AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Restaurante de imigrantes no bairro da Mouraria, em Lisboa: "Partilhamos o mesmo património, somos da mesma natureza, fomos criados à imagem e semelhança de um único Deus." Foto © Miguel Veiga

Testemunho de um bispo

Sou português emigrante

| 08/02/2026

A música traduz a alma de um povo. Recentemente, no encerramento de uma visita a uma comunidade, o grupo de cantares da terra avivou a festa com um rico repertório de música minhota. Concertinas, acordeões, guitarras, cavaquinhos e vários instrumentos de percussão acompanharam a intensidade das vozes projetadas por cabeças orgulhosas. A terra parecia tremer. A certa altura, alguém do público sugeriu: «cante lá o português emigrante». E de imediato, o homem de bigode farfalhudo, agitou a guitarra pintada com as cores da bandeira portuguesa, e entoou:

– Sou português emigrante

O grupo, maioritariamente de mulheres, de mãos nas ancas, olhar fixo em alguma estrela, respondeu em uníssono:

– Chora, chora, linda chora.

O diálogo entre o solista e o coro manteve-se até ao fim:

– Vou-me embora pró estrangeiro

– Chora linda que eu vou embora

– Deixo pai e deixo mãe

– Deixo a mulher a chorar…

 

O rosto do grupo de cantares, embalado ao som dos ritmos, parecia evocar cenas de outros tempos. Cantavam como quem reza. Rezavam como quem protesta. Protestavam como quem se lamenta de ter perdido algo de muito valioso e irrecuperável. Ali, naquela terra, como em muitas terras deste país, sob o olhar protetor de São Bartolomeu, brotaram rios de lágrimas pelo «português emigrante».

Entretanto, com o passar dos anos, a paisagem da velha aldeia foi redesenhada graças ao contributo daqueles que regressam, ainda que provisoriamente. As novas casas são como monumentos aos heróis. Na pequena capela, entre as imagens de santos, uma ocupa o lugar cimeiro. A Senhora dos Emigrantes é uma jovem de ar sereno que tem um menino ao colo. Ele tem a mãozinha levantada como quem abençoa e aponta numa nova direção. Ela, na mão direita, tem pousada uma pombinha, animal manso e errante, como foram muitos daqueles que partiram destas terras.

Tão antigo como a humanidade, o fenómeno migratório configurou o ambiente social de tantos lugares. Esvaziou terras, enfraqueceu comunidades, semeou abundantes lágrimas, mas também teceu sonhos e esperanças, transformando vidas e nações. Hoje, na aldeia junto ao mar, à sombra da velha igreja, a melodia entoada pelas novas famílias marcadas pela migração, podia ser atualizada com a seguinte letra:

– Sou nepalês emigrante

– Chora, chora, linda chora

E se déssemos um ritmo mais acelerado, poderia ter outras variantes:

– Sou venezuelano emigrante…

Na escola primária da aldeia, fomos recebidos pelo professor natural do Brasil. Algumas das salas da escola só se mantêm abertas por causa das crianças estrangeiras. «Já são 19 nacionalidades», disseram. Vejo-as no recreio em brincadeiras e algazarras e não sou capaz de diferenciar um português de um estrangeiro. Sei, porém, que algumas destas famílias recém-chegadas, em longas noites, cada uma na sua língua, canta como quem reza, como quem protesta, como quem se lamenta:

– Ó minha mãe, minha mãe

– Tantas vezes me faz lembrar

– Daquela velha casinha

– Onde ficaste a chorar…

 

Na Igreja, desde muito cedo existe a consciência de que somos todos irmãos. Mesmo quando percorremos caminhos diferentes para chegar a Deus ou para dissertar sobre a eternidade, crentes ou não crentes, asiáticos ou europeus, africanos ou americanos, partilhamos o mesmo património, somos da mesma natureza, fomos criados à imagem e semelhança de um único Deus.

Por isso, quando se insinuam divisões e semeiam lágrimas desnecessárias, é preciso lembrar as lições básicas, aquelas que deveríamos ter aprendido num catecismo elementar e que nunca deveriam ter sido esquecidas, sob pena de facilitarmos as nascentes torrentes de lágrimas. Hoje, é também nosso dever reavivar a memória dos esquecidos e consolar os que choram.

 

Nélio Pita é padre da Congregação da Missão (Padres Vicentinos) e bispo auxiliar de Braga.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This