[domingo xxviii do tempo comum ─ b ─ 2024]

[vinde às outubradas! − / baila a fé ao vento / corre sangue nas folhas © haiku e fotografia: Joaquim Félix]
1. Eis que hoje o sol nos visita na sua luz cálida
semelhante ao simpático olhar pascal de Jesus!
Depois da tempestade Berenice
e da passagem do ciclone Kirk,
sentimos que somos devolvidos à calmaria outonal,
aos contentamentos das nossas amenas outubradas.
Se vemos ainda, um pouco por todo o lado,
estruturas e árvores derrubadas pela violência da intempérie,
também descobrimos que há milagres à nossa volta.
Até o sol fez bailar a fé dos milhares de peregrinos,
reunidos na esplanada do santuário de Fátima,
sem precisar de rutilar como no dia 13 de outubro de 1917.
Por sinal, a grande assembleia rezou com o cardeal Leonardo Steiner
― imagine-se o paradoxo! ― por aqueles que, na Amazónia,
sofrem com a falta das chuvas,
a seca dos igarapés e a perda de navegabilidade dos rios.

[Diospireiro coroa-de-rei partido pelo ciclone Kirk © fotografia: Joaquim Félix]
2. Longe de serem como o Furacão Milton,
que causou vários mortos e avultados prejuízos,
também entre nós se fizeram ouvir os rugidos das fortes rajadas.
Ao contrário do antigo filme, nem tudo o vento levou,
pois é possível descobrir maçãs e nozes nos pomares,
folhas na transumância das suas cores,
pepinos-estrelas trepando por salgueiros e amieiros,
pequenos cachos de uvas rebuscados por abelhas e vespas.
O vento tem a capacidade de varrer o mundo,
de lavar os ares com a vassoura das suas correntes.
E desnuda as árvores das folhas caducas
para que os seus corpos tomem banhos medicinais de luz.

[Pepinos-estrelas © fotografia: Joaquim Félix]
3. A palavra de Deus também se faz sentir assim,
na sua impetuosidade, para cumprir a sua missão universal.
Persuadido disso mesmo, o salmista canta:
«A voz do Senhor retorce os carvalhos e despe as florestas,
e no seu templo todos dizem: Glória» (Sl 29,9).
Aqui reunidos, cantamos a Glória divina, sim,
porque o criativo sopro da boca de Deus
nos insufla a vida ― de barro húmido ― para que ela seja
mais limpa, mais banhada pela luz pascal;
seja simplesmente mais, mais, mais,
a fazer recordar aquela belíssima canção de Mercedes Sosa:
«Sou pão, sou paz, sou mais»
Efetivamente, o autor da Epístola aos Hebreus lembra:
«Não há criatura que possa fugir à sua presença:
tudo está patente e descoberto aos seus olhos» (Hebr 4,13).
4. Ela pode ser comparada à chuva (cf. Is 55,10-11) e ao vento,
para nos fazer reflorescer e joeirar,
mas também à «espada de dois gumes» (Hebr 4,12).
Sendo mais cortante do que as espadas de duplo fio,
a palavra «penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito,
das articulações e medulas,
e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração» (Herb 4,12).
Ah, se fôssemos pão e paz,
a palavra cortar-nos-ia em pedaços para matar a fome do mundo!
E, oh, seríamos invioláveis cortinas de platina a evitar as guerras!

[Se fôssemos pão e paz, a palavra cortar-nos-ia em pedaços © fotografia: Joaquim Félix]
5. Permiti que recorra ainda à canção da Mercedes,
para ouvir o eco ruminante da palavra de Deus:
«Vamos, diz-me, conta-me
Tudo o que se passa contigo agora
Porque senão quando tua alma é sozinha, ela chora
É preciso tirar tudo para fora, como a primavera
Ninguém quer que algo morra dentro
Falar olhando-se aos olhos
Tirar o que se possa para fora
Para que dentro nasçam coisas novas».
6. A fim de que, por dentro e também do alto, renasçamos,
Jesus pede-nos para fazermos desta estrofe um refrão:
«Sou pão, sou paz, sou mais, sou quem está aqui
Não quero mais do que tu querias dar, uhh
Hoje algo é dado, hoje algo é tirado
Igual como à margarida, igual ao mar
Igual à vida, à vida, à vida, à vida».

[Da vida oferecida até ao fim © fotografia: Joaquim Félix]
7. A vida, para ser vida, não prescinde da sabedoria.
Como adquiri-la neste tempo em que as riquezas
nos sufocam nas imanências sem transcendência, sem partilha?
A palavra do autor do livro da Sabedoria dá-nos pistas.
Quem é que hoje implora por sabedoria, desde a juventude,
como Salomão ao iniciar o governo do povo de Israel (2 Crónicas 1,10)?
Por falar em Israel, como não perguntar:
Terá Israel renunciado ao património dos seus livros sapienciais?
Nestes dias explosivos, poderemos admirar-nos com Israel
― que bombardeia Gaza, o Líbano e a Cisjordânia ―,
e dizer: «Em verdade esta grande nação
é constituída por um povo sábio e inteligente»? (Deut 4,6)?
8. Sem quaisquer ódios contra o povo Judeu,
não concluiremos ― pergunto ― o que Joseph Ratzinger escreveu
acerca de uma má interpretação da sua saída do Egito pelo deserto?
«No fundo, a contraposição da terra e do culto não tem sentido:
a terra é oferecida para ser um lugar de veneração de Deus verdadeiro.
A mera posse de terra e autonomia nacional
iria degradar Israel ao nível dos outros povos.
Tal finalidade desconheceria o excecional da eleição:
toda a história nos livros dos Juízes e Reis,
retomada e interpretada de novo no Livro das Crónicas,
mostra exatamente que, por enquanto, a terra, por e em si,
continua uma propriedade sem determinação;
ela só se tornará verdadeira e um real dom de promessa cumprida
com a condição de não existir como um Estado autónomo qualquer,
depois de se tornar um lugar de obediência,
onde haja a vontade de Deus que nela reina,
criando assim o modo correto da existência humana»
(J. Ratzinger, Introdução ao espírito da liturgia, 12).

[A terra é oferecida para ser um lugar de veneração © fotografia: Joaquim Félix]
9. É neste «lugar de obediência», nesta igreja,
que também nos encontramos rendendo culto a Deus.
E ouvimos Jesus como que a dizer-nos:
«Corres para Mim somente para fazer perguntas,
mas sem te decidires a dar um passo como meu discípulo?».
E, de seguida, ouvindo-nos Ele, poderia acrescentar:
«As riquezas podem fazer-te correr e até ajoelhar,
porém, se não te livrares daquilo que endurece e engorda o coração,
dificilmente poderás caminhar como um discípulo».
E, mais ainda: «A vida eterna não se alcança,
por méritos, através de dinheiro ou de uma lei observada;
a vida eterna recebe-se como dom».
E, deste modo, Ele nos repete, como no domingo passado:
«Quem não acolher o reino de Deus como uma criança,
não entrará nele» (Mc 10,15).
10. Jesus olha-nos com simpatia, fitando em nós o seu olhar,
e, com amor paternal, não sem a sua exclamação,
diz-nos com a ironia do camelo e do fundo da agulha
― imagem que mais parece de um filme de ficção:
«Como será difícil para os que têm riquezas
entrar no reino de Deus!» (Mc 10,23).
A riqueza não compra alargamentos de fundos estreitos;
antes, entope a circulação dos bens para o seu destino comum.

[A riqueza não compra alargamentos de fundos estreitos © fotografia: Joaquim Félix]
11. Sentimo-nos ofendidos ou espantados com o que Jesus nos diz?
Aqui em casa com Ele, estaremos à espera de cêntuplos,
de retribuições sem esforço, sem resistências, sem adversidades?
Enfim, quanto à troca das riquezas pelo tesouro futuro,
o melhor será praticar o que S. Paulo recomenda através de Timóteo:
«Ordena aos ricos deste mundo que não se orgulhem
nem ponham a sua esperança nas incertezas da fortuna,
mas em Deus, que nos dá abundantemente todos os bens, para nosso proveito.
Recomenda-lhes que façam o bem,
que se enriqueçam de boas obras,
sejam generosos, amigos de repartir com os outros.
Assim juntarão para si um sólido tesouro para o futuro,
a fim de alcançarem a verdadeira vida» (1 Tim 6,17-19).
12. Contigo, Senhor, e a Mercedes,
possamos sempre cantar:
«Sou pão, sou paz, sou mais».

[Das nossas amenas outubradas © fotografia: Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia deste domingo, 13 de outubro, domingo XXIII do tempo comum na liturgia católica, proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.










