta à Isabel e a Isabel apresentou-lhe o seu professor de música.

O anão decidiu dar o dinheiro dos bandidos ao músico, mas ele não aceitou o dinheiro todo, porque só precisava de vinte moedas. O anão disse que tinha prometido ao frei João e ao rei dos anões dar o dinheiro a uma pessoa boa.

– Nunca mais me livro deste dinheiro!

Todos se calaram até que o professor Cláudio deu um salto e disse:

– Tenho uma ideia! Um amigo meu, que se chama Dr. Máximo, tem um desejo desde pequeno, que é ser rico, mas como não consegue já lhe chamam tolo e atiram-lhe pedras para ele transformar em ouro. Ele é boa pessoa e só quer ser rico para dar o dinheiro aos pobres. Nunca o vi zangado com as pessoas.

O anão deu o dinheiro ao professor Cláudio e o professor Cláudio encheu o laboratório do Dr. Máximo com pedras de ouro.

O Dr. Máximo começou a rir e a chorar de contente quando viu o ouro e a dizer que afinal não era maluco. O Dr. Máximo decidiu dar o ouro aos pobres, mas apareceram logo os banqueiros e os comerciantes. Cada um deles fez a sua proposta mas todos ouviram a mesma resposta.

– Não. Eu quero dar o dinheiro aos pobres – disse o Dr. Máximo.

Algumas pessoas ainda tentaram roubar as fórmulas do Dr. Máximo para transformar as pedras em ouro.

Por fim, o Dr. Máximo distribuiu todas as moedas pelos pobres, o anão foi-se embora e a Isabel ficou triste.

Leonor Silva

Impressionada com o segredo da floresta

Era uma vez uma menina que se chamava Isabel. Ela vivia numa quinta muito grande e adorava passear pela quinta. A Isabel acreditava em anões e fez uma casa para os anões. Ela preparou a casa com a cama e os tapetes da casa das bonecas.

Um dia, a Isabel viu um anão a dormir na casa que ela construiu. Ele estava a dormir tão bem que a Isabel não quis acordá-lo.

Quando o anão acordou contou à Isabel a história daquela floresta e dos bandidos que lá viveram. A Isabel estava impressionada com o segredo da floresta.

Há muito, muito tempo, uns frades viviam num convento muito pobre que existia naquela floresta e eram muito felizes até aparecerem os bandidos que deixaram aquela região com medo.

Margarida Leite

“Já fiz o meu trabalho”

Era uma vez uma menina chamada Isabel que morava numa casa muito grande. Ela acreditava em anões e tentou procurar um anão mas não encontrou. Então, ela aceitou o facto de os anões não existirem mas, mesmo assim, construiu uma casa para os anões. Ela iria fingir que tinha anões a viver naquela casa.

No domingo, a Isabel construiu a casa, na segunda ela trouxe muitos trabalhos de casa, na terça ela foi à festa da tia, na quarta saiu com a mãe mas na quinta era feriado e a Isabel foi até à casinha que ela construiu debaixo das raízes do carvalho.

A Isabel abriu a porta da casa e viu lá um anão deitado na cama a dormir. Ela deitou-se no chão à espera que o anão acordasse. Quando acordou, o anão ficou muito aflito.

– Acalma-te, anão. Acalma-te.

– OK. Fazemos um acordo tu vais para perto daquela árvore e deixas-me sair daqui.

A Isabel aceitou a proposta e o anão fugiu. A Isabel procurou-o mas não o encontrou e disse zangada:

– Anão, anão, eu sabia que não podia confiar em você.

O anão jogou uma pedra à Isabel e ela viu-o pousado num ramo. O anão já confiava na Isabel e contou-lhe a sua história.

– Há mais de duzentos anos que estou aqui na floresta sem os meus amigos e os meus parentes, a tomar conta deste ouro.

– Já sei. Dá o ouro ao meu professor de música – disse a Isabel.

O anão tentou dar o ouro ao professor de música mas ele não quis.

O professor de música disse:

– Vamos dar o ouro ao meu amigo cientista. Ele fez tantas experiências que ficou pobre. Ele anda a fazer uma experiência mas eu já sei que essa experiência vai dar errada. Porque não colocamos o ouro no laboratório do meu amigo cientista? Ele deu-me a chave – disse o professor de música.

O anão pensou e disse que sim e, passados três dias, o cientista entrou no laboratório, viu que a experiência tinha corrido bem e ficou feliz.

Algumas pessoas importantes pediram ao cientista para parar com as suas experiências. Alguns dias depois, o laboratório estava queimado e o cientista disse:

– Ainda bem. Eu já transformei as pedras em ouro e ninguém vai duvidar disso. Já fiz o meu trabalho.

Mário Aragão Pereira

“O homem muito bom nunca apareceu”

Era uma vez uma menina que vivia numa casa no meio da floresta. Um dia ela perguntou à Emília, a ajudante da cozinha, se os anões existiam e a Emília respondeu:

– Claro que não, os anões não existem!

A Isabel ficou muito espantada com a resposta da Emília e resolveu fazer uma casa pequenina para ver se eles, realmente, existiam ou não.

Então, um dia, a Isabel acordou muito cedo e pediu à cozinheira chocolates e uvas passas e foi depressa ver se a casa dela tinha sido desfeita. Ela espreitou pela janela e viu um anão a dormir. Para não o assustar, a Isabel esperou que o anão acordasse.

Depois do anão acordar, a Isabel não queria deixá-lo sair da casa, porque tinha medo que ele fugisse. O anão prometeu regressar e a Isabel deixou-o sair.

Passado algum tempo, como o anão não regressou, a Isabel disse que ele era um mentiroso e um cobarde. Nesse momento, caiu uma noz na cabeça da menina.

Depois, o anão fez as pazes com a menina e o anão contou-lhe a história daquela floresta.

Um dia vieram para a floresta uns ladrões que queriam dominá-la e todos fugiram.

Os ladrões diziam uns para os outros:

– A nossa caça são os caçadores.

Os ladrões foram ao convento e disseram aos frades:

– Podem viver aqui, porque não há nada de especial neste convento, mas só com uma condição, vocês têm de ser os nossos médicos.

– Ok. Estamos de acordo – responderam os frades.

Como os ladrões estavam a roubar e a matar toda a gente um dos frades disse:

– Quero falar com o chefe dos ladrões.

Eles chamaram o chefe dos ladrões e o frade disse:

– Isso que tu fizeste é horrível. Tu não podes ser tão mau!

– Vou cortar-te a língua se disseres isso outra vez – respondeu o chefe dos ladrões.

Os ladrões foram envelhecendo e já não tinham xarope dos frades para a tosse.

Certo dia, um mercador muito rico ia a passar pela estrada e os bandidos decidiram assaltá-lo. Eles começaram a tossir e a espirrar e o capitão disse:

– Xiu! Todos calados.

De repente, os bandidos cercaram o mercador e assaltaram-no. Mas os bandidos perderam e tiveram de fugir. O capitão dos bandidos ficou muito ferido e foi ter com os frades para ser curado.

Passados três dias, os frades chamaram os anões e contaram-lhes:

– Sabemos muito bem onde está o tesouro do capitão, mas as arcas são enormes e vai ser preciso um carro para levá-las.

– Como é que havemos de arranjar um carro? – perguntou o frade mais novo.

– Nós fazemos um carro – exclamou o rei dos anões.

Durante uma semaninha, os anões corajosos trabalharam à grande sem descanso, cortando algumas árvores, aplainando troncos e pregando pregos.

Quando acabaram viram que as arcas não caberiam nas celas do convento, nem no refeitório e era impossível guardá-las na capela. Por isso, os anões construíram, por baixo da capela, um quarto subterrâneo com uma entrada secreta onde as arcas ainda lá estão guardadas.

– Então os frades não deram as arcas com as moedas de ouro a um homem muito bom? – perguntou a Isabel

– Ai! – exclamou o anão – o homem muito bom nunca apareceu.

Maria Lima e Mariana Sousa

 

(O 7MARGENS agradece a Manuela Sousa a colaboração prestada)

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